OESP, 29.09.02

Integração econômica

 

A globalização é um fenômeno de múltiplas dimensões, mas quando se trata de apontar suas características estritamente econômicas ela se confunde com o que os economistas chamam de integração econômica. Trata-se aí da fluidez nas trocas comerciais de bens e serviços, e na movimentação internacional de fatores de produção, trabalho, capital financeiro, produtivo e tecnologia.

A integração econômica avançou de forma inusitada nas últimas décadas, não apenas quantitativa mas qualitativamente. Ou seja, não apenas o mundo é uma economia mais “aberta”, pois a razão entre fluxos de comércio e produção industrial é maior de todos os tempos, como também o intercâmbio entre as nações mudou de natureza em vista, por exemplo, do comércio intra-firma, ou seja, aquele que tem lugar entre empresas do mesmo grupo.

Existem muitos descontentes com a globalização, e em particular com os danos, reais ou imaginários, causados pela integração, mas já não existem mais céticos, ou seja, aqueles que negavam a existência ou a importância do fenômeno.

Em boa medida a integração econômica avançou de forma desigual em diferentes áreas do planeta mercê da influência de acordos internacionais cujo impulso surgiu da esfera política. Ou seja, o impulso integrador gerado por acordos regionais e sub-regionais, como os da Europa, o Mercosul e o Nafta por exemplo, foram mais fortes que os provocados pelos acordos multilaterais sob os auspícios da Organização Mundial do Comércio.

De toda maneira, deve-se ter claro que acordos internacionais de comércio e de integração são apenas uma metade da história; talvez a parte mais relevante do processo de globalização tenha tido lugar de forma espontânea, ou seja, tendo como base estratégias corporativas individuais empresas multinacionais e desligadas dos acordos comerciais.

Neste sentido deve-se ter em conta o papel fundamental do investimento direto internacional, que produz integração e abertura para onde vai, nem sempre no mesmo momento mas seguramente com o passar dos anos. Hoje em dia uma proporção da ordem de um terço ou mais do comércio mundial é de comércio “intra-firma”. Como este tipo de comércio não existia há 50 anos atrás, pode-se dizer que a maior parte do crescimento do comércio mundial nas últimas décadas foi provocado pela internacionalização da produção industrial no seio de corporações multinacionais.

Aqui no Brasil o processo de integração internacional foi predominantemente espontâneo e no primeiro momento, com efeito, o investimento direto era para “destruir” comércio. As empresas estrangeiras começaram a vir para cá em quantidade durante o período dito de “substituição de importações”, ou seja, tratava-se, explicitamente, de “trocar” importações por produção local de empresas estrangeiras, que vieram felizes para atender “de dentro” um grande mercado que antes atendiam através de exportações da matriz.

Com o tempo, todavia, essas filiais aqui localizadas tiveram de submeter-se a uma lógica de racionalização de atividades emanada de suas matrizes, da qual resultava um crescimento do comércio entre filiais em diferentes países. O programa BEFIEX, nos anos 1970, criou um canal para que esta integração tivesse lugar mas, posteriormente, com a progressiva liberalização comercial, o programa perdeu o sentido. O comércio “intra-firma” continuou a avançar, não obstante, e com velocidade, produzindo uma abertura “espontânea” quase que desligada dos objetivos explícitos da política econômica local.

Depois da estabilização essas tendências se acentuaram de forma dramática. As medidas liberalizantes de política comercial, que pareciam surtir pouco efeito antes do Real, subitamente pareciam muito mais potentes do que jamais se poderia esperar. O grau de abertura da economia se multiplica por 4 ao longo dos anos 1990, e o investimento direto estrangeiro no período 1995-2000 acumula mais de US$ 100 bilhões, ou seja, mais que o dobro do que estoque existente em 1995. A integração internacional da economia brasileira avançou mais nesta década do que em qualquer outra neste século.

Sem dúvida o papel da política comercial foi relevante, mas tem sido largamente exagerado mesmo quando se leva em conta os efeitos do Mercosul. O processo de integração internacional da economia brasileira foi e continua sendo predominantemente espontâneo, pois tem como base as empresas estrangeiras aqui localizadas, que têm no seu “DNA” os códigos genéticos da globalização.

Outras nações, como Portugal, Espanha e México tiveram enormes vantagens em engajar-se em acordos de integração que potencializaram imensamente os impulsos espontâneos de integração advindos de oportunidades comerciais e de estratégias de multinacionais localizadas nestas regiões. Seguramente o Brasil poderá também beneficiar-se de acordos de integração em diferentes direções, nisto diferenciando-se destes países, que tinham apenas um “bloco comercial” para se integrar. São maiores as opções de que dispõe o Brasil; talvez por isso mesmo não exista nenhuma estratégia muito clara sobre o que é melhor para nós nesse domínio.