OESP
(01.06.03)
O custo de chegar ao Poder
Quando o PSDB era governo, o PT fazia
uma oposição que hoje sua própria liderança reconhece ter sido agressiva e
mesmo destrutiva. Tudo era entreguismo, submissão aos banqueiros e ao capital
especulativo, ou motivo para CPIs. Reformas, imagine, nem pensar, a
Constituição Cidadã era uma conquista e portanto intocável.
Hoje se percebe que tudo, ou quase
tudo, era teatro, e que o objetivo era o de atrapalhar o projeto de poder do
PSDB, mesmo que para isso saísse prejudicado o Brasil. Assim é a política. A
liderança petista candidamente admite a esperteza, digna de grandes raposas do
passado, e faz seu "Mea Culpa" com sorrisos de cantos de boca, como
se fosse uma leve travessura sem maiores conseqüências. Afinal de contas, no
plano estritamente político, a estratégia foi bem sucedida, eles maximizaram o
desgaste do PSDB em passar reformas (que foram boas para o Brasil e que ninguém
tenciona desfazer) e, ao fim das contas, ganharam as eleições.
A liderança petista reconhece,
portanto, que impediu no Parlamento, no Judiciário ou mesmo nas ruas, como nos
tumultos contra as privatizações, o avanço de reformas, como a da Previdência e
do Sistema Tributário, que agora - seis ou sete anos depois - elegeu como
prioritárias e urgentes para a restauração do crescimento. Ou seja, tudo isso
que o presidente Luiz Inácio da Silva está propondo hoje para a Previdência, e
muito mais, poderia ter sido feito há seis ou sete anos, e não foi feito em boa
medida por causa do próprio PT.
Sim, o governismo teve defecções, sem
as quais poderia ter passado as reformas atropelando a postura negativista do
PT. Mas daí a dizer que a culpa pelos prejuízos causados pelo atraso nas reformas
é do governo vai uma distância grande, tão grande quanto a que separa os pontos
de vista que o PT tem hoje sobre as reformas e os que tinha, ou fingia que
tinha, na época em que as combateu.
Pois bem, quanto custou ao Brasil
atrasar em seis ou sete anos a seqüência de reformas que começa com a da
Previdência e do Sistema Tributário e deve prosseguir com a reforma trabalhista
e muitas outras?
Medido em bilhões de dólares, ou em
pontos porcentuais do PIB, foi imenso o prejuízo ao país causado pela escolha
"pragmática" feita pelo Partido dos Trabalhadores, mesmo que a conta
se limitasse unicamente aos efeitos financeiros diretos das nova legislação
hoje proposta. Para se saber esta quantia exata basta perguntar ao ministro
Berzoini quanto terá a Previdência de ganhos com a reforma nos seus primeiros
sete anos. A resposta seguramente vem em bilhões de dólares e tem dois dígitos.
Este foi o custo, em dinheiro de hoje.
Os efeitos indiretos são mais difíceis
de calcular: a dívida pública não teria crescido tanto, os juros não
precisariam ter sido tão altos, o crescimento teria sido maior, o país estaria
mais robusto e competitivo diante das crises externas posteriores a 1997. Qual
seria a taxa de desemprego hoje, ou a taxa de juros, se a Reforma da Previdência
tivesse sido feita há sete anos atrás?
Tudo mundo sabe que tudo teria sido
muito melhor, tão melhor que o governo FHC teria sido mais bem sucedido e
provavelmente o PT não teria ganho as eleições de 2003. Isto comprova três
teses: (I) a da urgência e relevância das reformas, agora consenso absoluto
(II) a de que o PT deliberadamente prejudicou o Brasil para chegar ao Poder,
portanto, passando no "vestibular" para partido político de raposas
feito as outras e (III) a de que o PT não tinha como não tem "modelo
econômico alternativo", pois o que está fazendo é apropriar-se
competentemente de uma agenda de desenvolvimento que nunca foi sua, mas que o
próprio PSDB deitou fora por que acreditou tratar-se de uma agenda neoliberal.
Nada disso retira o brilho da vitória
política do PT, que sacrificou sua proverbial coerência revolucionária,
abandonou suas idéias fundadoras, diminuiu sua capacidade de falar em ética na
política, igualou-se aos outros partidos, prejudicou a economia para atrapalhar
o inimigo, mas ganhou as eleições. Na política, importa é ganhar, e o PT é um
projeto de poder bem sucedido.
O que tem início a partir do final dos
festejos e dos primeiros cem dias de indulgência máxima, é todavia, uma
experiência inteiramente nova. Quem é este governo que acabamos de eleger?
Sabemos que não é mais o mesmo partido que votou contra absolutamente tudo que
hoje entende como prioritário. E sabemos também que o PT não é um partido com
capacidade de formulação de políticas públicas dentro do programa que costumava
chamar de neoliberal.
Que governo é esse, ao final das
contas? Quais são suas idéias, suas propostas? Tendo se despido de seu passado,
que novo figurino deverá adotar?
A este respeito vale lembrar uma velha
história pertencente ao folclore do saudoso professor Mario Henrique Simonsen.
Diante de uma tese apresentada por aluno aspirante a um título qualquer, seu
veredicto foi salomônico: a tese tem idéias novas e boas, só que as novas não
são boas, e as boas não são novas.