Valor Econômico
30/03/2007
Novas contas nacionais: o Brasil está melhor?
30/03/2007
Armando Castelar Pinheiro
|
Roberto
Campos dizia que as estatísticas são como um biquíni: mostram tudo menos o
essencial. Seguindo a analogia de Campos, pode-se dizer que a revisão das
contas nacionais foi como passar de um "duas peças" para um fio
dental. As novas contas trazem mais detalhes da economia brasileira,
baseiam-se em melhores informações e, talvez por isso, mostram um quadro mais
consistente do país. Está de parabéns o IBGE. Infelizmente, porém, nem tudo
agora desnudado pelo Instituto enche os olhos de alegria. As novas contas
mostram um PIB 10% mais alto. Mas apenas metade (53%) desse aumento decorre
da reestimação do valor adicionado. O restante resulta da reavaliação (para
cima) da carga de impostos, em especial "a reclassificação da Cofins de
imposto por atividade para imposto por produto". É uma tecnicalidade
estatística, fumaça, por assim dizer. |
|
O PIB
também cresceu mais nas novas séries: em 2001-06, 2,9%, ao invés de 2,3% ao
ano. Pela ótica do valor adicionado, pouco mais de 70% desse aumento são
explicados pela elevação das taxas de expansão da administração pública e das
atividades imobiliárias e aluguel; respectivamente, de 1,4% para 3% ao ano, e
de 1,7% para 4,1% ao ano. Os impostos também contribuíram mais para o
crescimento na nova série. Não foi, portanto, um maior dinamismo da indústria
ou da agricultura que elevou a estimativa do ritmo de expansão do PIB. |
|
Isso
significa que nada de muito relevante mudou com relação à discussão sobre o PIB
potencial e a política monetária. O crescimento mais forte da produção
deve-se, principalmente, à reavaliação do ritmo de expansão dos serviços
produzidos pelo governo e pelos imóveis já existentes (aluguéis imputados),
que já trazem embutidos uma elevação exatamente igual do consumo. Por
exemplo, eles mostram que as famílias estavam consumindo mais serviços de
moradia do que antes imaginavam. Eles não significam que a economia tem
capacidade para produzir bens industriais, por exemplo, a um ritmo mais forte
do que antes se imaginava. De fato, o crescimento da indústria de
transformação em 2001-06 é exatamente igual nas duas séries, 2,3% ao ano. |
|
Apesar
de consumir muito, o setor público gasta pouco em educação: em 2005, apenas 4,1%
do PIB, contra 5,4% do PIB na média da OCDE |
|
Pela
ótica da despesa, o destaque foi o consumo da administração pública. Na série
antiga, este aumentava 1,3% ao ano; na nova, 3% ao ano, um valor mais coerente
com a forte elevação observada no gasto público corrente. Esta revisão
explica, sozinha, 58% do aumento no crescimento do PIB pelo lado da demanda.
O consumo do governo também foi reavaliado para cima na nova série, com uma
elevação média de 11% no seu valor em 2001-06. Com isso, passou a responder
por precisos 19,9% do PIB, quase o dobro do registrado em 1967-86 (10,3% do
PIB). |
|
Trata-se
de um patamar elevadíssimo, semelhante ao observado, na média dos anos 1990,
para os países da OCDE (19,8%), e muito superior ao que registram países que
crescem rápido e fornecem serviços públicos de melhor qualidade aos seus
cidadãos, como Coréia (12,7%), Chile (12,6%), Irlanda (14,8%) e Estados
Unidos (15,4%). Ainda mais assustador é perceber que, apesar de consumir
muito, o setor público gasta pouco em educação: em 2005, apenas 4,1% do PIB,
contra 5,4% do PIB na média da OCDE. Seria de se esperar que, com uma
população mais jovem, o Brasil gastasse mais, e não menos, em educação. |
|
Esse
alto nível de consumo faz com que, apesar da carga tributária elevada, o
setor público invista e poupe pouco. Em 2000-2005, o investimento público foi
de 1,8% do PIB, contra 3,5% do PIB em 1967-86 e uma média de 3% do PIB na
OCDE. Excluindo-se o componente de inflação na despesa com juros, a poupança
pública em 2000-2005 foi de 0,7% do PIB, contra 2,8% do PIB em 1967-86. Está
aí, no patamar e na composição do consumo público, uma boa parte da
explicação de por que, mesmo nas novas contas, o Brasil cresce bem menos que
a média dos emergentes. |
|
As novas
contas mostram que o consumo privado de fato não caiu como proporção do PIB,
como indicavam as contas antigas, o que parecia inconsistente com a expansão do
crédito ao consumo observada desde o lançamento do Real. O outro lado da
moeda, porém, é que a taxa de poupança é mais baixa e caiu mais que se
pensava: em 2000-05, ela ficou em 15,6% do PIB, contra 18,6% do PIB em
1967-86. De fato, um dos importantes avanços nas novas contas foi corrigir as
estatísticas de investimento e poupança. Nas séries antigas, havia uma grande
discrepância entre o investimento a preços constantes e correntes, que
sugeria que os preços do investimento haviam subido muito mais que os demais
preços da economia. Essa discrepância é bem menor nas novas séries, o que,
como resultado da metodologia de cálculo utilizada pelo IBGE, também levou à
revisão da taxa de poupança. |
|
Pelas
novas contas, o Brasil cresceu mais, mesmo tendo investido menos do que se
pensava. Isso significa que a meta de crescimento de 5% ao ano está mais
próxima do que parecia? Decompondo a expansão do PIB em 1995-2006, obtém-se
que o fator que mais contribuiu para elevar o PIB foi o aumento da população
ocupada, em 2,1% ao ano. A produtividade total dos fatores, por sua vez,
subiu 0,8% ao ano. Mantidas estas duas taxas, para que o PIB cresça 5% ao ano
de forma sustentada o estoque de capital teria de aumentar 6,6% ao ano, bem
mais que o 1,6% ao ano observado em 1995-2006. Para alcançar esse objetivo em
cinco anos, o investimento teria de crescer 11,5% ao ano, atingindo 24% do
PIB. |
|
A
resposta à pergunta-título deste artigo é sim. Agora se dispõem de melhores
estatísticas e de um diagnóstico mais correto dos obstáculos à aceleração do
crescimento econômico. Mas a realidade em si não mudou. É como ir a um
restaurante a quilo e na saída ser informado que a balança subestimou o peso
do prato - a comida ingerida é a mesma. Da mesma forma, a taxa de crescimento
do PIB pode até aumentar, mantido o recente desempenho da administração
pública e das atividades imobiliárias, mas isso não fará o bem-estar se
elevar a ritmo mais acelerado do que se percebeu nos últimos anos. Para isso
é preciso poupar e investir mais em capacidade produtiva e educação. Esta
conclusão não mudou com a revisão do IBGE. |