Neste livro, um poeta escreve sobre economia, e um economista, sobre o poeta. A menor das surpresas é que o primeiro se revela um arguto analista econômico, e o segundo, um fino comentador literário. Afinal, Keynes era um excelente juiz de ficção e poesia, e vários poetas do século XX nos deixaram textos econômicos. A começar, e com insistência e gosto de polêmica, por um dos maiores dentre eles, Ezra Pound. Mas Pound era um adepto estridente das teorias esdrúxulas do major C. H. Douglas, e também das de Silvio Gesell, e seus ensaios econômicos só são lidos como curiosidades e exemplos de como o despautério entusiasmado pode seduzir e extraviar a inteligência. Já os artigos de Fernando Pessoa sobre economia resultaram do saber de experiência feito, do convívio com os negócios de quem se sustentou, por muitos anos, a escrever cartas comerciais. Pessoa não se deixava ficar na superfície de nada e possivelmente pensou a razão de ser de cada parágrafo que pôs no papel, quer como “correspondente estrangeiro em casas comerciais”, quer como o pequeno empresário que, durante alguns momentos de sua vida, também foi. Nesses artigos, quase de 1926, mostra-se, aliás, perfeitamente azeitada, a máquina de pensar pessoana. A elegância do raciocínio está a serviço de quem conhecia as aparências e os segredos da vida econômica. Neles, não há idéia que não se expresse com simplicidade, nitidez e leveza. Que não esteja marcada pela modernidade. Ou, melhor, que não nos pareça antecipatória da contemporaneidade, como deixa claro Gustavo Franco em cada uma das breves e instigantes introduções em que os comenta e nas quais enuncia as palavras que deles constariam, se tivessem sido redigidos em nossos dias. E isso porque o grande poeta se lançou em discussões sobre políticas econômicas e propôs práticas de organização e gerenciamento de empresas que só encontrariam audiência e foro há pouquíssimo tempo. Quase oitenta anos depois.

Ainda que se possa hesitar em incluir algum desses ensaios de Pessoa numa antologia de textos sobre economia, forçoso é admitir que vários deles cabem, e com relevo, numa história da inteligência e da cultura.      

                                                                                  Alberto da Costa e Silva