FSP, 09.11.03
ANTÔNIO ERMÍRIO
DE MORAES
Tributos versus informalidade
O governo acaba de passar a alíquota da Cofins de 3% para até 7,6%,
afirmando que não haverá aumento da carga tributária.
É verdade que as alíquotas serão diferenciadas e que o efeito cascata será
eliminado em uma série de operações -providência que deveria ter sido tomada há
muito tempo. Por isso os técnicos falam em mera redistribuição dos impostos, e
não em aumento da carga tributária.
A referida redistribuição precisa ser bem pensada. Seria bom se o governo
viesse a gastar menos e a viver com menos impostos. Isso permitiria atender as
necessidades da indústria -contemplada pela MP 135- sem, no entanto, castigar
principalmente os serviços. Do jeito que está, a MP em tela vai acentuar a
desigualdade entre os setores e estimular ainda mais a informalidade.
Sim, porque, nos dias atuais, o comércio e os serviços são os que mais empregam
e, ao mesmo tempo, os que mais atuam na informalidade. Reportagem publicada
pela Folha em 5/11 dá conta de que, segundo o IBGE, o número de trabalhadores
no mercado informal é quase igual ao do mercado formal quando se considera o
fato de terem ou não registro em carteira de trabalho. Mas essa classificação é
generosa.
O Ministério da Previdência Social faz uma distinção mais precisa entre os que
têm e os que não têm vínculo com o sistema previdenciário. Por esse critério,
cerca de 60% dos brasileiros que trabalham estão na informalidade, ou seja,
totalmente desprotegidos. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD
2002), realizada pelo IBGE, indicou haver cerca de 48 milhões de pessoas nessas
condições -contra 30 milhões que estão protegidas. É um número colossal!
O mais grave é que a grande maioria dos desprotegidos está nos setores de
comércio e serviços. Isso significa dizer que o setor de serviços é um dos que
mais emprega, menos formaliza e, agora, pagará mais impostos. Segundo os dados
da mesma PNAD 2002, o comércio e os serviços respondem por 38,5% do emprego do
setor privado enquanto a indústria de transformação responde por 13,5%.
A história da Confins é longa, tortuosa e triste. Tudo começou com o Finsocial
-inaugurado no governo João Figueiredo-, cuja alíquota inicial foi fixada em
0,5% sobre o faturamento das empresas. Em pouco tempo, passou para 0,6%. Em
seguida, saltou para 1,2%. Daí para a frente, rebatizado de Cofins, alcançou os
2% e, no governo Fernando Henrique Cardoso, chegou a 3%. Agora, com a filosofia
da redistribuição da carga, a Cofins dá um salto estratosférico, passando para
7,6% exatamente para o setor que mais emprega e que mais necessita de um alívio
tributário para trabalhar legalmente.
O Congresso Nacional terá de examinar essa medida provisória com muita atenção.
Essa estratégia de desvestir um santo para vestir outro nunca deu certo -muito
menos no campo dos tributos. O Brasil está precisando é de uma reforma ampla
que beneficie todo o setor produtivo, e não de expediente fatiados para
aumentar a arrecadação que punem os mais fracos, como é o caso do setor de
serviços.
Antônio Ermírio de Moraes escreve aos domingos nesta coluna.