A guerra da moeda
Plano Real e expõe os dramas de seus principais
combatentes
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Por Leonardo
Attuch
A trincheira era
imaginária. As armas eram
idéias poderosas. Com elas, um grupo de economistas tomou conta do País. Eis a
trama
de 3.000 Dias no Bunker – um plano na
cabeça
e um país na mão (Editora
Record, R$ 48,90), escrito pelo jornalista Guilherme Fiúza. A guerra foi
travada em torno da estabilidade de preços no Brasil e começou no governo
Itamar Franco, quando os economistas da PUC do Rio de Janeiro se juntaram ao
sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que havia assumido o Ministério da
Fazenda. Entre os combatentes, Pedro Malan, Gustavo Franco, André Lara Resende,
Persio Arida e Edmar Bacha, unidos pelo desejo de exterminar a inflação. Escrito
com um texto arrebatador, o livro de Fiúza revela detalhes inéditos do Plano
Real. Se dependesse do FMI, o Brasil teria dolarizado
sua economia, assim como a Argentina. E se dependesse de alguns economistas do bunker, a nova moeda, que quase foi batizada como “cristal”, teria sido lançada apenas após as eleições de
1994.
Fiúza também revela os
dramas vividos por cada um dos personagens da guerra, em especial do
protagonista Gustavo Franco. Um exemplo: na véspera do lançamento da URV,
embrião do real, Franco teve de arbitrar um caso de adultério entre dois
diretores do Banco Central. Em outro momento, quando os empresários faziam romaria contra o câmbio, Franco recebeu um grupo de
industriais no BC. Na saída, Cláudio Bardella enfiou
um papel no bolso do economista – era um pedido pessoal. Fiúza também revela
que FHC ligou para Gustavo Franco pedindo que ele liberasse um aval para uma
obra que a Andrade Gutierrez faria no Irã. Franco não cedeu e
não caiu.
Fiúza conta como outros
personagens participaram do processo de reforma do Estado. Um deles foi David Zylberstajn, que ajudou a criar as agências reguladoras. Outro
foi Sérgio Besserman, que, no BNDES, concebeu a Lei
de Responsabilidade Fiscal. Numa passagem, Fiúza relata como foi a transformação do antigo BNDE em BNDES – o “S” representava
a inclusão do Social. O primeiro projeto foi apresentado pelo banqueiro Luiz
Cezar Fernandes, que pretendia implantar um complexo para venda de
hortifrutigranjeiros no Rio de Janeiro, com a ajuda do banco. Como os diretores
ficaram com o pé atrás, Cezar deu um murro na mesa e disse que era melhor
esquecer essa história de social. Luiz Carlos Mendonça de Barros, então
presidente do BNDES, interveio e lembrou que o “B” era de “banco” e não de
“babaca”.
Na essência, o projeto dos
combatentes do bunker continua vivo. Tanto assim que,
em 2002, logo após as eleições presidenciais, Malan telefonou para Gustavo
Franco exaltando as virtudes de um médico de Ribeirão Preto chamado Antonio Palocci. Franco pensou por um segundo e disse ao amigo:
“Pedro, ganhamos as eleições!”