Estado de São Paulo, 2
de maio de 2003
Favelização da indústria
AS CONSEQÜÊNCIAS
DESTRUIDORAS DA TRIBUTAÇÃO INEFICIENTE
PEDRO L. BODIN DE MORAES
Durante o carnaval deste ano, fui convidado para um almoço no bairro do Bingen,
na cidade de Petrópolis, nos arredores do Rio. Tendo passado longa temporada
afastado, era a primeira vez que retornava à cidade em que passávamos, na
infância e adolescência, as férias de verão.
Minha surpresa não poderia ser maior. O antes bairro de classe média baixa,com
suas casas pequenas e arrumadas margeando o Rio Piabanha, havia se transformado
numa próspera favela. Próspera porque as moradias não tinham telhado de zinco
ou paredes de madeira, como os barracos retratados em filmes como Orfeu Negro
ou Rio, Quarenta Graus. As estruturas agora são de tijolo, ainda que sem
argamassa, pintura e arremate. O planejamento arquitetônico é inexistente, um
"puxado" aqui, outro acolá. As vigas de aço continuam a espetar o
espaço, à espera do que, quando o dinheiro sobrar, será o andar de cima. E, em
todos os telhados, as novas antenas de TV, estes enormes pratos de alumínio que
povoam qualquer paisagem urbana.
Voltei do almoço refazendo, de carro, um trajeto da minha juventude, passando
por ruas e bairros ainda frescos na memória: Ingelheim, Mosela, Duarte da
Silveira, Capela. Por toda parte, o mesmo cenário, a próspera favela no lugar
das modestas residências de antigamente. Os casarões, com raríssimas exceções,
lá estão decrépitos, como se pertencessem a um único e
conflituoso espólio. E as exceções, os casarões ainda abastados, estão cercados
por muros altos, câmeras de vídeo e seguranças nos portões.
O fenômeno notado nas ruas do Bingen, soube por um amigo arquiteto, não se restringe
a Petrópolis. Por todo o Brasil, observa-se a expansão das moradias informais,
casas que não respeitam as regras estabelecidas por um grande número de
prefeituras neste mar de municípios que não cessa de crescer.
Mas, deixemos o tema e sua explicação para os especialistas na questão urbana.
Surpresa maior tive ao ver o estado dilapidado das fábricas e indústrias
petropolitanas. As tecelagens, as estamparias, as gráficas, osfrigoríficos,
antes prósperos aos olhos dos passantes, com seus muros caiados, seus
funcionários uniformizados, suas sirenes marcando os horários do cotidiano,
estão em estado de agonia. As maiores e mais bem-sucedidas estão em pior estado
do que a média sofrível.
Não é verdade que toda atividade fabril tenha desaparecido ou esteja em declínio
na região. Assim como as moradias da classe média baixa foram substituídas
pelas favelas prósperas, pequenos estabelecimentos informais, na maioria das
vezes invisíveis ao observador casual, vêm tomando o lugar das empresas do
passado.
Também neste caso o fenômeno não se restringe à serra fluminense, repetindo-se
por todo o País. A empresa de médio porte do setor formal, que assina carteiras
de trabalho, assegura os direitos previstos na intrincada legislação
trabalhista, perde espaço. Em alguns setores, a competição que sufoca vem das empresas
líderes, em função de economias de escala ou de tecnologias exclusivas e
dominantes. Em outros setores, é o exército de pequenas empresas a fonte do
aniquilamento.
O que terá causado esta profunda modificação na estrutura de produção brasileira?
A causa mais plausível para o fenômeno está relacionada com o regime tributário
e a crescente tendência, a partir dos anos 80, de se tributar a receita, e não
o valor adicionado ou a renda.
A Constituição de 1967 trouxe profundas mudanças no arcabouço tributário do País.
As principais modificações foram a introdução de um imposto sobre o valor
adicionado e a virtual eliminação dos impostos em cascata. Ao longo da década
de 70, os impostos em cascata retornavam de forma tímida. Ao longo da década
seguinte, com a criação do Finsocial, a receita líquida das empresas passa a
ser tributada de forma mais pesada. Mas é durante a década de 90, depois do
ajuste fiscal pós-Plano Real, que a tributação em cascata atinge as raias do
paroxismo. Atualmente, além do CPMF, que onera todo e
qualquer débito bancário em 0,38%, a receita líquida das pessoas jurídicas brasileiras
é tributada à alíquota de 4,65% (1,65% de PIS e 3% de Cofins, o sucessor do
Finsocial). Para algumas atividades e, em função do tamanho, a alíquota do PIS
pode ser reduzida para os originais 0,65%. Ou seja, independentemente da
lucratividade obtida, qualquer empresa é obrigada a
recolher um valor que oscila entre 3,65% e 4,65% do seu faturamento.
Nos setores onde não há fortes barreiras à entrada de novos produtores, o livro-texto
de microeconomia ensina que a competição acaba por igualar o preço ao custo
marginal, fazendo com que o capital tenha remuneração "normal",
sendo, pois, igualado à taxa de juros básica sem risco, acrescida de um prêmio
de risco específico. Nestes setores, a margem tende a ser
baixa e a estrutura de produção, caracterizada por pequenas e médias empresas.
É exatamente a empresa de porte médio de um setor relativamente competitivo,
como o das indústrias têxteis petropolitanas, que está sendo arrasada pelo
perverso PIS/Cofins. Por serem visíveis, em função do tamanho, não podem
recorrer à deslavada sonegação. E, por estarem num setor competitivo, têm baixa
margem. A combinação desses dois fatores é um
coquetel verdadeiramente letal.
Somente as pequenas empresas, na grande maioria informais, conseguem prosperar
num ambiente tão hostil. Mas, mesmo estas, em função da sonegação, não
conseguem crescer. Isto porque, na informalidade, o controle é mais difícil (o
caixa dois pode virar um eventual caixa três, sem conhecimento do capitalista)
e o crédito, mais parco (balanço e livros viram peças de ficção). E,
finalmente, a maior visibilidade decorrente de uma expansão, ao atrair o
achaque, não inviabilizaria o próprio
crescimento?
Só as empresas oligopolistas ou monopolistas, em função dos seus lucros "extraordinários",
conseguem conviver com a bateria de impostos sobre o faturamento. Afinal, o que
representa um PIS/Cofins de mais de 4% para uma margem líquida de 50%? Além
disso, boa parte do imposto poderia ser repassada ao consumidor dependendo da
elasticidade da demanda.
Assim como nossa geografia urbana é a cada dia mais caracterizada por moradias
informais, de um lado, e, de outro, por condomínios sofisticados, a estrutura
de produção do País é empurrada para os extremos. Grandes empresas, todas
operando no setor formal, com poder de monopólio adquirido pela via da
tecnologia, do tamanho do investimento inicial, do acesso exclusivo a um
mercado ou a uma matéria-prima, ou pela concessão pública, coabitarão com uma
multidão de pequenas empresas, quase todas informais. E a empresa de porte
médio, que poderia, pela invenção e trabalho dos seus
dirigentes, vir a ameaçar algum oligopolista estabelecido, assim como a casa
modesta do Bingen, está infelizmente fadada a desaparecer.
Pedro L. Bodin de Moraes, economista, é sócio-diretor do Grupo Icatu