Folha de São
Paulo, 17.03.1999
O novo rumo do
Brasil
O governo demorou
para desvalorizar. Havia no BC a decisão arrogante e irracional de
"defender o real" a qualquer custo
LUIZ CARLOS
BRESSER PEREIRA
Tornou-se
lugar-comum dizer que o país está sem rumo. Não deixa de ser paradoxal, já que
a crise que vivemos foi o resultado de uma decisão consciente do presidente,
que, ao tomá-la, reconheceu a necessidade de modificar o rumo da economia e
lançou mão da medida fundamental para lograr esse resultado: desvalorizar o
real.
A conseqüência
esperada e inevitável da decisão foi a instabilidade cambial, com o
ressurgimento temporário da inflação. Ou seja, uma "crise aguda", de
curto prazo, que leva a essa sensação de falta de rumo, mas permitirá ao país
superar sua "crise crônica". Desde 1979, a crise econômica brasileira
é crônica. Suas origens estão ligadas ao Estado (crise fiscal, esgotamento do
modelo protecionista de intervenção estatal, superação da forma burocrática e
corporativista de administrar). Ela passou por diversas fases, as quais, em
parte, se sobrepuseram.
Primeiro, foi uma
crise de insolvência internacional, a partir do momento em que o sistema
financeiro suspendeu a rolagem da dívida brasileira. Em seguida e
concomitantemente, uma crise de alta inflação, realimentada pela inércia
inflacionária. Finalmente, a partir de 1994, quando o Real afinal estabilizou a
economia, tornou-se uma crise cambial, dada a valorização da moeda.
Nas três fases,
ela se caracterizou por baixas taxas de crescimento, geralmente provocadas por
juros altos, os quais respondiam a três fatores correlatos: (1) a necessidade
de obter empréstimos internos, para financiar o déficit público, e externos,
para cobrir o déficit em conta corrente; (2) a crença monetarista de que juros
altos permitem controlar a inflação, ainda que a economia esteja desaquecida;
(3) o imperativo de limitar o crescimento do PIB, para evitar um déficit
explosivo em conta corrente. Esse último fator era especialmente perverso: a
taxa de crescimento estava muito aquém das restrições impostas pela oferta de
recursos de capital, de mão-de-obra ou de tecnologia.
A causa central da
crise, a partir de 94, foi o câmbio valorizado, que limitava exportações e
investimentos, favorecia importações e consumo e fazia o país depender da
poupança estrangeira, pela qual pagamos custos altíssimos (excetuando os
investimentos diretos).Esses custos se expressavam nos juros escorchantes que o
país era obrigado a manter para evitar que o déficit comercial se tornasse
explosivo e assustasse nossos credores. Estes, no cálculo da taxa mínima de
juros que exigiam, incluíam um prêmio de risco por uma desvalorização súbita,
dada a sobrevalorização, oficialmente reconhecida pelo Banco Central, mais a
desvalorização gradual de 7% ao ano que expressava esse reconhecimento. Essas
duas parcelas envolviam um custo de aproximadamente 15% reais ao ano, ao qual
era preciso, ainda, acrescentar um abusivo "risco Brasil", que também
os credores incluem no cálculo dos juros.
É certo que o
governo demorou para promover a desvalorização. Havia no BC uma decisão
irracional e arrogante de "defender o real" a qualquer custo. Demorou
também porque essa posição foi apoiada (pelo menos até a crise da Rússia) pelas
elites brasileiras e internacionais. No exterior, os economistas do FMI e do
Banco Mundial afirmavam que bastava fazer o ajuste fiscal e o problema da
valorização cambial seria resolvido (!); no Brasil, a maioria dos economistas e
empresários, especialmente os do setor financeiro, repetiam essa tolice
transformada em sabedoria convencional, ignorando que isso só poderia ocorrer à
custa de uma recessão e uma deflação inaceitáveis.
Outros
acrescentavam que a desvalorização gradual resolveria o problema, ignorando o
enorme custo em termos de taxa de juros que ela representava e subestimando
sempre os riscos de uma possível crise internacional. No início deste ano,
entretanto, o presidente decidiu desvalorizar o real. Poderia continuar adiando
a decisão, como o ex-presidente do Banco Central salientou no seu discurso de
despedida, mas teve a coragem de enfrentar os riscos da crise (inclusive a
perda de popularidade) porque se convenceu de que era preciso mudar o rumo da
economia. O país não podia continuar a perder reservas nem a depender de
empréstimos externos, a custos altíssimos, para financiar um déficit em conta
corrente insustentável a médio prazo. E o presidente não podia deixar que juros
absurdos continuassem não só a impedir o investimento produtivo, mas também a
depreciar as empresas nacionais, reduzindo os seus preços em Bolsa, tornando-as
alvo fácil de compra por investidores estrangeiros.
Tomada a decisão
de mudar o rumo, enfrentamos hoje uma crise de transição. Para administrá-la,
recorremos (corretamente) ao FMI, tendo como prioridade recuperar o crédito do
país. Para isso (e para evitar uma inflação maior) é necessário, além de
aprofundar o ajuste fiscal, manter os juros em nível adequado. Não há nenhuma
dúvida quanto à absoluta necessidade do ajuste. Em relação à taxa de juros, o
importante é que seu nível nominal mantenha seu caráter real, dada a inflação.
O nível acordado pelo governo com o FMI no memorando de intenções (10,3% reais,
em média, neste ano) é razoável, compatível com o retorno dos investimentos
produtivos.
Ainda teremos turbulências,
que apenas se agravam com as declarações irresponsáveis de Dornbusch e Cavallo
(que são, afinal, estrangeiros) e de um outro ex-presidente do BC. Eles têm o
desplante de propor ao Brasil dolarizar sua economia, o que deixaria um país
das nossas dimensões sem instrumentos de política monetária e cambial. Essas e
outras turbulências, porém, serão superadas. As exportações logo aumentarão; as
importações já estão em plena queda; o déficit corrente, em breve, poderá ser
financiado por investimentos diretos; e ainda sobrarão recursos que nos
permitam reduzir nossos compromissos internacionais.
Assim, no novo
rumo, teremos novamente claro o que todas as nações desenvolvidas sabem há
muito, mas uma certa ideologia financeira internacional insiste em negar: o
capital se faz em casa. O desenvolvimento é um desafio que só nós, brasileiros,
poderemos resolver, usando nossa própria poupança.
Luiz Carlos
Bresser Pereira, 64, é ministro da Ciência e Tecnologia e professor titular de
economia da Fundação Getúlio Vargas (SP). Foi ministro da Administração Federal
e Reforma do Estado (governo Fernando Henrique Cardoso) e da Fazenda (governo
Sarney).