OESP, 11.11.05
Assim
é demais
Paulo
Brossard
Numa das últimas
vezes em que compareceu à CPI do Mensalão, nada menos que o financeiro Marcos
Valério afirmou que desde Rui Barbosa havia práticas análogas às investigadas
pelo Congresso Nacional. Nada mais inverídico, pois a verdade é que não havia
precedente a respeito da prática que escandalizara a Nação. Nunca se vira coisa
parecida. E, embora Rui tenha sido homem público sistematicamente negado, difamado
e hostilizado pela politicagem, jamais lhe foi atribuída coisa semelhante, seja
nos 14 meses em que foi ministro da Fazenda no Governo Provisório, seja nos
restantes anos de existência, e a despeito de sua contínua participação na vida
pública nacional.
Não obstante, o jornalista Luís Nassif,
autor de muitos artigos que tenho apreciado desde muito, aproveitou a deixa
para voltar a tema de sua predileção, dizendo que, "talvez sem
querer", Valério "tocou em um nervo exposto da historiografia
nacional: Rui Barbosa, 'o Águia de Haia' (sic)". E, depois de se permitir
afirmar que Rui "fez negociatas com a banca inglesa", terminou artigo
estampado na Folha de S.Paulo de domingo, 30 de outubro, intitulado O
brasileiro do século (B4), aludindo a discurso de estudante baiano que teria
dito "mesmo morto viverás ainda", aduzindo que "vive até na
memória remota de Valério e nas lembranças que as CPIs permitem evocar".
É evidente que, pelo fato de Rui, 80 anos
depois de morto, continuar lembrado, especialmente nas grandes crises
nacionais, o jornalista não tem por que ser afeiçoado à sua memória, mas, com
as devidas vênias, se desmandou ao associar o nome do insigne brasileiro com a
lepra que vem sendo investigada pelas CPIs. A inspiração do jornalista é o
livro de Magalhães Júnior Rui, o Homem e o Mito, como revelou em dois de seus
artigos. Li esse livro logo que apareceu, em 1965, e não tive boa impressão
dele - eram várias as incorreções, e as citações de Rui, sem precisar o tempo e
o lugar, de modo a comprometer o seu alcance. Depois disso, Osvaldo Orico e
Salomão Jorge, em livros específicos, contestaram capítulo por capítulo o
libelo acusatório. Também o professor Soares de Melo, do Largo de São
Francisco, dedicou ao tema outra minuciosa análise, assim como Américo Jacobina
Lacombe, profundo conhecedor da vida e da obra de Rui, sem falar em número
especial da Revista da Faculdade de Direito de São Paulo e muitos artigos de
pessoas doutas. Assim não pensa, porém, o jornalista, que, em artigo anterior,
classificou o livro de obra clássica.
Tenho para mim que Rui está a pagar os
excessos de sua formidável capacidade de trabalho. Basta dizer que a Casa que
leva seu nome, integrante do Ministério da Cultura, publicou 140 tomos de suas
obras, e ainda estão impublicados 30 volumes, se não mais. Ora, não são muitas
as pessoas que podem ler mais de uma centena de volumes de porte sobre os mais
variados temas, do direito, à política, literatura, pedagogia, etc., de modo
que um livro que se apresentava como sério, a revelar o homem de letras e o
homem de Estado, vinha a calhar. Dispensava a leitura de muitas dezenas de
milhares de páginas escritas em mais de meio século de intensa e variada vida
intelectual e pública.
A mostrar a relatividade das opiniões, num
artigo de palmo e meio, com toda a sua reconhecida competência, o jornalista
também comete seus equívocos. Mencionando medida do último ministro da Fazenda
do Império, o Visconde de Ouro Preto, diz que ela tinha "um beneficiário
claro, Conselheiro Saraiva, dono do Banco Nacional". Ora, o Conselheiro
Saraiva foi diplomata, presidente de Província, deputado, senador, presidente
do Conselho de Ministros, promoveu a reforma da eleição direta, era dono de
engenho na Bahia, mas não se sabia que fosse dono do Banco Nacional, nem
protegido de Ouro Preto.
Mais adiante, informa que Rui, "anos
depois, foi indicado pelo Barão de Mauá para representar o país em uma
conferência internacional", onde votou contra a proposta argentina de
Drago, a respeito da cobrança de dívidas públicas. Seguindo a orientação do
governo brasileiro, transmitida pelo Barão do Rio Branco, na sessão de 23 de
julho de 1907, Rui examinou as várias faces da tese, concluindo no sentido de
sujeitar a exigência do credor a prévio arbitramento... De resto, Mauá morrera
em 1889 e a Conferência de Haia ocorreu em 1907.
Isto mostra que as informações colhidas pelo
jornalista na "obra clássica" não são as mais seguras. O mais grave,
porém, é apontar Rui Barbosa como fazedor de negociatas (sic) a ponto de ser
lembrado pela revelação do lodo revolvido pelas CPIs... quando os mais insignes
brasileiros, inclusive adversários, que conviveram com Rui, invariavelmente,
guardaram dele lembranças de respeito e admiração por sua correção e seus
serviços ao País em mais de meio século.
Recordo o episódio em que o deputado Germano
Hasslocher anunciara discurso áspero contra Rui. Pinheiro Machado vai à casa do
amigo e lhe diz: "Não vais fazer nada disso. Quem te fala não é o amigo,
nem o chefe - é o brasileiro. Tu não tens sido mais alvejado pela paixão do Rui
do que eu, mas não temos outro Rui, para apedrejarmos o único que temos. Se
tirarmos o Rui do altar, quem poremos nele? Ao contrário, tu vais, em nosso
nome, terminar com um hino ao Rui, que está dando um grande exemplo de coragem
e civismo." Comovido, o deputado gaúcho fez o que Pinheiro lhe pedira.
Fico a pensar no que escreveu o Padre
Vieira, faz mais de 300 anos: a quem muito se amasse, antes seria de desejar
"um grande delito que um grande merecimento. Um grande crime muitas vezes
achou piedade, a um grande merecimento nunca lhe faltou a inveja".
Paulo
Brossard, jurista, foi senador (PMDB-RS), consultor-geral da República e
ministro da Justiça