Os divergentes convergem, mesmo contra a vontade...
Gustavo H. B. Franco:
Crônicas da convergência: ensaios sobre temas já não tão polêmicos
(Rio de Janeiro: Topbooks, 2006, 598 p.).
Este livro representa, a mais de um título, uma clara vitória. Em primeiro lugar, contra aqueles que Gustavo Franco chama de representantes do esquerdismo nacionalista jurássico, que pretendem ser desenvolvimentistas, mas que só contribuem para o atraso do país. Em segundo lugar, contra o jargão econômico, pois apresenta, de modo claro, idéias sofisticadas de modo amplamente compreensível ao mais leigo dos leitores. Em terceiro e mais importante lugar, contra o esquecimento da história, em face da tendência a diluir a luta contra a inflação num continuum coletivo liderado por FHC, sem dar o devido crédito aos matadores do dragão. O autor merece ganhar a estátua de São Jorge.
Gustavo Franco não precisaria humilhar, com tanto brilho e gosto pela polêmica, os seus opositores, que sequer podem, à falta de idéias consistentes, ser classificados de adversários intelectuais. Mas o fato é que muitos dos 189 artigos aqui reunidos arrasam os partidários da pseudociência e do curandeirismo econômico com tamanha lucidez e ironia que não se sabe como eles resenharão este livro em suas revistas universitárias. Ele provavelmente será ignorado nesses bastiões da magia econômica, o que é uma pena, pois o livro tem muito a ensinar, mesmo a marmanjos da academia.
Triste saber, porém, que o debate econômico no Brasil é escamoteado, não apenas nas universidades. Um garoto de 13 anos escreveu com dúvidas sobre a dívida externa (p. 566), mas dificilmente Gustavo Franco poderia ajudá-lo na tarefa escolar: o professor estava querendo uma denúncia do FMI, ao estilo da CNBB, não uma explicação sobre as contas externas. Da mesma forma, os antiglobalizadores não estão interessados em saber como funciona o mundo, apenas em perturbar o ambiente dos negócios, reduzindo empregos e impedindo o desenvolvimento dos mais pobres. Os antiglobalizadores são os novos jurássicos em escala global.
A maior parte do livro se ocupa mesmo da economia doméstica, isto é, de nossa difícil reconversão à normalidade. Gustavo Franco não se cansa em rebater idéias simples e erradas, como quando ele pede, por exemplo, “por uma política não-industrial”, ou quando ele retraça a trajetória do Banco Central na difícil tarefa de defender o poder de compra da moeda, com todos os políticos trabalhando contra. “No Brasil, como sói acontecer, a história parece inacreditavelmente lenta e tortuosa” (p. 279). Nada mais hilário do que ler, hoje, sobre as heróicas tentativas dos nossos parlamentares para elevar, nos anos 1990, o salário mínimo ao “inédito” valor de US$ 100: como ele diz, “os governantes estão livres para errar” (p. 217).
E como erram os governantes! A julgar pelos debates desses anos e os que ainda hoje ocorrem, parece que avançamos a passos de cágado, quando não para trás. Veja-se, por exemplo, sua crônica de 1999 sobre o subsídio da sociedade aos filhos das classes A e B e a proposta de mensalidades nas universidades públicas: “o Brasil já está maduro para esse assunto” (p. 198). Aparentemente, ainda não.
Este livro, cuja capa reproduz a queda do muro de Berlim, tem de tudo, para todos os gostos: começa pelo problema da inflação, “o crime perfeito”, e termina pela trágica história da Argentina, que parece seguir uma “patologia própria”. Não conseguirá agradar a todos, provavelmente, pois alguns divergentes resistem em convergir: eles, que já são muito poucos, ainda não derrubaram o muro mental que os impede de abandonar ilusões e empulhações. O livro, que fala a língua de todos, ajudará a convencer os recalcitrantes, se eles perdoarem a ironia fina, é claro...
Brasília, 23 outubro 2006
Desafios do Desenvolvimento (novembro 2006, p. ).