Folha de São Paulo, quarta-feira, 29 de junho de 2005
OPINIÃO
ECONÔMICA
CMN: economia ou democracia
JOSÉ ANTÔNIO MORONI
Nos últimos meses, tem crescido o debate sobre a necessidade de criar
mecanismos de participação da sociedade na definição da política econômica.
Esse movimento se materializou na pressão para que o CMN (Conselho Monetário
Nacional) tenha representação dos trabalhadores, empresários e organizações da
sociedade civil que defendem o interesse público. Hoje, os
"conselheiros" do CMN, órgão deliberativo máximo do Sistema
Financeiro Nacional, são os ministros da Fazenda, do Planejamento e o
presidente do Banco Central. Qualquer decisão nesse âmbito impacta diretamente
a vida de todos brasileiros. Por isso a sociedade o escolheu estrategicamente
para trazer à luz esse debate.
Na reunião do CDES (Conselho de Desenvolvimento Econômicos e Social) de 19 de
maio, foi analisada moção sobre a ampliação do CMN. Ela foi aprovada por mais
de 80 conselheiros, rejeitada por 8. Um dos argumentos dos que votaram contra
foi que o CMN deve ser técnico e não pode ter interferência política. Esse
argumento beira a ingenuidade. Como é que um órgão formado por três ministros,
todos políticos experientes, é técnico?
Mas o problema não está apenas nesse argumento, mas na incompreensão de que a
questão não diz respeito à economia, e sim à democracia. A Constituição de 88
consagra a participação como uma das diretrizes das políticas, reconhecendo ser
ela estruturante na formação da nação brasileira. Todas as políticas sociais
criaram seus mecanismos de participação. A exceção é a política econômica.
Hoje, a democracia representativa não consegue mais "representar" a
complexidade da sociedade moderna. O cidadão tem o direito de participar
diretamente das decisões do país. A isso, chamamos democracia participativa. O
fato de escolhermos prefeitos, deputados, presidente etc. não implica abdicar
do nosso direito de participar. A representação não anula a participação. O que
precisamos é buscar aperfeiçoar o sistema de representação e fortalecer o de
participação. Pautar a questão do CMN significa dizer que a democracia precisa
chegar à economia.
Outro aspecto é que devemos criar espaços públicos e institucionais nos quais a
sociedade manifeste suas demandas e em que os diferentes interesses possam ser
mediados e consensuados quando possível. A não-criação desses espaços é
justamente a prática da velha política, na qual interfere quem é amigo do rei,
conhecido ou tem poder econômico e político. Isso somente reforça e consolida a
Estado que defende interesses privados, que é o que temos hoje. Os destinos da
nação não podem estar condicionados àqueles que têm acesso aos espaços de
decisão por seu poder econômico e político. Os interesses legítimos têm que ser
colocados publicamente, e os não-legítimos, combatidos. Por serem privilégios,
beiram a ilegalidade e imoralidade. Os interesses que não podem ser defendidos
publicamente não são legítimos, portanto têm que ser combatidos.
Os votos contrários à participação da sociedade no CMN vieram do setor
financeiro. Nem todos os representantes do setor financeiro votaram contra, mas
a reação veio de seus representantes. Será que isso tem relação com o fato de a
atual política econômica ter privilegiado o setor financeiro? Talvez isso possa
ser um indicativo de que a participação pode enfrentar privilégios.
A moção aprovada pelo CDES foi encaminhada ao presidente Lula. Afinal, a
atribuição principal do CDES é assessorar o presidente. Esperamos que a ampla
maioria manifestada no conselho seja considerada por Lula. Um governo em que a
participação parece ser tão cara não pode desconsiderá-la na economia. Usando
uma metáfora do futebol, a bola está com o presidente, esperamos que ele acerte
o pênalti .
José Antônio Moroni, 42, filósofo, é membro do Colegiado de Gestão do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos), diretor da Abong (Associação Brasileira de ONGs) e membro do CDES (Conselho de Desenvolvimento Econômicos e Social).