Folha de S. Paulo, 21/2/93
Câmara
setorial e apartheid social
Aloizio Mercadante
É inútil pretender a
articulação de um programa consistente de estabilização econômica sem
que haja, de parte do governo e
de toda a
sociedade, a disposição de
enfrentar, com convicção e coragem, as
raízes da intolerável inflação de
27% e as conseqüentes taxas
de juros que,
em patamares acima
de 30%, estão inviabilizando os investimentos
produtivos e, portanto, a retomada de um crescimento duradouro e
sustentado da economia.
O governo vem tentando
rever a desastrada política econômica do ex-presidente Collor de forma
errática, desorganizada e
desorientadora. Procura apresentar-se
como a negação de seu antecessor, mas
não foi capaz, até agora, de apontar caminhos alternativos em direção à
estabilidade e ao desenvolvimento.
O presidente Itamar Franco
tem manifestado justa preocupação com os baixos rendimentos do trabalhador
brasileiro. Não existe,
contudo, a mais
remota possibilidade de
recuperar e manter o valor real dos salários com a inflação no atual patamar.
Não há política salarial ou campanha sindical, por mais criativas que sejam, capazes de preservar o poder de compra dos assalariados na presente conjuntura
econômica.
A transferência de renda
promovida pela inflação tem sido brutal.
As absurdas margens de lucro mantidas pelos bancos em plena
recessão econômica são
a maior evidência
disso. O Bradesco,
para citar apenas um exemplo, declarou lucro de US$ 300 milhões em
92, ou 11% de seu capital fixo. É,
portanto, fundamental reverter o atual
quadro econômico. E o primeiro passo nesta direção é a
mobilização dos atores econômicos em torno de um objetivo comum, que é a
estabilização da economia.
Uma demonstração de que é
possível avançar nesta direção
foi dada em 92 pelas câmaras setoriais,
que reúnem representantes do
governo, dos empresários
e dos trabalhadores de áreas
específicas do sistema produtivo. Desenvolvidas em toda a
sua potencialidade, as
câmaras setoriais poderão
se constituir em instrumento decisivo para a definição
de uma política de rendas distributiva e estabilizadora e de uma política
industrial orientada para a ampliação do mercado interno.
Esta possibilidade é particularmente animadora nos setores onde os trabalhadores
são mais organizados e a indústria mais
cartelizada. São estes os
setores mais importantes da economia brasileira, como é o caso da indústria automobilística, que,
depois de algumas rodadas de negociação na respectiva câmara setorial,
em 92 reduziu seus preços em 20%.
As câmaras setoriais, contudo,
devem ser compreendidas a partir de
uma perspectiva que
rejeite decisivamente a
concepção neoliberal segundo a qual o mercado,
por si mesmo, tem o condão de
organizar a vida de uma
nação. Um passar
de olhos por alguns indicadores
sociais do país basta para mostrar o que é o nosso mercado: 65 milhões
de brasileiros vivem
abaixo da linha
de pobreza e
encontram-se, portanto,
excluídos da cidadania, de acordo com
os dados do insuspeito IPEA. A
FAO, organismo da ONU, confirma: 70% da mão-de-obra no
Brasil trabalha na
economia informal, sem direitos
sociais. Apenas 12%
dos trabalhadores
brasileiros estão suficientemente treinados para a modernidade no trabalho, que impõe como pressupostos a agilidade
intelectual, o conhecimento e o saber.
Em tal contexto
trabalhista, os sindicatos correm o
risco de se transformarem em organizações corporativas onde trabalhadores privilegiados se encastelam,
segregando-se da maioria
verdadeiramente oprimida. O desafio
que se coloca para os
sindicatos, portanto, não é apenas o de buscar obstinadamente
impedir perdas salariais inexoráveis no presente ambiente econômico. Deve-se, isto sim, impulsionar decisões que
viabilizem a estabilização da
economia e disputar espaços na
discussão sobre o que e para quem devemos produzir. Os sindicatos devem orientar-se, permanentemente, pelo objetivo
de transformar a
multidão de excluídos em cidadãos produtivos e consumidores.
A grave crise que o país
atravessa não oculta fatos como a existência de considerável capacidade ociosa
na indústria e a
obtenção de expressivos
aumentos de produtividade nos últimos anos.
São indicadores que apontam
para a possibilidade de uma
rápida recuperação da economia e da retomada do
desenvolvimento, desde que as
demais condições necessárias
para isso sejam oferecidas. A primeira
delas é a definição de um novo modelo de desenvolvimento que viabilize e, ao
mesmo tempo, seja movido por um choque salarial.
Referimo-nos a um
choque salarial que não seja imediatamente convertido em inflação, que não se mostre ato fugaz e passageiro
como tantas medidas populistas que temos assistido nos últimos anos. O choque deverá ser estrutural,
progressivo e duradouro,
capaz de inverter a participação da remuneração do trabalho no PIB
nacional, que hoje corresponde a um vergonhoso terço. Nos países
industrializados, o trabalho comparece com dois terços da renda nacional.
Ampliar a
base de consumo
no país significa também criar
uma escala de produtividade e eficiência que alcance o novo patamar
de competitividade internacional. Choque de salários
não pode ser traduzido em
emissão de papel moeda, mas
em aumento da
cesta de produtos,
redução de custos e
aprimoramento de qualidade.
Há uma experiência consolidada
(no setor automotivo) que credencia
o funcionamento das
câmaras setoriais. É preciso
agora multiplicar esta experiência, dirigindo-a preferencialmente para os bens
de consumo popular. Os metalúrgicos do ABC, sob
a inspiração de
Vicentinho, mostraram o
caminho. É preciso prosseguir, agora em direção aos
produtos de primeira necessidade – proposta que o presidente nacional do PT
introduziu na agenda nacional de
debates com seu Programa de Segurança Alimentar. É preciso contemplar o vestuário, as casas populares e, em particular, a educação. Nenhum esforço será mais importante para a
nossa geração do que garantir que cada criança terá assegurado o seu direito à
escola.
O produto popular não está
no passado; não é um automóvel
arcaico, de baixa qualidade, antieconômico e de preço duvidoso. Popular é
o produto moderno, de custo reduzido, eficiência multiplicada e uso difundido.
Aloizio Mercadante, 38,
economista, é deputado federal pelo PT de São Paulo.