FSP, 05.05.93
De Haddad a Eliseu
Aloizio Mercadante e Guido Mantega
Ao descartar a proposta de estabilidade recessiva do ex-ministro da Fazenda Paulo Haddad, o Presidente Itamar Franco optou por um plano que assegurasse uma certa recuperação da economia mesmo que à custa de mais inflação. Gestou-se então um conjunto de boas intenções, que apontam para direções diversas, umas para austeridade fiscal e contenção de gastos, e outras para a ampliação dos investimentos e manutenção do crescimento observado desde o início deste ano, de modo a garantir um PIB entre 2% a 3% para 1993.
A resultante dessa equação,
aparentemente
contraditória, é fácil
de adivinhar. A
vaga consistência
macroeconômica entre os cortes de
despesas e o aumento de gastos e investimentos prenuncia que o governo vai
continuar empurrando com a barriga os grandes problemas estruturais da economia
brasileira, procurando manter a inflação
num patamar razoável
e garantindo um certo nível de desenvolvimento, para transferir o abacaxi do ajuste
ao próximo governo. Daí a total ausência de uma política
antiinflacionária, ou de uma proposta mais
consistente para o
equacionamento da dívida pública,
a não ser medidas de efeito duvidoso, como a reativação dos órgãos de
controle de preços e a liquidação de empresas estatais.
O fortalecimento do CADE,
assim como a reativação do DEP e da Sunab, apontam para a direção correta, porém de efeito prático muito
pequeno a curto prazo (até aprovar o
projeto de lei e reequipar os organismos), e nenhum sobre a inflação
inercial, ou seja, sobre a influência
que a inflação passada possui sobre o presente. Numa economia indexada como a brasileira, os agentes econômicos repassam periodicamente os aumentos de custos
havidos no mês
ou na semana anterior aos
preços, projetando assim a
inflação passada para o futuro.
Assim, ao contrário
do que acreditam Fernando H. Barbosa e Fernando A. Hadba, em seu artigo de 23/04 nesta Folha, não é apenas a expectativa de eventos
futuros que comanda a inflação. Assim
como uma expectativa otimista pode
deixar a inflação no patamar
onde ela se encontra. Porém
dificilmente fazer com que ela caia,
principalmente se estiver estacionada num patamar de quase 30% ao
mês. Daí a necessidade de romper com
essa inércia, ou
por meio de
acordos de preços,
tarifas e salários,
ou via congelamento, prefixação
ou alguma política
de rendas. Barbosa e Hadba acham que o controle social
da inflação não foi adotado por nenhum
país com uma
inflação elevada e resistente a terapias de contenção monetária. O que vêm
a ser então os acordos de preços e salários feitos em Israel, na
Espanha e no México senão um controle social da inflação? O
fato desses acordos terem sido
celebrados no palácio do governo ou no parlamento ou em qualquer
outra instância que
não as câmaras setoriais altera pouco o fato que foram as forças
políticas mais expressivas desses países (governo, partidos, federações patronais e
sindicais) que sentaram à mesa de
negociações. A vantagem
de ser não numa única mesa, mas
em câmaras espalhadas pela cadeia produtiva e coordenadas por
uma mesa nacional
de negociações, é
a maior flexibilidade, que permiti examinar
as particularidades de custos
de cada setor
e permitir acomodações no
sistema de preços. Evidentemente, a política
de rendas é apenas um dos
instrumentos de combate à inflação, que
deve ser acompanhada por uma reforma fiscal, monetária e do sistema financeiro.
Por outro lado, também
é difícil pensar
que o governo acredite na
eficácia da privatização de empresas estatais para resgatar grande parte da
dívida pública. Além da imoralidade a ser cometida com a dissipação do
patrimônio público, a
preço vil, e
sob suspeição apenas
para liquidar dívidas,
a venda das estatais não
renderia em 1993 mais do
que US$ 5 bilhões, o
que mal daria para resgatar 25%
da dívida de curtíssimo prazo, ou menos de 5% da dívida mobiliária total. Não
se trata pois de apegar-se a algum princípio ideológico de defesa
indiscriminada de estatais,
como nos imputam Barbosa e
Hadba, mas de evitar a perda inútil do
patrimônio público, pois o equacionamento da dívida mobiliária não passa por
aí.
A estratégia de controle
gradualista e moderado
da inflação, com recuperação da
economia, do plano Itamar encontra
hoje condições favoráveis
na recuperação da receita tributária,
assim como na redução do custo
da dívida mobiliária,
devido à queda
das taxas de
juros, sem falar
na espontânea recuperação da economia
que está em
curso. Conta também
com a simpatia de parte significativa do empresariado, que depois de ter confiado no choque
recessivo de Collor, prefere conviver
com uma inflação alta e realização de negócios, do que se arrastar numa prolongada recessão, de eficácia duvidosa sobre a inflação. Afinal,
quem mais perde com
a alta de preços são
os assalariados, pensionistas e todos aqueles
que não possuem mecanismos de indexação que
defendam seus rendimentos. Mas corre sérios riscos no futuro próximo, advindos
da perda de
credibilidade, que resultaria do não-cumprimento das promessas
do governo (como contenção de despesas
etc.) e, principalmente, diante de
uma aceleração
inflacionária, que poderá ocorrer
após a
calmaria que deve
suceder os primeiros
momentos do plano, alimentada
pela elevação das tarifas públicas
ou pelo aquecimento
desordenado da demanda,
resultante de oscilações bruscas na taxa de juros decorrentes da
deterioração de expectativas. Isso inviabilizaria mesmo um crescimento moderado
e o governo teria de gestar novas medidas, com certeza mais drásticas, para
evitar a hiperinflação antes de 1995. Mas essa é a história do próximo plano.
Aloizio Mercadante, 37,
economista, é professor
da Unicamp e da PUC-SP, deputado federal pelo PT de
São Paulo e membro da
assessoria econômica do partido.
Guido Mantega, 44,
economista, é membro da assessoria econômica do PT e professor da Fundação
Getúlio
Vargas (SP). Foi chefe de gabinete da
Secretaria Municipal de Planejamento de São Paulo
(gestão Erundina)