O Estado de S. Paulo, 17/5/94

 

A dupla face dos acordos setoriais

(Editorial)

 

     O  governo pretende reativar a atuação das câmaras setoriais,  especialmente na transição do cruzeiro real para  o  real,  a  fim  de  neutralizar  os  efeitos  meramente  estatísticos do resíduo inflacionário.  Os acordos obtidos  por intermédio desses órgãos foram importantes,  devendo-se muito do seu êxito à habilidade da ex-secretária  nacional  de  Economia,  Dorothéa Werneck.  Convém,  entretanto,  levar  em  conta  que  não  se poderão encontrar todas as soluções através dessas instituições;  dependendo do setor, podem transformar-se em instrumento prejudicial aos consumidores.

     Costuma-se  apresentar  como  exemplo  a   Câmara  da  indústria  automobilística  que,  de  certo  modo, permitiu  o  estabelecimento de um pacto social que assegurou aos operários estabilidade de emprego e,  aos produtores,  redução  dos  custos,  em  parte  transferidos  aos  consumidores. Tratou-se,  certamente,  de um grande  avanço,  em  que todos ganharam.  Essa experiência mereceria,  aliás,  ser estendida a outros setores. Cabe, todavia, notar que se tratava de um ramo em que se podia chegar facilmente a uma solução.

     De fato,  em  razão  de  preços  excessivamente  elevados,  havia  uma  demanda  reprimida  que pôde ser atendida tão logo se reduziu a carga tributária.  Na certeza de obter um aumento da demanda, as montadoras puderam  comprometer-se  a  manter  a  estabilidade  do  emprego  o que,  na realidade,  se transformou num ganho excepcional de produtividade, por ter a mesma mão-de-obra produzindo 30% mais.

     No entanto,  tal  acordo  revelou  algumas  das  falhas  das  Câmaras:  às  vésperas  da  realização  de uma reforma  monetária  que  deve  assegurar  a estabilidade dos preços,  a indústria está solicitando um aumento deles para compensar os reajustes salariais que concedeu aos seus empregados. Efetivamente, numa Câmara Setorial com essa em que, ao lado de empresas que assumem posição oligopolística, atua um sindicato forte, é fácil obter uma união lesiva aos consumidores.  

 

As Câmaras Setoriais podem ser instrumentos de corporativismo lesivo aos consumidores

 

     Poderia  imaginar-se  que  um reajuste salarial tão generoso para um sindicato que reúne a elite operária e em  que  um  aumento  tende  a  afastar  uma  ameaça  de  greve    que não interessa às montadoras    seria absorvido  pelos  ganhos  de  produtividade  conseguidos.   Não  é  esse,   entretanto,   o  caso:   agora,   cabe aos  consumidores  pagar  conta  do  pacto  social  do setor.  Há que ponderar que a indústria automobilística constitui  um  modelo  para  os  outros  setores  que  não  logram os mesmos ganhos de produtividade nem o  mesmo  fortalecimento  da  demanda.  Tem-se,  assim,  um  foco  de  inflação  perigoso  no momento que se implanta  o  real.  As  Câmaras Setoriais podem ser realmente,  instrumentos muito úteis,  mas devem ver no consumidor   um   objetivo   final,   o   que  implica   renúncia   a  uma   visão  estreita,   com   ares  de  certo corporativismo.