Folha de São Paulo, domingo, 04 de
fevereiro de 2007
Importação tira quase 2
pontos do PIB
Crescimento
de 2,8% previsto para 2006 poderia chegar a 4,5%; expansão potencial é
transferida a países que exportam ao Brasil
Em 2006, pela
primeira vez em seis anos, caiu o consumo de máquinas no país; empresários
culpam alta nas compras externas
FERNANDO CANZIAN
DA REPORTAGEM
LOCAL
Parte
significativa do PIB (Produto Interno Bruto) está "vazando" para fora
do país. Em vez de crescer estimados 2,8% em 2006, o Brasil poderia ter batido
em até 4,5% se a crescente demanda interna não estivesse sendo atendida tão
fortemente pelas importações.
O volume de
compras de produtos de fora aumentou 16% no ano passado. Só em bens de consumo,
o salto foi de 74%. Isso significa que o consumidor brasileiro ajudou no
crescimento do PIB dos países que exportam para o Brasil.
Rebeca Palis, gerente de Contas Nacionais do IBGE (Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística), afirma que o segundo semestre de 2006
marcou "uma reversão total" negativa do setor externo sobre o PIB. No
ano passado, pela primeira vez no governo Lula, as importações contribuíram
negativamente no PIB.
As
importações não são ruins para o Brasil, que tem uma das economias mais
fechadas do mundo. Elas ajudam a controlar a inflação pela competição com
produtos nacionais e a modernizar as empresas.
O problema é
que, apesar de o ritmo do volume das importações estar
crescendo muito acima do das exportações (16% contra 3%, respectivamente), o
real continua se valorizando.
Dólar
barato
Em outros
momentos, essa diferença entre o crescimento maior das importações e menor das
exportações faria o dólar ficar mais caro.
Isso inibiria
aos poucos as compras externas e estimularia os setores exportadores nacionais,
ajudando o PIB a crescer.
Isso não
aconteceu e não deve mudar por duas razões:
1) As
exportações que mais crescem no Brasil são de commodities e de produtos básicos
que têm mantido seus preços fortemente valorizados.
Ou seja, o
preço alto desses produtos compensou o pequeno aumento em volume das
exportações. Enquanto a quantidade exportada cresceu só 3% em 2006, o aumento
em valores chegou a 12,5%.
2) O Brasil
continua praticando o maior juro real do mundo, o que atrai uma quantidade
enorme de dólares de investidores que lucram no país.
Economistas e
empresários ouvidos pela Folha não acreditam em reversão dessa tendência. As
importações continuarão crescendo, e os preços dos exportados e os juros manterão
os saldos comerciais elevados e o dólar abaixo de R$ 2,20.
Na semana
passada, apesar do anúncio de um salto de 31% nos valores importados em
janeiro, o dólar caiu a R$ 2,10, a menor cotação em oito meses.
A tendência é
que o "vazamento" do PIB continue sendo o "vilão" do
crescimento.
Troca
por importados
O resultado
do setor de máquinas e equipamentos de 2006 já mostrou que está havendo uma
forte substituição de investimentos na produção interna por importados.
Ao contrário
do que era esperado, pela primeira vez em seis anos, caiu em 2006 o consumo
total de máquinas no Brasil.
Para o
economista Paulo Miguel, da Quest Investimentos,
nesse cenário, programas de estímulo à atividade econômica como o PAC (Programa
de Aceleração do Crescimento) equivalem a "pisar no acelerador de um carro
atolado".
"Qualquer
crescimento a mais na demanda interna continuará beneficiando em boa medida os
países que exportam para o Brasil", afirma.
Em 2006,
bastante estimulado por programas sociais, o consumo das famílias cresceu 3,6%,
e o PIB, 2,3% (até setembro). A diferença entre os dois percentuais foi,
basicamente, atendida pelos importados.
Estudo da MCM
Consultores mostra que, em 2006, 14 setores afetados pelas importações perderam
R$ 19,6 bilhões em produção local. Na área de eletrônicos, a queda foi de 8%
por conta dos importados. Na de equipamentos de transportes, 6,2%. Na têxtil,
3,8%.
A saída para
conter esse "vazamento", enquanto os preços de commodities e os juros
sustentarem o saldo comercial e o real valorizado, seria tornar as empresas
brasileiras tão competitivas quanto as dos países de
onde o Brasil importa.
Para isso,
seriam necessários cortes de impostos para as empresas bem maiores do que os
previstos no PAC: foram cerca de R$ 6 bilhões, para uma carga tributária de
mais de R$ 800 bilhões, o que dá menos de 0,7%.