Folha
de São Paulo, 26.02.2003
Câmaras setoriais, o debate
ANTONIO BARROS DE CASTRO
Nos primeiros anos da década passada houve um acalorado mas inconcluso debate
sobre as chamadas câmaras setoriais.
Com o lançamento pelo atual governo do Conselho de Desenvolvimento, o aguerrido
Gustavo Franco ("O Estado de São Paulo", 9 e 23 de fevereiro) trouxe
o debate à tona, provocando pronta resposta da ex-ministra Dorothéa Werneck (no
mesmo jornal, em 16 de fevereiro). Tomarei a questão por um ângulo que está
ausente na argumentação de Franco -mas não inteiramente na posição de Dorothéa.
Acredito que o ponto de partida da discussão deva ser o péssimo estado em que
se encontrava a indústria brasileira no início da década passada. Focalizando
apenas a indústria automobilística, referência obrigatória na avaliação da
experiência das câmaras setoriais, podemos afirmar que os seus maiores
problemas eram: a defasagem dos modelos, o mau estado das relações entre
fornecedores, montadoras e trabalhadores e o encarecimento dos preços
domésticos em dólar.
A gravidade da situação pode ser avaliada pelo fato de que, nos anos
precedentes e sob a liderança do Japão, haviam sido profundamente alteradas as
relações entre as partes envolvidas na produção. Numa palavra, o novo modelo impunha
muito mais colaboração e interação -não sendo mais sustentáveis as relações não
cooperativas do fordismo. De acordo com Womack J. P. (e outros) no clássico
"A Máquina que Mudou o Mundo", no modelo que estava sendo
ultrapassado "os fornecedores entram em cena tardiamente no processo,
pouco podendo fazer para melhorar o projeto".
Em suma, no mundo pós-Toyota, não dava mais para competir à moda antiga.
No caso da indústria brasileira, as relações eram não apenas do tipo antigo
como haviam se tornado mais conflituosas, durante a longa estagnação dos anos
80 (década em que a produção de autos havia sofrido tombos de 14,8% e 10,8%,
nos anos de 1987 e 1990). Nesse contexto, as câmaras setoriais eram uma
experiência, no mínimo, muito oportuna. Elas contribuíam para a aproximação das
partes, indispensável à rápida evolução para o novo paradigma, imposta pela
abertura da economia.
Foi, aliás, no clima criado pelas câmaras que surgiu o decreto do presidente
Itamar, rebaixando a carga tributária para autos "populares" -vale
dizer, capazes de atender às faixas de renda em que era maior o potencial de
crescimento do mercado. Tratada por muitos com desdém, a medida (que havia sido
recomendada pela Booz-Allen & Hamilton, em estudo datado de 1990)
revelou-se, como bem se sabe, extraordinariamente exitosa.
Pode-se mesmo arriscar a hipótese de que, com essa mudança tinha início a
transição da indústria brasileira para uma fase mais avançada, em que começa a
ganhar importância a especialização por produtos. Ou seja, o carro de mil
cilindradas, a família ERJ de aviões da Embraer, os ônibus da Marcopolo e os
produtos da Natura, exemplificando, estariam inaugurando o ingresso do Brasil
num estágio superior da competição.
Gustavo Franco, contudo, possivelmente esperava que a especialização brasileira
a partir da abertura se daria por fatores -concentrando-se a economia em
atividades altamente empregadoras de mão-de-obra e de recursos naturais. No
nosso caso, porém, não se deu essa especialização por grandes setores.
Ocorre, porém, que, na especialização por produtos, assim como, genericamente,
nas formas de organização contemporâneas, o entendimento entre capital e
trabalho é muito importante -assim como o bom e íntimo relacionamento com
fornecedores e até mesmo clientes. Por todas essas razões, pode-se sustentar
que as câmaras setoriais (e a automobilística, muito particularmente) ajudaram
a recuperar o tempo perdido. Se assim for, chamá-las de "quintal de
lobistas", "embuste setorial" ou "carnavalização" da
política industrial parece mera pirotecnia verbal.
Antonio Barros de Castro, 58, professor titular da UFRJ (Universidade
Federal do Rio de Janeiro) e ex-presidente do BNDES (Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social), escreve às quartas-feiras, a cada 15 dias,
nesta coluna.