Folha de São Paulo, 16/05/96
A troca dos
"Bradies"
CELSO PINTO
O Banco Central poderá excluir os bancos
brasileiros que têm bônus da dívida externa brasileira _os ''Bradies''_ da
operação de troca por novos bônus, com maior remuneração. O BC está pedindo ao
Senado autorização para fazer esta operação.
A troca poderia beneficiar principalmente o Banco do Brasil, que tem mais de
US$ 5 bilhões de títulos da dívida. O diretor da Área Internacional do BC,
Gustavo Franco, contudo, pensa em excluir os bancos brasileiros.
Isso tornaria a
operação um teste mais realista do que o mexicano sobre a receptividade do
mercado a bônus novos, de longo prazo. O México fez, neste mês, uma operação
semelhante: acabou colocando US$ 1,75 bilhão em títulos de 30 anos, pagando 11,5%
de juros ao ano. Desse total, contudo, calcula-se que os próprios bancos
mexicanos e intermediários ficaram com cerca de metade do total _o resto foi
demanda efetiva de mercado.
A operação é menos
complicada do que parece, embora seus custos e benefícios não sejam tão óbvios.
O BC está pedindo autorização para trocar o estoque de títulos da dívida (US$
51,6 bilhões), mas, na verdade, o que tem em mente, segundo Franco, é envolver,
de imediato, os dois títulos que têm garantias colaterais: os "Par Bonds"
e os "Discount Bonds". Os bancos brasileiros, em geral, não optaram
por esses papéis.
A razão é simples.
Os bancos credores do Brasil, quando fecharam o acordo da dívida, exigiram que
esses dois papéis tivessem garantia do principal, sob a forma de títulos do
Tesouro americano.
Estes "colaterais" são uma garantia extra para os bancos, mas não são particularmente interessantes para os investidores em "Bradies" no mercado internacional. A remuneração dos bônus pode ser medida de duas formas para o investidor: os juros do papel mais a remuneração embutida no deságio com que ele é vendido no mercado; e essa remuneração mais a embutida nas garantias.
Com as garantias,
ela é maior, mas os investidores, via de regra, prefeririam ter uma remuneração
corrente maior e não ter as garantias. É uma forma de ter uma visão mais clara
e simples do risco do país envolvido.
Existem US$ 10,5 bilhões em "Par Bonds", com 28 anos de vida, 5% de
juros anuais no cupom original. Eles estão sendo negociados com deságio de 47%,
o que aumenta sua rentabilidade total, consideradas as garantias, para 16,5%.
Os "Discount" somam US$ 7,3 bilhões, 28 anos de prazo, juros de cupom
de 6,5%, deságio de 32% e rentabilidade total de 14,7%.
O que isso quer
dizer? Que o governo brasileiro paga 5% e 6,5% de juros, respectivamente, para
papéis de 28 anos. O investidor que comprar o papel no mercado e o mantiver até
o vencimento receberá, teoricamente, 16,5% e 14,7%.
Só que, de um lado, as garantias custam dinheiro para o país (no caso do
México, ao trocar US$ 1,75 bilhão em "Bradies", o país liberou US$
400 milhões em garantias). De outro, os investidores, como indica a operação do
México, estariam dispostos a abrir mão de parte da rentabilidade embutida nas
garantias.
O governo
brasileiro pagaria mais em juros _algo em torno dos 11,5% pagos pelo México. Em
compensação, resgataria sua dívida velha com algum deságio. É provável que,
como aconteceu com o México, tão logo a operação seja anunciada haja uma
redução no deságio, mas ele continuou a existir.
Além disso,
argumenta Franco, o ganho com a liberação das garantias compensaria a diferença
entre os juros antigos e os novos. Daí por que ele quer fazer a troca com os
dois papéis que têm garantias.
Outro ganho, não
mensurável diretamente, é fazer "a última varredura da crise da
dívida", como diz Franco. Eliminar, ou reduzir, o estoque de bônus
enfiados à força no mercado, discriminados pelos investidores "por serem o
equivalente externo às moedas podres internas". Poderia melhorar a receptividade
para novos bônus e fixar um patamar para títulos brasileiros de longo prazo
(provavelmente 30 anos).
A única coisa que o BC não pode fazer é revelar, já, os detalhes do que irá
fazer, como querem alguns senadores. Se depender disso, a operação não sairá.