CORREIO BRAZILIENSE
23 de julho de 1995
(EDITORIAL)
O diretor de assuntos internacionais do Banco
Central, Gustavo Franco, lança nesta terça-feira, em São Paulo, seu livro
"O Plano Real e Outros Ensaios", no qual faz uma apanhado das teses que
dividiram os economistas antes da implantação do real e ao longo dos primeiros
seis meses de vigência da nova moeda.
No prefácio da obra, o
presidente Fernando Henrique Cardoso destaca algumas características do autor -
segurança, competência e erudição - e expressa sua admiração pelas
contribuições de Gustavo Franco durante os debates que levaram à criação da URV
e do Plano Real.
A leitura da obra é
recomendada a quem quer refletir com maior profundidade sobre os complexos
problemas econômicos brasileiros. Mais polêmico entre os técnicos que integram
a equipe econômica, Gustavo Franco afirma, entre outras 'coisas, que o Plano
Real promoveu um profundo reordenamento social e que gerou um impulso renovador
na sociedade brasileira.
Concorde-se ou não com as
afirmações do economista, é importante que os debates teóricos no interior do
governo cheguem ao conhecimento do grande público para melhor balizar as
opiniões, contrárias ou favoráveis ao plano de estabilização em vi Aparentemente,
ninguém discorda de que o Plano Real foi positivo para o Brasil. Afastou-se o
perigo de hiperfinflação. Foi destruída uma cultura baseada na indexação
implacável, que avançava por ciclos, entre- cortados por planos econômicos em
geral mal sucedidos.
No entanto, o paraíso
que se descortinou nos primeiros meses do Plano, e que explodiu numa orgia
consumista no trimestre inicial deste ano, está agora em xeque. Tudo indica que
o consumo despencou não só por que o governo adotou medidas restritivas de crédito.
Mal acostumado ao financiamentos, porque durante muitos anos esteve impedido de
fazer compras a prazo, o brasileiro endividou-se além do razoável.
O Plano Real, como quer Gustavo
Franco, representou um grande avanço, sem dúvida. Mas o caminho que se
descortina pela frente ainda é muito longo e áspero. As profundas distorções
acumuladas ao longo de décadas não serão vencidas facilmente.
Heterodoxos ou ortodoxos,
como Gustavo Franco, os economistas brasileiros, cujo passatempo preferido é a
discordância ruidosa na páginas dos jornais, parecem estarem de acordo em
apenas um ponto: os sacrifícios que o país tem pela frente serão ainda maiores
dos que os vividos ao longo deste primeiro ano de real.