18/09/1996 - Veja
Cozinheiro do Real
Gustavo Franco formula a
receita para que o
governo FHC promova o crescimento econômico
Antenor Nascimento Neto
O economista Gustavo
Franco, 40 anos, diretor da área internacional do Banco Central, é um escritor
contumaz. Anota tudo, passa metade de seu expediente no BC escrevendo e não vai
a reuniões governamentais sem uma pasta entupida de papéis. Os relatórios
econômicos de Franco têm um leitor privilegiado, que é o presidente Fernando
Henrique Cardoso. Na hierarquia do Poder Executivo, Franco ocupa um cargo de
terceiro escalão, mas de quando em quando almoça ou janta com o presidente,
para alimentá-lo com suas idéias. O presidente gostou tanto da última produção
do rapaz, intitulada “A inserção externa e o desenvolvimento”, que decidiu
divulgar o documento em vez de mandá-lo para o arquivo.
Ao fazê-lo, FHC chancelou informalmente os pensamentos de política econômica
contidos no estudo de 47 páginas. E Franco ganhou o status de cozinheiro
oficial das teorias do Plano Real. “Mesmo quem não gosta do que ele pensa tem
de saber o que anda na sua cabeça”, diz um ex-ministro da área econômica que
nunca concordou com as teses de Gustavo Franco. “Ele é a referência econômica
do governo tucano.” O documento é importante porque apresenta pela primeira
vez, em vinte meses de Presidência tucana, uma linha definida de teoria e ação.
O objetivo do governo é o crescimento econômico, informa Franco. Os meios para
atingi-lo são (por ordem de apresentação no relatório) a abertura do país à
economia internacional, a estabilidade da moeda e a contenção dos gastos do
governo. Não prega apenas a continuação da abertura do Brasil ao comércio
internacional. Diz que essa abertura deve ser maior, de duas a três vezes. O
câmbio continuará flutuando levemente, segundo as ações do mercado, dentro das
bandas estabelecidas pelo Banco Central. Não será ajustado para beneficiar
exportadores nem para proteger empresários da concorrência com produtos
importados.
Produtividade — Para a questão da distribuição de renda, tão importante num
país de concentração selvagem da riqueza, Franco tem o seu remédio, só que ele
é diferente do distributivismo populista preconizado pela maioria dos
adversários do tucanato. Para Franco, se houver crescimento econômico, baseado
na moeda estável, na abertura e em ganhos de produtividade, haverá
necessariamente distribuição de renda. Fábricas mais produtivas pagam melhor ao
seu trabalhador. Isso distribui renda. Por outro lado, a fábrica mais eficiente
pode cobrar menos pelo seu produto, o que ela fará desde que seja pressionada
pela concorrência num regime de mercado aberto. Beneficia-se assim o consumidor
— e isso também é um fator de distribuição de renda. Ou seja, o dinheiro se
espalha de maneira mais equilibrada.
A abertura não arruinará a indústria nacional, diz Franco. Eis outra questão
que é colocada pelos críticos do Plano Real como um de seus defeitos. A
abertura, ao contrário, está melhorando a economia, argumenta ele. Em seu
estudo, fornece alguns dados interessantes. Entre 1986 e 1990, a produtividade
industrial cresceu 1,4% ao ano. Entre 1990 e 1995, período pós-abertura, o
índice pulou para 7,6% ao ano. “Onde existem competidores estrangeiros para
ocupar maiores fatias de mercado, o assunto é outro. O investimento em
tecnologia, qualidade e produtividade se torna uma necessidade. Não é por outra
razão que os esforços de aperfeiçoamento, enxugamento e racionalização não têm
nenhum precedente na cultura empresarial brasileira”, escreve.
O mérito político do relatório de Franco é ancorar com firmeza o pensamento
tucano sobre a política econômica do governo. “Esse documento é uma peça
contundente que mostra o norte, o sentido do Plano Real. Faltava ao plano uma
peça literária econômica que o legitimasse”, diz Octavio de Barros, um tucano,
diretor da Sociedade Brasileira de Estudos das Empresas Transnacionais. Os
tucanos, como se sabe faz muito tempo, têm dificuldade para firmar suas idéias.
Eles flutuam de lá para cá e discutem tanto os detalhes e nuances de um
problema que acabam trançando as pernas e caindo no chão. O governo de Fernando
Henrique tem sido assim. É o governo do “desde que”. Deve-se privatizar
estatais, desde que sejam vendidas pelo preço justo. A abertura é saudável,
desde que não exporte empregos para a China. O capital estrangeiro será
bem-aceito, desde que... Como todos os assuntos neste governo carregam um
apêndice restritivo, o resultado é um clima de indecisão e de imobilidade. O
estudo de Franco dá uma martelada no método de governar por indecisão. Aponta
claramente um objetivo de governo e diz sem vacilações que ferramentas devem
ser usadas para atingi-lo.
Quem se interessa por história econômica e deseja entender com mais clareza o
que ocorre com a economia brasileira achará um bom material no dossiê. Franco
aponta para o modelo antigo, vigente até 1990, e apresenta a fórmula nova. O
modelo antigo era a substituição de importações. A política do Estado era
proteger a indústria local e incentivar os industriais a fabricar no país
produtos semelhantes aos que eram importados. O objetivo final era tornar o
Brasil um país auto-suficiente, protegido de turbulências vindas do exterior. O
Brasil nem ficou auto-suficiente nem se protegeu. Bastou a crise da dívida
externa de 1982 para que o país entrasse no parafuso infernal dos anos 80 e do
início dos 90. No parafuso, sucumbiu também o velho desenho do Estado como
realizador de grandes investimentos.
Ironias — Um dos problemas do presidente Fernando Henrique é que o velho modelo
deixou milhares de viúvas que ainda não abandonaram o luto e o criticam por não
fazer aquilo que os outros governos faziam. É um dos capítulos mais
interessantes do trabalho de Gustavo Franco. O Brasil mudou muito rápido, diz
ele, acabando com um modelo “que nos dava conforto quanto aos rumos do
desenvolvimento”. Na cauda dessa mudança, vieram “frustrações”, “nostalgia”,
“ressentimentos”, “recalque”, “pessimismo”.
Existem ironias nesse libreto doutrinário do Real. Uma delas refere-se às
queixas crônicas sobre a defasagem cambial. “O fato de o preço da banana cair
em função de uma supersafra quer dizer necessariamente que há uma defasagem
bananal?” Em outro momento, também sobre a questão cambial, o escritor é
agressivo. Ele qualifica aquele que pede sistematicamente a desvalorização do real
como um “viciado terminal, que requer doses maiores da mesma droga com efeito
cada vez menor”. Tripudia sobre os elucubradores de modelos econômicos e
projetos nacionais. Segundo ele, isso é uma mitificação das vanguardas
intelectuais e políticas, de esquerda e de direita, que se dão muita
importância, “parecendo querer estabelecer uma curiosa primazia do historiador
sobre a História”.
Em alguns momentos, o relatório é iconoclasta. O Estado como promotor e diretor
do crescimento não existe mais. Quem fará essa tarefa é a iniciativa privada.
Por essa razão, planos de meta não têm muito sentido. “O governo se torna
coadjuvante e as burocracias e os políticos perdem o papel missionário que
assumiram ao longo das décadas.” Num país de forte tradição dirigista, as
pessoas se acostumaram a achar que um governo que não faz obras não é bem um
governo, e se não tem planos de meta é como um corneteiro sem corneta. O papel
do governo, Segundo Franco, é criar um clima favorável aos investimentos
privados e não fazer ele mesmo os investimentos e a orquestração rígida da
economia.
O relatório de Gustavo Franco não tem teorias originais nem revelações
estonteantes. Mas ele tem duas virtudes. A primeira é mostrar com clareza o que
anda pela cabeça econômica do governo. A segunda é discutir temas como o papel
do Estado, globalização e crescimento econômico com argumentos consistentes.
Bem diferente dos críticos do Real, que até agora só produziram discursos
aéreos.