O ESTADO DE S.PAULO
Domingo, 19 de Dezembro de 2004
A
divisa sagrada e o rinoceronte normal
Dionísio
Dias Carneiro*
De
que fogem os capitais? A onda de euforia nos mercados financeiros refletiu-se
no sorriso do presidente. Os preços da dívida externa brasileira espelham a
inflação de preços de ativos e até ressurgem as especulações sobre as chances
de o Brasil se tornar investment grade. Ou seja, cresce a chance de que o
Brasil seja tido como destino seguro para a aplicação de fundos de pensão
americanos. Essa mudança sinalizaria menor custo para que as empresas
brasileiras invistam e, assim, as ações das empresas abertas subam.
Em
contraste, o pedido de indiciamento do ex-presidente do BC Gustavo Franco, pelo
relator da CPI do Banestado, é um exemplo dos obstáculos à normalização
institucional necessária para reduzir as fragilidades brasileiras vistas do
exterior. Não me refiro à leviandade com que se trata a honradez de homens
públicos. Esta não é apanágio de parlamentares que transformam a instituição da
CPI em picadeiro, em busca de notoriedade. A decisão envolve uma perniciosa
vulgarização da desonestidade, algo como identificar o bom negócio com o crime,
como fez recentemente o presidente do Incra. Para combater a corrupção contamos
com a correção pela via do voto, da imprensa livre e da responsabilidade
criminal. Preocupa-me, porém, a associação de movimentação de capitais com algo
que prejudica o País: a idéia de "evasão de divisas" igualada à
"evasão tributária". Há, no fenômeno, uma cultura prejudicial ao
desenvolvimento econômico e os partidos políticos têm-se omitido diante do
problema.
Este
não é o veículo, nem a oportunidade, para identificar as raízes históricas
dessa idéia de "proteção" da riqueza nacional, que legitima posições
indefensáveis, à luz da economia internacional do século 21. A sobrevivência
dessas idéias anacrônicas na América Latina é evidenciada pela nova aliança de
Hugo Chávez e Fidel Castro - a Aliança Bolivariana das Américas (Alba) -, na
vanguarda do atraso, causando inveja a membros notórios, ainda que
temporariamente silentes, do governo Lula.
Controles
de capitais e proteção comercial são instrumentos que, no máximo, se justificam
em ocasiões excepcionais, emergências de curtíssimo prazo. No terreno fértil de
uma visão conspiratória do mundo, semeado pela cupidez dos empresários e pela
estupidez dos vendedores de ideologias recauchutadas, vicejam e se enraízam as
defesas de curto prazo, que explicam muitos dos obstáculos à construção de uma
economia capaz de superar o subdesenvolvimento.
Não
faltam exemplos dramáticos de sobrevida perniciosa de soluções de curto prazo.
No parque de dinossauros dos fósseis institucionais vivem: o direito sagrado à
correção monetária de curto prazo e à indexação das pensões pelo salário
mínimo; as muralhas erigidas para guardar as divisas que fogem das moedas
inconversíveis e das ameaças de calote, apesar de se haverem mostrado inúteis
nas batalhas. Desloca-se para "gerações futuras" a remoção de defesas
que, aos poucos, se incorporam à cultura dominante. Algumas sobrevivem com o
status de "tradição republicana", expressão mágica tão ao gosto de
alguns políticos quando acabam os argumentos lógicos. O abuso e o prolongamento
de soluções temporárias se justificam pela combinação de uma visão conspiratória
das relações econômicas externas com um difuso, mas sempre legitimado,
pragmatismo nacionalista. Em matéria econômica, a idéia de que a
conversibilidade da moeda e a liberdade de movimentação de capitais são apenas
lobbies dos que desejam fugir do País com sua liquidez tem sido complemento de
uma visão mercantilista e protecionista que conspira contra a eficiência e o
crescimento, em nome de um difuso "interesse nacional", que hoje já
aceita a exportação, mas ainda acha a importação um problema; gosta da entrada
de investimento e do financiamento, mas detesta a saída do lucro e dos juros.
Tal como em O Rinoceronte, peça de Ionesco, a esperança de superação das
contradições geradas por esta visão é deslocada para um momento no futuro, quando nos pudermos dar ao
luxo da racionalidade. Aos poucos, os brasileiros acostumam-se à presença do
rinoceronte. A legislação e o sistema judiciário entronizam o rinoceronte como
o padrão de normalidade jurídica, que se alastra pelas instituições e torna
criminosos os cidadãos. Tenta-se estender, agora, àqueles que, no exercício de
suas funções, se esforçam para modernizar o País. Resta aos capitais fugir dos
rinocerontes e dos fósseis institucionais que deles se alimentam.
*Dionísio Dias Carneiro, professor licenciado do Departamento de Economia, PUC-Rio, é diretor do Instituto de Estudos de Política Econômica (IEPE/CDG)