(Valor – 13/09/04)
A
conversibilidade da conta de capitais
Daniel
L. Gleizer
Poucos
tópicos geram controvérsias tão apaixonadas quanto o da desregulamentação da
conta de capitais do balanço de pagamentos. No Brasil, a evolução deste debate
está intimamente ligada à nossa melancólica história fiscal e monetária.
Como
resultado de décadas de inflação crônica, a moeda nacional era ostensivamente
desprezada pelos residentes no Brasil. Neste contexto, as restrições à
conversibilidade serviam para dificultar ao máximo a sua troca por moeda
estrangeira, pois temia-se que esta possibilidade levaria boa parte da poupança
nacional a se deslocar para o exterior, comprometendo ainda mais nosso
desempenho econômico.
Assim, a
regulamentação de nossa conta de capitais foi marcada pelo objetivo de estancar
uma potencial fuga de divisas e pela discrição do Estado na alocação dos
recursos disponíveis. Desta forma, o debate sobre os benefícios deste arcabouço
regulatório teve como pano de fundo a desordem monetária que a ele deu origem, assim
como a estrutura de estímulos setoriais que dele decorria.
Ademais,
décadas de convivência com a noção de evasão de divisas, sedimentaram na
sociedade brasileira uma atitude de desconfiança de tudo que se relaciona com
moeda estrangeira. Esta dimensão cultural faz com que propostas de
desregulamentação da conta de capitais sejam recebidas com suspeição por parte
da sociedade, contribuindo para que perdure um arcabouço regulatório que teve
origem em um conjunto de circunstâncias, em grande medida, já superadas.
O paradigma
conceitual que norteia o debate sobre a conversibilidade é a teoria do
bem-estar. Esta demonstra que, em situações de mercados competitivos e
completos, a conversibilidade é vantajosa pois viabiliza a migração do capital
para oportunidades de investimentos mais produtivas, possibilitando uma
alocação eficiente de recursos. Do ponto de vista agregado, os consumidores de
um país beneficiam-se da possibilidade de contrair empréstimos e de investir no
exterior, pois estas oportunidades reduzem a dependência de suas decisões das
oscilações do produto doméstico.
É consensual a noção de que a
abolição de controles
na conta de capitais exacerba os
efeitos perversos
de políticas econômicas
insustentáveis
O
deslocamento do debate da teoria para a prática, exige que se avalie a
adequação deste arcabouço teórico para descrever a realidade em questão. Assim,
o foco recai sobre as características institucionais de cada economia, onde a
existência de alguma distorção peculiar, pode fazer com que a introdução de
controles de capitais assuma vantagens ou desvantagens, não generalizáveis. Mas
será que os trabalhos teóricos e empíricos sobre o assunto oferecem alguma
proposição de caráter geral?
Uma revisão
da literatura mostra que é consensual a noção de que a abolição dos controles
na conta de capitais exacerba os efeitos perversos de políticas macroeconômicas
insustentáveis, tais como políticas monetárias, fiscais e cambiais
inconsistentes. Além disto, há evidências de que a liberalização é particularmente
danosa na ausência de um adequado arcabouço de regulamentação prudencial do
sistema financeiro. Diante disto, prevalece hoje o entendimento de que há dois
critérios básicos para que a adoção da conversibilidade da conta de capitais
gere os benefícios dela esperados. O primeiro é que uma série de pré-condições
precisa estar atendida. Entre estas se destacam a disciplina fiscal, um regime
de taxas de câmbio flutuantes e um aparato de regulamentação prudencial do
sistema financeiro adequado. O segundo é que o processo deve respeitar uma
seqüência ótima, com a conversibilidade da conta corrente antecedendo a da
conta de capitais e com a liberalização dos fluxos de investimento direto
antecipando-se à dos capitais de curto-prazo.
Por que,
então, perduram tantas dúvidas quanto ao caminho a seguir? O problema reside na
dificuldade em avaliar, num dado momento do tempo, se estas pré-condições estão
adequadamente satisfeitas. Ademais, hoje entende-se que, quaisquer que sejam as
conjecturas dos formuladores de políticas econômicas acerca desta conformidade,
é a avaliação implacável do mercado que vai determinar o sucesso ou o fracasso
da empreitada. E esta avaliação é feita não apenas em relação às condições que
antes prevaleciam em um determinado país, mas sim relativamente às
oportunidades e condições existentes em outras paragens. E ela é, e será,
refeita constantemente. No mundo de hoje, não há uma avaliação estanque da
economia, desvinculada do que com ela se pretende fazer no futuro.
Este olhar
para o futuro introduz uma nova dimensão no debate sobre a conversibilidade,
pois a própria existência de controles de capitais afeta a percepção do público
quanto ao atendimento das condições requeridas. Isto é, a manutenção de
controles de capital funciona como um instrumento de sinalização sobre a
qualidade dos fundamentos econômicos do país. Se o Banco Central (BC) mantém
controles é por que acredita que, na sua ausência, ocorreria uma fuga de ativos
financeiros do país. Ora, tal fuga somente ocorrerá se o público acreditar que
a qualidade da moeda local é significativamente inferior à da moeda
estrangeira, ou que a jurisdição local é menos respeitadora dos direitos de
propriedade dos detentores de riqueza financeira, do que a jurisdição
estrangeira. Assim, ao manter os controles o BC estaria sancionando a percepção
de baixa qualidade do padrão monetário local.*
É possível,
porém, que a sinalização enviada pelos controles não seja equivocada. Este
seria o caso se as pré-condições necessárias não estivessem satisfatoriamente
atendidas, ou se o desenvolvimento institucional do país ainda não tiver sido
capaz de eliminar o temor de que o governo adote medidas confiscatórias. O
problema é que a manutenção dos controles reforça o segundo problema. O
corolário parece ser a necessidade de perseverar na adoção de políticas
macroeconômicas coerentes e sustentáveis, aprofundando os mecanismos
institucionais que assegurem os direitos de propriedade e reforçando
gradativamente o compromisso de avançar em direção à conversibilidade.
* Pérsio
Arida enfatiza este aspecto em trabalhos recentes.
Daniel
L. Gleizer, ex-diretor do Banco Central do Brasil, é diretor executivo do
Unibanco e escreve mensalmente às segundas-feiras.