Discurso de agradecimento por
ocasião da entrega da Medalha de Mérito Pedro Ernesto pela Câmara Municipal da
Cidade do Rio de Janeiro aos “economistas do Plano Real”, Rio de Janeiro, 19 de
maio de 2008
Digníssimas autoridades, são muitas, por favor, sintam-se
todos saudados, sem distinção de ordem e prioridade; já não tenho mais um
cerimonial que me aconselhe nesses assuntos. A exceção é para a vereadora
Andrea Gouvêa Vieira, mentora desta cerimônia e presidente da sessão, para a
qual dirijo os meus especiais agradecimentos.
Boa noite a todos que aqui estão.
Eu queria chamar a
atenção para várias dimensões dessa homenagem, e de forma muito breve. Peço a
permissão para ler; os que me antecederam são todos oradores experientes, com muitas
horas de Plenário, que falam sem ensaiar, com uma desenvoltura que me falta. Eu
preciso ter a disciplina de um texto, um
roteiro; em momentos como este é preciso não esquecer detalhes, nomes, datas, e
agradecimentos fundamentais.
O primeiro registro a
fazer refere-se à minha alegria imensa de estar entre amigos, nesse grupo de
cinco, do qual tenho muito orgulho de participar, cuja militância conjunta nas
lides do ensino e pesquisa em economia já vinha de muitos anos quando nos
encontramos em 1993, quinze anos atrás.
Como já foi observado, todos nós temos ligações profundas com a PUC do
Rio de Janeiro, onde todos trabalhamos como professores e pesquisadores.
A PUC é um ícone de excelência acadêmica desta Cidade na economia e em tantas
outras áreas de conhecimento. Ali aprendemos (e ensinamos) valores como
competência e profissionalismo, mas também o compromisso com o Bem Comum.
Também já foi observado que o nosso trabalho, na experiência do Plano Real, tem
muito a ver com esse relacionamento virtuoso, que às vezes se estabelece entre
Sociedade e Academia. São raros e felizes os momentos onde se dá o encontro
entre políticas públicas e universidade, entre conhecimento e ação: o Plano
Real foi um desses momentos, sinto-me particularmente orgulhoso de ter sido
parte desta experiência.
Entendo como
fundamental, todavia, estabelecer que esta homenagem tem alguns limites que
cabe ressaltar.
O primeiro deles tem a ver com o fato de que são cinco os homenageados,
mas com muita facilidade nós poderíamos transformar esse número em cinquenta,
se fôssemos elencar todos os que foram essenciais pelo esforço que nós
empreendemos ou começamos.
Se fôssemos para a categoria dos importantes, os cinquenta já virariam quinhentos.
Sim, é um trabalho de equipe, equipes que coordenam equipes, de equipes.
Há vários nomes que eu gostaria de mencionar, dentre os essenciais, e além
dos que já foram aqui lembrados, alguns presentes, outros ausentes, mas que
poderiam perfeitamente estar entre os cinco: meu amigo
Mais adiante, no Banco Central, eu não poderia deixar de mencionar, como
partícipes da aventura, e parceiros de tantas batalhas, Dr. Gustavo Loyola; Dr.
Alkimar Moura; Dr. Claudio Mauch, já mencionado; Dr. Demóstenes Madureira do
Pinho, e através destes faço minha homenagem aos inúmeros funcionários do Banco
Central, com quem tive o orgulho de trabalhar.
A minha militância na
concepção, gestão, defesa, ajuste e revisão do Plano Real durou quase sete
anos. Nâo é tão longa quanto a do Ministro Pedro Malan, aqui presente, mas é um
pouco mais prolongada que a dos outros companheiros aqui homenageados. Menciono
este “tempo de serviço” à causa do Plano Real com um intuito muito claro, e
referente a uma segunda limitação dessa homenagem.
O Plano Real, erradamente, talvez, é pensado como um plano de reforma
monetária, centrada na URV, sua conversão no Real, e tudo o que se passou entre
fevereiro e julho de 1994. Foi uma jornada extraordinária, mas queria lhes
dizer que o Plano Real é muito mais do que isso.
O Plano Real envolveu uma mudança tectônica, filosófica, importante no
país, principalmente no domínio fiscal, no domínio da coisa pública, que
começou, neste terreno, com o Fundo Social de Emergência, depois se transformou
em várias outras, e que gerou a Lei de Responsabilidade Fiscal, tão importante,
tão celebrada, inclusive pelo fato de sua denominação sintetizar tão bem todo o
sentido deste percurso.
Foram várias rodadas de renegociações de dívidas estaduais, saneamento
de bancos estaduais, extinção, privatização de vários deles, e melhoria nas
finanças dos entes subnacioniais. Era a Responsabilidade Fiscal levada aos
Estados e Municípios.
O Plano Real também envolveu o saneamento do sistema bancário privado; o
Plano Real também é o PROER, tão polêmico, como o PROES (dos bancos estaduais).
Foi, também e principalmente, o programa de privatização, o federal e os
conduzidos pelos estados, a reforma do Estado que acompanhou esses programas, a
desregulamentação, e a formação de novas agências reguladoras redefinindo os
termos da relação entre Estado e Sociedade.
O Plano Real também foi a abertura econômica, processo amplo e
multidimensional destinado a tornar o Brasil um cidadão desse Planeta, e não um
país isolado na sua própria incapacidade de andar e de relacionar-se com outras
nações. Era necessário que o Brasil adotasse paradigmas internacionais de
políticas públicas para que fizesse parte da comunidade de nações sem dela se
esconder.
Era parte do Plano Real estabelecer a primazia dos mercados como parte
de um exercício de democracia, onde as pessoas participam da vida política
através da sua atividade econômica, e onde os mercados são o lócus virtual onde a opinião pública se
manifesta e vota cotidianamente, ao reagir às notícias, assim indicando às
autoridades os limites de suas ações.
Era importante encontrar termos de referência, de convivência com o
passado, com os “esqueletos”, as dívidas, os problemas herdados, os rolos,
tantos e tamanhos, que pareceram ocupar mais tempo que aquele que deveríamos
dedicar ao futuro.
Era parte importante do Plano Real o debate no plano das idéias, a
denúncia da demagogia populista, da heterodoxia charlatã, sócia da inflação e
do atraso.
Era fundamental avançar no plano institucional, especialmente em tudo o
que era relativo à criação e gestão da moeda. Era fundamental para a saúde da nova
moeda estabelecer a sua despolitização, através de uma nova forma de fazer
funcionar o Banco Central. Estávamos limitados, naquela ocasião, pela vigência
do Artigo 192 da nossa Constituição na sua redação antiga, anterior à Emenda
Constitucional n. 40 de 2003. Era preciso construir a noção de Banco Central
independente sem que isto estivesse formalmente definido, fazendo claros os
méritos desta prática antes mesmo da sua consagração nas leis. Um desafio e
tanto, mas que tinha uma lógica irretorquível, a de proteger o cidadão dos
abusos que o Estado pode cometer através da moeda.
O Real foi tudo isso, e
muitas dessas agendas continuam em aberto e estão sendo cumpridas pelos que nos
sucederam. O trabalho aí envolvido é para várias gerações de pessoas; portanto,
tecnicamente, não deveríamos ser apenas nós cinco a merecer homenagens, quem
sabe cinqüenta, ou nem quinhentos, esse programa tem hoje o tamanho das
ambições dos brasileiros quanto ao futuro de nosso país.
Não é possível diminuir
o tamanho desta tarefa, inversamente proporcional ao caos que enfrentamos 15
anos atrás. A hiperinflação, palavra que sempre procuramos evitar, por
vergonha, muito mais que por razões técnicas, era uma corrupção generalizada de
valores. Aliás, talvez essa seja a definição melhor, que adquire um sentido
antropológico, que pode ser atestada pelo nosso amigo Roberto da Matta aqui
presente.
A hiperinflação era um colapso de valores, monetários
e morais. Por isso mesmo o seu combate ainda não terminou.
É nesse sentido que se dia que o desenvolvimento, para
que seja ético, precisa ocorrer com moeda sadia.
O que quisemos fazer, sem nenhuma modéstia, e conforme
dissemos desde o início, foi dar início a um novo processo de desenvolvimento
com justiça social, algo que cabe muito bem em discursos, mas que, naquele
momento, estava precisando se transformar em ação.
A inflação era um
imposto sobre o pobre. Isso o Brasil, talvez, não entendesse bem naquele
momento e não entendesse também a relação que a inflação tinha com a tragédia
distributiva que o Brasil era e, de certa maneira, continua sendo. Foi nosso
trabalho iniciar esse processo de faxina ideológica e de varrer para o lixo da
História concepções de que a inflação poderia ser neutra, o subproduto
aceitável do processo de crescimento. Era muito importante caracterizar como
irresponsáveis as condutas fiscais enroladas em bandeiras nobres, mas que no
fundo propugnavam nada mais do que a inflação.
A inflação,
curiosamente, é uma espécie de crime perfeito, uma vez que nós não conhecemos
os responsáveis por ela; portanto, combatíamos um inimigo invisível. Aqueles
que defendiam a inflação não podiam identificá-la por um rosto, por uma pessoa,
por isso tínhamos que combater idéias abstratas. Nós, que combatemos a
inflação, fomos até alvo de perseguições, CPI’s e processos judiciais.
Eu não sou capaz de me lembrar de nenhuma “CPI da
inflação”, na qual se tenha responsabilizado os devidos culpados pelo processo
inflacionário, essa tragédia que se abateu sobre o Brasil. Mas aqueles que
combateram a inflação, não. Esses foram perseguidos por gente com o intuito de
atrapalhar, constranger, perseguir, diminuir reputações e dividendos políticos.
Já era uma prévia do fenômeno do “aparelhamento”, uma deturpação macartista,
uma doença autoritária que acomete algumas democracias, que precisam enfrentar
este desafio, como nós efetivamente enfrentamos.
O Real, na verdade, tem
quatorze anos. Em minha conta, quinze anos tem a chegada do Ministro Fernando
Henrique ao Ministério da Fazenda. Nós costumamos comemorar o aniversário do
Real no dia 28 de fevereiro, que foi quando saiu a Medida Provisória da URV.
Nela já estava escrito que a URV apenas mudaria de nome para Real quando fosse
emitida como moeda de pagamento com poder liberatório. O Real foi criado, na
verdade, ali.
Foram vários anos em
que o 28 de fevereiro ou o 1º de julho foram celebrados. Lembro bem que, por
volta de 1997, o Brasil já tinha atingido um nível de inflação igual ao dos
Estados Unidos, coisa que nenhum de nós acreditava que podíamos ter feito em
tão tempo. Para os que tomam o Plano Real como um plano de combate à inflação
era possível dizer que o trabalho estava terminado. Mas tínhamos, ainda, muita
coisa pela frente. As crises da Ásia e da Rússia, sem dúvida, determinaram mudanças
que eu acho que são muito mais táticas do que filosóficas ou estratégicas no
que estávamos fazendo. Passamos de uma âncora cambial para outra, de outra
natureza, mas o verdadeiro desafio não era esse: o verdadeiro desafio era o da
alternância no poder; era o desafio da Democracia, o desafio de ver chegar ao
poder aqueles que nos combateram, que foram oposição a cada uma das coisas que
nós fizemos e verificar o que aconteceria então.
Eu lembro, e meus
arquivos confirmam, que ao comemorar o oitavo aniversário do Real, em um
artigo, eu mencionava o modo como a Oposição enxergava o Real. Eu era mais
jovem, mais impetuoso do que hoje, e posso citar a mim mesmo com certo
distanciamento, a propósito do oitavo aniversário do Real:
“[Oito anos] ... nada mau para uma moeda que o
Presidente do PT e o seu séquito de barbudinhos zangados de linguagem
parnasiana até recentemente insistiu ser um embuste com objetivos eleitorais.
Nada mal para uma moeda a que o porta-bandeira honorário do parque jurássico,
Deputado Delfim Neto, deu quatro meses de vida.” (Veja, 03.07.2002)
E eram oito
anos naquela ocasião. Esse era o tom da discussão sobre o Plano Real no seu
oitavo ano...
É interessante notar que, ao comemorar o décimo ano, e
de novo vou lhes pedir a indulgência de permitir que eu cite a mim mesmo, escrevi
o seguinte:
“à diferença de outros aniversários do Plano Real,
talvez agora, no décimo, possamos celebrar o fato de que faz dez anos que temos
uma moeda digna desse nome sem que isso se transforme em um evento político
partidário – contra ou a favor. Após dez anos, podemos estipular que estão
prescritos os dividendos políticos, e também as críticas peçonhentas e
artificiais que inclusive não combinam propriamente com o que vem fazendo o PT
no governo. E assim podemos olhar com orgulho para o nosso próprio passado e
celebrar uma conquista maravilhosa, que é de todos, sem oportunismo e sem
recalques. (Veja, 03.03.2004)
Agora, com 14 anos do Plano Real, nesta festa
maravilhosa, creio que valeria apenas uma última observação sobre o modo de ver
o Plano Real: as coisas mudaram de tal maneira que hoje a dificuldade que
tenho, e seguramente os meus quatro companheiros aqui da mesa também têm, para
não falar dos companheiros do PSDB aqui reunidos, é de asseverar que nós temos
algum parentesco com essa nossa criatura, que hoje parece que é do PT, e não mais
nossa.
Por isso mesmo, não tenho dúvidas, o Real terá uma
vida longa.
Muito obrigado a todos.