O Estado de São Paulo,
sexta-feira, 17 de Dezembro de 2004
PF
ostenta, mas pelo menos faz
A
CPI do Banestado cumpriu com maestria o seu destino: desmoralizou de vez as
CPIs
DORA
KRAMER
dkramer@estadao.com.br
A moral há muito
já andava mesmo escassa no Parlamento, mas depois da ignomínia perpetrada pela
CPI do Banestado, realmente suas excelências perderam de vez a condição de
pronunciar mais um pio sobre as operações da Polícia Federal e seus supostos
excessos no quesito espalhafato.
Casa de
faladores rápidos no gatilho se o alvo é a vida alheia e de indolência atroz
quando na berlinda estão seus pares, o Parlamento deu bastante abrigo à tese
segundo a qual a PF "exagera" quando prende gente graúda e, de capuz
e colete à prova de bala, exibe o feito para a televisão.
Advogados
sustentaram as críticas e dias atrás o ministro da Justiça, Márcio Thomaz
Bastos, fez uma reunião com os subordinados pedindo comedimento aos policiais
na apresentação de seus feitos. Talvez sensibilizado pela manifestação dos
colegas, doutor Márcio acabou repreendendo - com brandura, deu para entender -
quem não merecia reprimenda.
É certo
que a PF ostenta. Mas tem o que exibir. Se faz é justo que mostre. De certa
forma é uma prestação pública de contas. Pior são certos arautos de
providências inexistentes.
Neste
aspecto, diga-se, a Polícia Federal é exceção neste governo, pois é dos poucos
setores a mostrar serviço e o único a ser constrangido a lidar discretamente
com seus resultados. Ou seja, aos factóides as luzes, as câmaras e toda a ação;
aos fatos, a serenidade parcimoniosa da esperança de um elogio em despacho
interno.
A CPI do
Banestado teve também seus dias de espalhafato. Só que de outra natureza,
talvez mesmo até oposta àquela pela qual é acusada de ostentação a polícia.
Ocorreu
quando se descobriu que, através do pedido de quebra de sigilos bancário e
fiscal de 1.400 pessoas, o relator da CPI, deputado José Mentor - integrante de
um estranho grupo em toda parte identificado como "homens do José
Dirceu" -, tinha em seu poder um banco de dados equivalente, ou melhor,
que o serviço de informações da ditadura militar.
Diante
do resultado dos trabalhos de 17 meses da comissão parlamentar de inquérito
criada para investigar o envolvimentos de políticos em operações fraudulentas
de envio de dinheiro para o exterior, aquele pedido de quebra de sigilo
generalizada soa ainda mais inadequado.
A
comissão concluiu que há indícios de culpa nos procedimentos de quatro
servidores públicos, dois empresários, um ex-presidente do Banco Central e um
ex-prefeito.
Antes
de prosseguir, um adendo: o pedido obviamente insustentável de indiciamento de
Gustavo Franco, para criar polêmica e não deixar o foco recair todo sobre a
indiferença da CPI ao envolvimento de Paulo Maluf com o vaivém de dinheiro via
Banestado, seria risível como estratégia não fosse sórdido como arma de
lesa-reputação.
De volta
ao resultado da CPI: nada nele prova que o deputado Mentor estivesse baseado em
evidências de culpa e norteado pelas necessidades objetivas da investigação
quando pediu a quebra dos sigilos das contas bancárias e do Imposto de Renda de
1.400 pessoas.
Vamos
repetir: oito foram os apontados como verdadeiramente suspeitos, um deles - o
ex-presidente do BC - porque assinou uma decisão coletiva de governo.
Mesmo
uma comissão parlamentar de inquérito obedece a certas exigências para
solicitar providências legais. Uma delas, imagina-se, seria a justificativa da
quebra do sigilo.
Pois
boquiabra-se o leitor: não houve essa exposição de motivos. A CPI obteve o que
bem quis a respeito das finanças pessoais de Deus e todo mundo que importa no
mundo da política e dos negócios, não explicou bem por que e agora mostra que
não havia porque. Pelo menos no terreno da investigação propriamente dita, pois
em outra seara ficou patente a razão no momento em que empresários e políticos
começaram a receber pressões e tentativas de extorsão sob ameaça de divulgação
daqueles dados em poder da CPI.
Findos
os trabalhos - com a finória participação da oposição no vexame, propondo-se a
fazer outro relatório, desta vez para incriminar governistas -, preservados os
termos do pacto de silêncio firmado na eleição municipal entre Maluf e o PT,
bem reforçados os arquivos da Casa Civil, sobra o prejuízo ao Congresso.
Desde
que se evidenciou o uso da CPI como arena de disputas legais mais imorais, além
de outras escaramuças menos inocentes e atinentes ao Código Penal - no capítulo
do crime de chantagem -, um sinal foi claramente dado: estavam desmoralizadas
as comissões parlamentares de inquérito como instrumentos de investigação.
Neste
aspecto, e só nele, pode-se dizer sem nenhum receio de errar, que a CPI do
Banestado cumpriu com mérito e louvor seu destino.
Dois
arquivos
Já que
tantos no governo imprimem tanta veemência à defesa da abertura dos arquivos da
ditadura, quem sabe não estivessem dispostos a aplicar um pouco da mesma
firmeza para lidar com os restos mortais da CPI do Banestado.
Foram
para onde, estão em poder de quem os arquivos da comissão?
Há
meses, disseram que foram queimados, mas ninguém sabe, ninguém viu a cerimônia
de cremação. Faltam as indispensáveis provas e, na ausência delas, prevalece a
suspeita.
Assim
como prevaleceu a desconfiança sobre a alegação do Exército de que os
documentos sobre a Guerrilha do Araguaia haviam sido incinerados. Até
recentemente, quando o ministro Thomaz Bastos esclareceu a questão: os papéis
ainda existem.
Palco
e platéia
Soou
algo dúbia a declaração do ministro Thomaz Bastos a respeito da necessidade de
"dramatizar" a divulgação dos primeiros documentos de registros do
período militar, a fim de obter um "efeito pedagógico".
Pareceu
que o ministro da Justiça defendeu a tese de que em nome da boa causa se faça
um pouco de teatro, pintem-se com tintas fortes as providências relativas aos
arquivos.
Sem pôr
em dúvida a competência do governo no quesito pirotecnia, talvez seja prudente
não arriscar, dada a seriedade do tema.