Folha de São Paulo, terça-feira, 24 de agosto
de 2004
ELIANE
CANTANHÊDE
Eu sou você amanhã
BRASÍLIA - Os deputados Aldo Rebelo, Agnelo Queiroz,
Eduardo Campos, Miguel Rossetto e Ricardo Berzoini eram muito zelosos do
interesse público. Tanto que entraram na Justiça contra os presidentes do Banco
Central do governo FHC. Queriam a verdade, somente a verdade.
Conforme a repórter Sheila D'Amorim, eles entraram com ações pelo menos contra
Armínio Fraga, Gustavo Loyola e Gustavo Franco por motivos diversos. Por causa
do plano de socorro aos bancos, por decisões sobre a venda de instituições, até
por campanhas publicitárias. Qualquer motivo era um bom motivo.
Já os ministros Aldo Rebelo, Agnelo Queiroz, Eduardo Campos, Miguel Rossetto e
Ricardo Berzoini pensam um pouco diferente. Eles são de um governo que se diz
chocado com o denuncismo contra as altas e respeitáveis autoridades da
República. Querem dar um basta nisso.
Daí, por certo, serem totalmente favoráveis à decisão do presidente Lula de
transformar o atual presidente do BC, Henrique Meirelles, em ministro. Por
medida provisória, instrumento feito para atender requisitos de urgência. E sem
discutir que Meirelles é subordinado a Antonio Palocci Filho, o que significa
ministro subordinado a ministro. Detalhes.
Sendo assim, temos que Fernando Henrique Cardoso era um displicente que deixava
seus homens sujeitos às chuvas e trovoadas da oposição, especialmente do PT. Já
Luiz Inácio Lula da Silva é rápido no gatilho para defender os seus de
infortúnios.
Foi-se a época em que os processos contra presidentes do BC não eram apenas
fartos, mas também fáceis e disseminados. Presidente do BC no governo Lula está
devidamente "blindado" -palavra cada vez mais em voga em Brasília-
contra denúncias e denuncismo. Agora, quem quiser entrar com ação que vá ao
Supremo Tribunal Federal, foro chique, adequado para julgar ministros.
Não se pode tirar a razão de Lula, não é mesmo? Ele sabe melhor do que ninguém
o que uma oposiçãozinha irresponsável é capaz de fazer...