19.06.04
Eco 1666, 2004.1
Seminário em Política Econômica
O sistema monetário
brasileiro: aspectos institucionais e jurídicos
Prof.
Gustavo H. B. Franco
Natureza e temas. As políticas macroeconômicas não são feitas
no vácuo, mas dentro de referências institucionais e legais muito definidas,
que limitam e condicionam a atuação dos economistas, especialmente quando
trabalhando no serviço público formulando políticas econômicas. Embora a
profissão dedique alguma atenção à importância das instituições e às leis
genericamente, pouco ou nada de verdadeiramente prático é ensinado sobre estes
assuntos. O caso mais comum é o de economistas destituídos de capacidade para
dialogar com os profissionais da área jurídica, como bem demonstra a triste
experiência dos “pacotes econômicos” começando pelo Plano Cruzado. Fazer
política econômica dentro de um “Estado de Direito” pressupõe que o
profissional de economia possa dialogar com as leis e instituições que
corporificam a Democracia, sendo esta a lacuna que este curso pretende
contribuir muito modestamente para preencher. O curso adota, com grande ênfase,
uma perspectiva histórica para entender a formação das instituições e o desenho
de várias leis fundamentais para o universo de preocupações macroeconômicas.
Aulas e notas. O curso consiste em aulas expositivas, e a
nota final resultará de dois componentes: uma prova (no meio), com notas
relativas, e peso um, e um “term paper”, com peso dois, a ser entregue até o
fim do período para provas finais. É necessário apresentar uma proposta
de tema & bibliografia (em uma página no máximo) até a altura da primeira
prova. O “term paper” deve tratar de um tópico específico, que envolva a
bibliografia básica do curso, ou que desenvolva algum tema econômico visto sob
a ótica jurídica. Não há requisito de tamanho, mas de “densidade”.
Pré-requisitos. Além dos requisitos formais (100 créditos e
CR mínimo), idealmente, os alunos de economia devem ter cursado Macro A e B e
Economia Brasileira 1 e 2, mas não é imprescindível. Também é importante, mas
não essencial, que os alunos sejam capazes de ler em inglês com desenvoltura.
Estudantes do curso de Direito poderão inscrever-se, desde que satisfeitos
requisitos formais. Não há restrições a alunos ouvintes.
Leituras. Diferentemente dos cursos regularmente
oferecidos no Departamento de Economia, neste as leituras compreendem muitas
obras de referência nas quais é menos importante ler que saber procurar
determinado tema. Ao manusear leis, sentenças, pareceres, o aluno deve
desenvolver a habilidade de ler seletivamente. A lista de leitura foi
deliberadamente ampliada para fornecer referências para a busca de temas para o
“term paper”. Cópias de todas as leituras estarão na pasta do curso na
copiadora, exceto quando tratar-se de material disponível em meio eletrônico,
caso em que o texto estará no site http://www.econ.puc-rio.br/gfranco.
Roteiro
(*)
indica leitura obrigatória
1. A
construção institucional da moeda fiduciária (1) perspectiva histórica:
experiências com o padrão-ouro, controvérsias sobre o sistema monetário no
Império, genealogia da moeda
brasileira, breve histórico dos bancos de emissão, metamorfoses do Banco
do Brasil, estudo de caso: reforma bancária de 1890
- Ana Maria Ribeiro de
Andrade “Moeda e banco no século XIX: historiografia e fontes brasileiras”
América Latina en la Historia Econômica. Boletín de Fuentes 3
janeiro-junho de 1995. (*)
- David Ricardo “The high price of bullion,
a Proof of the Depreciation of Bank Notes, 1810-11” em Piero Sraffa (ed.) The
Works and Correspondence of David Ricardo Volume III Pamphlets and Papers,
1809-1811 London: Cambridge University Press.
- Luiz Rafael Vieira Souto O
Papel Moeda e o Câmbio Paris: Imprimerie de Vaugirard, 1925, capítulos
5 e 6 e apêndice II (“A opinião que considera a quebra do padrão monetário
como improbidade do Estado”); ou Ruy Barbosa Finanças e Política na
República Discursos e
escritos, Capital Federal, Companhia Impressora, 1892. Cap. 1 “O papel
moeda e a baixa do câmbio” (discurso no Senado em 3 de novembro de 1891).
- G. H. B. Franco Reforma
Monetária e Instabilidade Durante a Transição Republicana BNDES, 1983,
Capítulo 5 “Epílogo: Reforma monetária em perspectiva
histórica” e “O dinheiro como veículo do Mal”
Extrato de “A Tragédia do desenvolvimento: um ensaio sobre o pessimismo”,
capítulo 6 de “O Desafio Brasileiro: ensaios sobre Desenvolvimento,
globalização e moeda” São Paulo: Editora 34. (*)
- Gail D. Triner
“International capital and the Brazilian Encilhamento, 1989-1892: an early
example of contagion among emerging capital markets” (mimeo, 2001) ou
Charles Kindleberger “The international propagation of financial crises:
the experience of 1888-1893” em Keynesianism vs. Monetarism and other
essays in financial history Londres: George Allen & Unwin, 1985. (*)
- Compilação de legislação em
Nota B (A estrutura bancária e monetária de 1875 a 1889) e Nota C (A
reforma bancária de 1890) em Pinto de Aguiar Rui e a Economia
Brasileira Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1973: Lei
2.565/75, Lei 3.263/85, Decreto 3.403/88, Decreto 10.144/89, Decreto
10.262/89, Exposição de Motivos e Decreto 165/90 (*)
2.
A construção institucional
da moeda fiduciária (2) o mundo pós 1930, o curso forçado, os controles
cambiais e o keynesianismo tropicalizado. O novo ordenamento monetário brasileiro: DL 23.501/33
e DL 857/69. O dinheiro como criatura da lei. A Lei 4.595 e a criação do BC e
do CMN
- Will Mason “Winners and losers: some
paradoxes in monetary history resolved and some lessons unlearned” History
of Political Economy 9 (4) 1977 ou John Hicks “Monetary theory and
history – an attempt at perspective” em Critical Essays in Monetary
Theory Oxford at the Clarendon Press, 1967. (*)
- Frank W. Fetter “The relation of the
history of economic thought to economic history” American Economic
Review Papers and Proceedings LV (2) Maio de 1965
- F. A. Mann The Legal Aspect of Money
with special reference to Comparative Private and Public International Law
Oxford: Clarendon Press, 5th. Edition, 1992. Cap 1 “The concept
of money” e Cap 2 “The monetary system, its organization and incidents”. (*)
- Antonio Mendes & E. B.
Nascimento “Estudo de direito monetário: a moeda e suas funções;
obrigações monetárias; estipulação e indexação de obrigações monetárias” Revista
de Direito Mercantil Nova Série, XXX (84) Dezembro. (*)
- Arthur Nussbaum Money in the Law,
national and international – a study in the borderline of law and
economics. New York: The
Foundation Press, 1950. Section 1 “The concept of money”, Section 4 “Legal
Tender”, Section 6 “Paper money”.
- Legislação: DL 23.501/33, DL
857/69 e compilação sobre normas sobre “moeda de conta” (*)
3. O
ordenamento cambial e moeda “inconversível” durante a Depressão e no sistema de
Bretton Woods: centralização e controles nos anos 1930-62. Lei 4.131 e
modificações, o “registro” de capital estrangeiro, e a evolução do regime de
controles cambiais. A liberalização nos anos 1990, o flutuante e as CC5,
controvérsias recentes, a adoção do Artigo VIII, a polêmica sobre
conversibilidade, o conflito de esferas regulatórias e a busca de identidade da
nova regulamentação cambial
- Herculano Borges da Fonseca
Regime Jurídico do Capital
Estrangeiro (comentários à Lei 4.131, de 3 de setembro de 1962, e
regulamentos em vigor), Editora Letras e Artes, Rio de Janeiro, 1963.
(*)
- Jayme Leonel Controle de
câmbios: regime jurídico penal, ensaio com referência à legislação cambial
brasileira Rio de Janeiro: Jornal do Commercio, 1955. Cap. III (*)
- G. H. B.
Franco & D. M. Pinho Neto “A desregulamentação
da conta de capitais: limitações macroeconômicas e regulatórias” Preparado para o seminário “Aprimorando o mercado de câmbio
brasileiro”, promovido pela Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM & F),
São Paulo, 4 de dezembro de 2003” (*)
- Pérsio
Arida (2004) “Aspectos
macroeconômicos da conversibilidade: uma discussão do caso brasileiro”
Preparado para o seminário “Aprimorando
o mercado de câmbio brasileiro”, promovido pela Bolsa de Mercadorias e Futuros
(BM & F), São Paulo, 4 de dezembro de 2003” ou “Por Uma Moeda Plenamente Conversível” Revista de Economia Política 23 (3)
julho-setembro, 2003. (*)
- Banco
Central do Brasil (1993) “O Regime Cambial Brasileiro: Evolução e
Perspectivas”, Diretoria de Assuntos Internacionais, Brasília, Banco
Central do Brasil. (*)
- Antonio Mendes “Câmbio, aspectos
jurídicos” Preparado para o seminário “Aprimorando o mercado de câmbio brasileiro”,
promovido pela Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM & F), São Paulo, 4
de dezembro de 2003”
- Legislação: Decreto 23.238/33,
Lei 4.131/62, Lei 4.390/65, DL 55.670/65, Apêndice de Jayme
Leonel op. Cit. , legislação cambial compilada, Banco
Central do Brasil. (*)
4. A
evolução das instituições monetárias: da SUMOC ao Banco Central. Impasses e
soluções, Lei 4.595/64. Versão original e alterações posteriores.
- Jairo
Saddi O Poder e o Cofre: repensando o Banco Central São Paulo,
Editora Textonovo, 1997. Caps. 7 e 8. (*)
- Geraldo
de Camargo Vidigal Disciplina dos órgãos de direção monetária Tese
de Livre Docência, Faculdade de Direito da USP, 1964.
- José
Tadeu de Chiara Moeda e ordem jurídica Tese de Doutorado, Faculdade
de Direito da USP, 1986.
- Horácio
Lafer O crédito e o sistema bancário no Brasil Rio de Janeiro,
Imprensa Nacional, 1948.
- Circumstances and Institutions: Notes on
Monetary Policy in Brazil in the Last 14 Years (“paper”
apresentado na Conferência Sobre Reformas nas Políticas Fiscais e Financeiras
na América Latina promovido pelo Center for Research on Economic
Development and Policy Reform da Universidade de Stanford, novembro de
2000
- Legislação:
DL 7.293/45, Lei 4.595 (versão atualizada e versão original com histórico
remissivo, ambas em http://www.bcb.gov.br/?LEIS)
(*)
5.
Inflação e “desconstrução monetária”: a correção monetária como “separação” das
funções da moeda. Racionalização jurídica da correção monetária: nominalismo
vs. “valorismo”. Dívida de valor vs. Dívida em dinheiro
- Mario H Simonsen 30 Anos de Indexação Rio de
Janeiro: Fundação Getúlio Vargas Editora, 1995. Cap. 1 (A Lei da Usura e a
proibição da cláusula ouro) (*)
- Julian Chacel, M. H.
Simonsen & Arnoldo Wald A
correção monetária Rio de Janeiro APEC, 1974. Cap. 3 “Tentativas
preliminares de neutralizar a
inflação”
- Fabio Konder Comparato
“Cláusulas contratuais de indexação de preços” Revista de Direito
Mercantil 85. (*)
- José Luiz Bulhões Pedreira “Obrigação pecuniária – correção monetária
– indexação cambial” (parecer) Revista de Direito Administrativo
193, julho/setembro de 1993. (*)
- Nussbaum op.
cit. Section 13. “Inflation”
(*) e Section 20 “Commodity and index clauses”
- Mann op. cit.
Cap VI “Methods of excluding the effects of nominalism”
6.
“Pacotões” e reformas monetárias desde 1986: Cruzado, Bresser, verão, Collor1 e
Collor2. Mudanças de padrão monetário, conversões de contratos, salários,
tributos, demonstrações financeiras e seus fundamentos. Expurgos e direitos
adquiridos: tablitas, conversões pela média, novos índices e as bases jurídicas
dos planos heterodoxos.
- Letácio Jansen “O Direito e a transição para um regime de
estabilização monetária” em Direito Monetário (ensaios e pareceres)
Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris, 1997 ou “O controle judicial da
moeda” em Limites Jurídicos da Moeda Rio de Janeiro: Editora Lumen
Juris, 2000.
- Letácio Jansen Limites Jurídicos da Moeda Rio de Janeiro:
Editora Lumen Juris, 2000. Apêndice A “Doutrina de direito monetário (da
década de 1960 à década de 1990)” e Apêndice B “Ementas selecionadas de
Acórdãos recentes do STF e do STJ sobre direito monetário” (como
referência para pesquisa)
- Arnoldo Wald “Da
Constitucionalidade da Tablita” cap. 4 de O Novo Direito Monetário: os
planos econômicos, os contratos o FGTS e a Justiça São Paulo: Malheiros Editores,
1996. (*)
- Cid Heráclito “O Plano
Collor, a Constituição e a Lei” em Clovis de Faro (ed) O Plano Collor:
avaliações e perspectivas Rio de Janeiro: Livros Técnicos e
Científicos Editora, 1990. (*)
- Ives Gandra da Silva
Martins “Aspectos jurídicos do Plano Brasil Novo” em Clovis de Faro (ed) O
Plano Collor: avaliações e perspectivas Rio de Janeiro: Livros
Técnicos e Científicos Editora, 1990. (*)
- Mann op. cit.
Cap XI “The determination of the money of account: subsequent
uncertainty” e Cap XII “The nominalistc principle, its scope, incidents
and effects”
- Compilação de leis principais dos
diferentes planos heterodoxos: DL 2.284-86 (Cruzado) , DL 2.335-87
(Bresser), Lei 7.730-89 (Verão), Lei 8.024-90 e 9.030-90 (Collor 1) e Leis
8.177-91 e 8.178-91 (Collor 2)
7. Plano Real, construção
da URV, a reconstrução do nominalismo (mitigado) e a “desindexação”. A polêmica
em torno do Artigo 38.