30.06.06
Eco 1666, 2006.1
Seminário em Política Econômica
O sistema monetário
brasileiro: aspectos institucionais e jurídicos
Prof. Gustavo H. B. Franco
Natureza e temas. As políticas macroeconômicas não
são feitas no vácuo, mas dentro de referências institucionais e legais muito
definidas, que limitam e condicionam a atuação dos economistas, especialmente
quando trabalhando no serviço público formulando políticas econômicas. Embora a
profissão dedique alguma atenção à importância das instituições e às leis
genericamente, pouco ou nada de verdadeiramente prático é ensinado sobre estes
assuntos. O caso mais comum é o de economistas destituídos de capacidade para
dialogar com os profissionais da área jurídica, como bem demonstra a triste
experiência dos “pacotes econômicos” começando pelo Plano Cruzado. Fazer
política econômica dentro de um “Estado de Direito” pressupõe que o
profissional de economia possa dialogar com as leis e instituições que
corporificam a Democracia, sendo esta a lacuna que este curso pretende
contribuir muito modestamente para preencher. O curso adota, com grande ênfase,
uma perspectiva histórica para entender a formação das instituições e o desenho
de várias leis fundamentais para o universo de preocupações macroeconômicas.
Aulas e notas. O curso consiste em aulas
expositivas, e a nota final resultará de duas provas, ambas com notas
relativas, uma no meio do curso, e peso um, e outra com peso dois, a ser
entregue até o fim do período para provas finais. Ambas
as provas são “take home” com prazo para entrega na faixa de uma semana. As
provas de edições anteriores deste curso podem ser lidas em http://www.econ.puc-rio.br/gfranco.
Pré-requisitos. Além dos requisitos formais (100
créditos e CR mínimo), idealmente, os alunos de economia devem ter cursado
Macro A e B e Economia Brasileira 1 e 2, mas não é imprescindível. Também é
importante, mas não essencial que os alunos sejam capazes de ler em inglês com
desenvoltura. Estudantes do curso de Direito poderão
inscrever-se, formal ou informalmente; não há restrições a alunos ouvintes.
Leituras. Diferentemente dos cursos
regularmente oferecidos no Departamento de Economia, neste as leituras
compreendem muitas obras de referência nas quais é menos importante ler que
saber procurar determinado tema. Ao manusear leis, sentenças, pareceres, o
aluno deve desenvolver a habilidade de ler seletivamente. A lista de leitura
foi deliberadamente ampliada para fornecer referências para as provas. A
indicação de “leitura obrigatória” serve para que o aluno chegue ao momento da
prova já familiarizado com estes textos, e possa explorar outros materiais na
prova. Cópias de todas as leituras estarão na pasta do curso na copiadora,
exceto quando tratar-se de material disponível em meio eletrônico, caso em que
o texto estará no site http://www.econ.puc-rio.br/gfranco.
Roteiro
(*) indica leitura obrigatória
1. A construção institucional da moeda fiduciária (1) perspectiva
histórica: experiências com o padrão-ouro, controvérsias sobre o sistema
monetário no Império, genealogia da moeda brasileira, breve histórico dos
bancos de emissão, metamorfoses do Banco do Brasil.
2. A construção institucional da moeda fiduciária (2) o mundo pós 1930, o
curso forçado, os controles cambiais e o keynesianismo tropicalizado. O novo ordenamento monetário brasileiro fixado em 1933: DL 23.501/33 e DL
857/69. O dinheiro como criatura da lei.
- Will Mason “Winners and losers: some paradoxes in monetary history
resolved and some lessons unlearned” History of Political Economy 9
(4) 1977 ou John Hicks “Monetary theory and history – an attempt at
perspective” em Critical Essays in Monetary Theory Oxford at the Clarendon Press, 1967.
- F. A. Mann The Legal Aspect of Money with special reference to
Comparative Private and Public International Law Oxford: Clarendon Press, 5th.
Edition, 1992. Cap 1 “The concept of money” e Cap 2 “The monetary system,
its organization and incidents”. (*)
- Antonio
Mendes & E. B. Nascimento “Estudo de direito monetário: a moeda e suas
funções; obrigações monetárias; estipulação e indexação de obrigações
monetárias” Revista de Direito Mercantil Nova Série, XXX (84)
Dezembro. (*)
- Arthur Nussbaum Money in the Law, national and international – a
study in the borderline of law and economics. New York: The Foundation Press, 1950. Section 1
“The concept of money” (*), Section 4 “Legal Tender”, Section 6 “Paper
money”.
- Legislação:
DL 23.501/33, DL 857/69 e compilação sobre normas
sobre “moeda de conta” (*)
3. O ordenamento cambial e moeda “inconversível” durante a Depressão e
no sistema de Bretton Woods: centralização e controles nos anos 1930-62. Lei
4.131 e modificações, o “registro” de capital estrangeiro, e a evolução do
regime de controles cambiais. A liberalização nos anos 1990, o flutuante e as
CC5, controvérsias recentes, a adoção do Artigo VIII, a polêmica sobre conversibilidade,
o conflito de esferas regulatórias e a busca de identidade da nova
regulamentação cambial
- Herculano
Borges da Fonseca Regime Jurídico do
Capital Estrangeiro (comentários à Lei 4.131, de 3 de setembro de 1962, e
regulamentos em vigor), Editora Letras e Artes, Rio de Janeiro, 1963.
(*)
- Jayme
Leonel Controle de câmbios: regime jurídico penal, ensaio com
referência à legislação cambial brasileira Rio de Janeiro: Jornal do
Commercio, 1955. Cap. III (*)
- Geraldo
Vouga Cavalcanti “Noções de câmbio” Brasília, mimeo, 1975. Seções 5.5
(resumo de legislações, 1895-1974) e 5.6 (Síntese dos regimes cambiais a
partir de 1929). (*)
- G. H. B.
Franco & D. M. Pinho Neto “A
desregulamentação da conta de capitais: limitações macroeconômicas e
regulatórias”
Preparado para o seminário “Aprimorando o mercado de câmbio
brasileiro”, promovido pela Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM & F),
São Paulo, 4 de dezembro de 2003” (*)
- Pérsio Arida (2004) “Aspectos
macroeconômicos da conversibilidade: uma discussão do caso brasileiro” Preparado
para o seminário “Aprimorando o
mercado de câmbio brasileiro”, promovido pela Bolsa de Mercadorias e
Futuros (BM & F), São Paulo, 4 de dezembro de 2003” ou “Por Uma
Moeda Plenamente Conversível” Revista
de Economia Política 23 (3) julho-setembro, 2003. (*)
- Banco Central do Brasil (1993) “O Regime Cambial Brasileiro:
Evolução e Perspectivas”, Diretoria de Assuntos Internacionais, Brasília,
Banco Central do Brasil. (*).
- Antonio Mendes “Câmbio,
aspectos jurídicos” Preparado para o seminário “Aprimorando o mercado de câmbio
brasileiro”, promovido pela Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM & F),
São Paulo, 4 de dezembro de 2003”
- Legislação: Decreto
23.238/33, Lei 4.131/62, Lei 4.390/65, DL 55.670/65, Apêndice de Jayme Leonel op. cit. , legislação cambial compilada, Banco Central do Brasil. (*).
4. A evolução das instituições monetárias: da SUMOC ao Banco Central.
Impasses e soluções, Lei 4.595/64, o BC e o CMN. Versão original e alterações
posteriores.
- Jairo Saddi O Poder e o Cofre: repensando o Banco Central
São Paulo, Editora Textonovo, 1997. Caps. 7 e 8. (*)
- Geraldo de Camargo Vidigal Disciplina dos órgãos de direção
monetária Tese de Livre Docência, Faculdade de Direito da USP, 1964.
Caps. VIII e IX (seção I).
- Haroldo M. D. Verçosa “Bancos centrais no direito comparado: o
sistema financeiro nacional e o Banco Central do Brasil (o regime vigente
e as propostas de reformulação)” São Paulo: Malheiros Editores, 2005.
Parte segunda, cap. 1, pp. 137-154.
- Circumstances and Institutions: Notes on
Monetary Policy in Brazil in the Last 14 Years (“paper”
apresentado na Conferência Sobre Reformas nas Políticas Fiscais e
Financeiras na América Latina promovido pelo Center for Research on
Economic Development and Policy Reform da Universidade de Stanford,
novembro de 2000.
- DEPEC-BACEN “Autonomia dos bancos centrais: considerações sobre
o caso brasileiro”, Departamento Econômico, Banco Central do Brasil,
Brasília,1997 (mimeo).
- Depoimento
Maílson da Nóbrega sobre a abolição da “conta movimento”(*)
- Gustavo
Loyola “CMN não é Congresso” (O Estado de São Paulo, 29/9/2004) e
outros artigos no “site” sobre o assunto
- Legislação: DL 7.293/45, Lei 4.595 (versão atualizada e versão
original com histórico remissivo, ambas em http://www.bcb.gov.br/?LEIS), e extrato da
Lei 9.069/95 (*)
5. Inflação e “desconstrução monetária”: a correção monetária como
“separação” das funções da moeda. Racionalização jurídica da correção
monetária: nominalismo vs. “valorismo”. Dívida de valor vs. Dívida em dinheiro.
- Mario H Simonsen
30 Anos de Indexação Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas
Editora, 1995. Cap. 1 (A Lei da Usura e a proibição da cláusula ouro) (*)
- Gilberto
de Ulhôa Canto “A correção monetária e o poder liberatório do cruzeiro” em
Gilberto de Ulhôa Canto & Ives Gandra da Silva Martins (coordenadores)
A correção monetária no direito brasileiro Rio de Janeiro, Editora
Saraiva, 1983.
- Julian
Chacel, M. H. Simonsen & Arnoldo Wald A correção monetária Rio
de Janeiro APEC, 1974. Cap. 3 “Tentativas preliminares de neutralizar a
inflação”
- Fabio
Konder Comparato “Cláusulas contratuais de indexação de preços” Revista
de Direito Mercantil 85. (*)
- José Luiz Bulhões Pedreira “Obrigação
pecuniária – correção monetária – indexação cambial” (parecer) Revista
de Direito Administrativo 193, julho/setembro de 1993. (*)
- Nussbaum op. cit. Section 13. “Inflation” (*) e Section 20
“Commodity and index clauses”
- Mann op. cit. Cap VI “Methods of
excluding the effects of nominalism”
6. “Pacotões” e reformas monetárias desde 1986: Cruzado, Bresser, verão,
Collor1 e Collor2. Mudanças de padrão monetário, conversões de contratos,
salários, tributos, demonstrações financeiras e seus fundamentos. Expurgos e
direitos adquiridos: tablitas, conversões pela média, novos índices e as bases
jurídicas dos planos heterodoxos.
- Letácio Jansen “O Direito e a transição
para um regime de estabilização monetária” em Direito Monetário
(ensaios e pareceres) Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris, 1997 ou “O
controle judicial da moeda” em Limites Jurídicos da Moeda Rio de
Janeiro: Editora Lumen Juris, 2000.
- Letácio Jansen Limites Jurídicos da
Moeda Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris, 2000. Apêndice A “Doutrina
de direito monetário (da década de 1960 à década de 1990)” e Apêndice B
“Ementas selecionadas de Acórdãos recentes do STF e do STJ sobre direito
monetário” (como referência para pesquisa)
- Arnoldo
Wald “Da Constitucionalidade da Tablita” cap. 4 de O Novo Direito
Monetário: os planos econômicos, os contratos o FGTS e a Justiça São
Paulo: Malheiros Editores, 1996.
(*)
- Cid
Heráclito “O Plano Collor, a Constituição e a Lei” em Clovis de Faro (ed) O
Plano Collor: avaliações e perspectivas Rio de Janeiro: Livros
Técnicos e Científicos Editora, 1990. (*)
- Ives
Gandra da Silva Martins “Aspectos jurídicos do Plano Brasil Novo” em
Clovis de Faro (ed) O Plano Collor: avaliações e perspectivas Rio
de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos Editora, 1990. (*)
- Mann op. cit. Cap XI “The
determination of the money of account: subsequent uncertainty” e Cap XII
“The nominalistic principle, its scope, incidents and effects”
- Compilação
de leis principais dos diferentes planos heterodoxos: DL 2.284-86
(Cruzado) , DL 2.335-87 (Bresser), Lei 7.730-89 (Verão), Lei 8.024-90 e
9.030-90 (Collor 1) e Leis 8.177-91 e 8.178-91 (Collor 2) (*)
7. Plano Real, construção da URV como reintegração das funções da moeda,
a reconstrução do nominalismo (mitigado) e a “desindexação”. A polêmica em
torno do Artigo 38.
7. Roteiro de aulas & temas:
1 - 10.03 – Introdução, programa etc.
2. 17.03 – Padrão ouro, moeda metálica.
3. 31.03 – Da moeda metálica para a fiduciária, o sistema de 1933
4. 07.10 – Nominalismo: de Dec 23.501/33 ao DL 857/65 e Lei 10.192/01
5. 28.04 – Controles cambiais (1): Dec. 23.238/33, Lei 4.131/62
6. 05.05 – Regulamentação cambial (2): a liberalização e temas
contemporâneos
7. 12.05 – Da SUMOC ao BC – Lei 7.423/44 e Lei 4.595/65
8. 26.05 – Correção monetária.
9. 02.06 – Planos econômicos (1)
10. 09.06 – Plano econômicos (2)
11. 23.06 – Plano Real – URV (1)
12. 30.06 – Plano Real URV (2)