Folha de São Paulo
25/11/96
(EDITORIAL)
Se as palavras fossem submetidas às mesmas leis da economia, sobretudo quando
se trata do discurso dos economistas, seu valor estaria hoje profundamente em
questão. O debate econômico brasileiro está sendo vítima de uma autêntica
corrida especulativa, no mau sentido.
No centro da polêmica está a política cambial do real. E esta Folha tem se
revelado um dos palcos do conflito, sobretudo no caderno Mais!, que no último
domingo publicou uma resposta do diretor de Assuntos Internacionais do Banco
Central, Gustavo Franco, a seus críticos.
O mais frustrante, sobretudo para o público laico, não especializado nas
guerras doutrinárias e escolásticas da ciência econômica, é o predomínio
evidente do adjetivo e do subjetivo, de parte a parte. Os economistas estão se
batendo, mas o atrito produz mais calor do que luz.
Não consta que Delfim Netto, Affonso Celso Pastore, Rudiger Dornbusch ou Robert
Barro sejam militantes de uma célula criptocomunista conspirando contra o
governo Fernando Henrique Cardoso.
Entretanto, Gustavo Franco abriu fogo contra professores alinhados ao marxismo
como se, substantivamente, inexistisse um autêntico debate conceitual sobre os
riscos da atual política cambial. Ao ridicularizar o discurso marxista, o
diretor do BC é brilhante e hilário, mas os temas cruciais continuam em aberto.
E se há um ponto em que, apesar das divergências ideológicas, partidárias e
retóricas, concordam um Delfim Netto e uma Conceição Tavares é na crítica aos
riscos de desindustrialização ou crise cambial de uma política que valorizou o
real.
Mas seria ingênuo crer que Delfim, Conceição ou Batista Jr. falem de um ponto
de vista desinteressado e apartidário. Vários são aliados ou foram eleitos por
partidos na oposição ou em posição subordinada no governo de FHC. Tentar
separar a economia da política seria mais ingênuo ainda. Mas o mínimo que se
pode desejar é mais debate e menos combate.