O economista e o poeta

Robinson Borges

12/01/2007

 

Davilym Dourado/Valor

 

Gustavo Franco: "O economista que conhece literatura sabe mais da vida, inclusive econômica, na sua (falta de) lógica, do que outro que só sabe matemática"

Depois de organizar em livro um discurso histórico de Rui Barbosa (1849-1923) realizado no Senado, em 1891, e editado no ano passado ( "O Papel e a Baixa do Câmbio"), o ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco, escolheu Fernando Pessoa como foco de seu mais novo trabalho, intitulado "A Economia em Pessoa". Leia trechos da entrevista que Franco concedeu ao Valor.

 

Valor: A edição do livro "A Economia em Pessoa" e os verbetes empregados para designar cada um dos textos de Fernando Pessoa são absolutamente atuais e, como o senhor mesmo diz em seu artigo de apresentação, têm um viés liberal - ou neoliberal. Até que ponto é possível atribuir a Fernando Pessoa as teses discutidas em seus textos, uma vez que o "fingidor" e seus inúmeros heterônimos poderiam trazer certo artificialismo ao seu conteúdo?

 

Gustavo Franco: Para começar, não vamos subverter o verso: o poeta, dito "fingidor", "finge a dor que deveras sente". O fato de o poeta "ser plural", ou "não caber num só", jamais poderia ser tomado como indicação de que qualquer dessas suas "pessoas" fosse menos "pessoa", ou fosse um simulacro, ainda mais aquele que assina ortônimo, ou seja, com o próprio nome, sem disfarce algum. Pessoa escreveu muito sobre política, e sobre os eventos de seu tempo, e nesses temas quase sempre assinando seu nome, sem nenhum fingimento, embora com muito sarcasmo. Não há nada artificial ou simulado no que ele escreve sobre economia.

 

Valor: Qual foi o impacto do conteúdo liberal dos escritos de Fernando Pessoa, na época da publicação, para seus pares intelectuais? Até que ponto, em 1926, um período entre-guerras, a idéia de redução da intervenção do Estado na economia, a desregulamentação, as tais algemas do comércio citadas por ele e outras questões da mesma esfera estavam em consonância com os ideais de seus colegas literatos?

 

Franco: Suas idéias econômicas estavam bem à frente de seu tempo, não há dúvida, e também era perceptível o seu desconforto com o Portugal de seu tempo, mesmo antes de [António de Oliveira] Salazar, e um certo mal-estar mais geral com os eventos internacionais tal como se via num Stefan Zweig: a Europa estava ruindo, andando na direção oposta do que lhe parecia ser a racionalidade econômica, preparando-se para a guerra. Era o começo de um período de sombra sobre o mundo. É interessante que suas idéias sejam redescobertas nos anos recentes, tanto em Portugal no caminho da moeda única, e mergulhando de cabeça na globalização, nos clusters, na desregulamentação, privatização e tudo mais, quanto no Brasil, que passa pelas mesmas transformações, embora cheio de dores, preconceitos e hesitações...

 

Valor: O senhor conseguiu identificar quais são os autores referenciais de Fernando Pessoa na área econômica? E até que ponto seus pensamentos podem ser considerados "originais", isto é, formulados pelo próprio poeta?

 

Franco: O texto pessoano não tem referências bibliográficas e o que seus biógrafos dizem é que não havia muita coisa de economia em sua biblioteca, embora haja registro da presença de Adam Smith ("A Riqueza das Nações"), se não me engano, com anotações. Como formação básica em economia, na minha modesta opinião de professor, seria mais do que bom. Agregue-se a isso a sua experiência prática, temos aí um "economista" tão bem formado quanto muitos "profissionais" desta época.

 

Valor: De qual heterônimo de Fernando Pessoa o "economista" está mais próximo? Alberto Caieiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos...

 

Franco: Nenhum dos três, eu creio, embora o Álvaro de Campos mais velho, associado à tabacaria, pudesse ser visto como o mais intelectualizado, politizado e participativo dos três. Os que escrevem prosa, Bernardo Soares e Barão de Teive, me parecem construções feitas quase que como "contraposições" ao verdadeiro Pessoa. O "Livro do Dessassosego" consiste, nas palavras dele, na autobiografia de quem não teve vida, um sujeito atormentado pelo tédio e por uma existência vazia. Nada que ver com o verdadeiro Pessoa. Não há dúvida de que, de toda a constelação pessoana, o que mais se parece com o Pessoa que escreve na "Revista de Comércio e Contabilidade" é o próprio Fernando Pessoa, ortônimo. Parece óbvio, mas nada existe de óbvio quando se trata de Pessoa e suas entidades.

 

Valor: No livro, o senhor diz que, ao contrário da idéia cristalizada de que o trabalho fora da literatura é um castigo para o escritor, a carreira comercial, para Fernando Pessoa, era uma fonte de prazer. Mas muito de seus escritos abordam o tédio de sua vida nos gabinetes de Portugal...

 

Franco: Suas biografias mais recentes, de Ángel Crespo, Robert Bréchon e Mega Ferreira, atestam amplamente o fato de que seu interesse e sabedoria econômica nada tinham de acidentais, mas eram relacionadas com a rica vivência que o poeta teve nos negócios, nas "tradings" em que trabalhou e nos debates econômicos da época. Pessoa conhecia bem a inumanidade dos escritórios, mas estava longe de ser um Kafka esmagado por uma burocracia insana. Pessoa trabalhou essa possibilidade com Bernardo Soares e, ainda mais interessante, influenciou a sua biografia "oficial", escrita pelo amigo João Gaspar, de modo a que ela o retratasse como uma espécie de Bernardo Soares, o que demorou anos para ser desmontado por biógrafos revisionistas e objetivos.

 

Valor: A leitura do seu trabalho acerca de Pessoa suscita o tempo todo o intercâmbio dos campos de atuação dos dois: o economista que escreve sobre literatura e o literato que escreve sobre economia. Até que ponto o senhor foi contaminado pela literatura de Pessoa ao escrever?

 

Franco: Ninguém pode deixar de se contaminar com uma pessoa como Pessoa, Fernando Pessoas, como sugeriu Ferreira Gullar, desculpando-se pelo trocadilho. Dizem que a economia tem muito de retórica, com o intuito do divertimento e da persuasão. É esse o tipo de debate econômico que se trava nos jornais, com artigos pequenos, bem urdidos, cheios de imagens e destinados a formar opinião. Pessoa era um mestre nessa arte, era, como ele dizia, um "recortador de paradoxos", um "raciocinador minucioso e analítico", a serviço da racionalidade na política e na economia, coisa que não sei bem se havia em Portugal daquele tempo. E que dizer do Brasil de hoje? O fato é que o economista que conhece literatura sabe mais da vida, inclusive econômica, na sua (falta de) lógica, do que outro que só sabe matemática ou não foi capaz de ler outro autor que não fosse Marx. A literatura nos faz melhores seres humanos, o que vale também para os economistas.