O economista e o poeta
Robinson Borges
12/01/2007

Davilym Dourado/Valor
Depois de
organizar em livro um discurso histórico de Rui Barbosa (1849-1923) realizado
no Senado, em 1891, e editado no ano passado ( "O
Papel e a Baixa do Câmbio"), o ex-presidente do Banco Central,
Valor: A edição do livro "A Economia em
Pessoa" e os verbetes empregados para designar cada um dos textos de
Fernando Pessoa são absolutamente atuais e, como o senhor mesmo diz em seu
artigo de apresentação, têm um viés liberal - ou neoliberal. Até que ponto é
possível atribuir a Fernando Pessoa as teses discutidas em seus textos, uma vez
que o "fingidor" e seus inúmeros heterônimos poderiam trazer certo
artificialismo ao seu conteúdo?
Valor: Qual foi o impacto do conteúdo liberal
dos escritos de Fernando Pessoa, na época da publicação, para seus pares
intelectuais? Até que ponto, em 1926, um período entre-guerras,
a idéia de redução da intervenção do Estado na economia, a
desregulamentação, as tais algemas do comércio citadas por ele e outras
questões da mesma esfera estavam em consonância com os ideais de seus colegas
literatos?
Franco:
Suas idéias econômicas estavam bem à frente de seu tempo, não há dúvida, e
também era perceptível o seu desconforto com o Portugal de seu tempo, mesmo
antes de [António de Oliveira] Salazar, e um certo
mal-estar mais geral com os eventos internacionais tal como se via num Stefan Zweig: a Europa estava
ruindo, andando na direção oposta do que lhe parecia ser a racionalidade
econômica, preparando-se para a guerra. Era o começo de um período de sombra
sobre o mundo. É interessante que suas idéias sejam redescobertas nos anos
recentes, tanto em Portugal no caminho da moeda única, e mergulhando de cabeça
na globalização, nos clusters, na desregulamentação, privatização e tudo mais,
quanto no Brasil, que passa pelas mesmas transformações, embora cheio de dores,
preconceitos e hesitações...
Valor: O senhor conseguiu identificar quais são
os autores referenciais de Fernando Pessoa na área econômica? E até que ponto
seus pensamentos podem ser considerados "originais", isto é,
formulados pelo próprio poeta?
Franco: O
texto pessoano não tem referências bibliográficas e o
que seus biógrafos dizem é que não havia muita coisa de economia em sua
biblioteca, embora haja registro da presença de Adam Smith ("A Riqueza das
Nações"), se não me engano, com anotações. Como formação básica em
economia, na minha modesta opinião de professor, seria mais do que bom.
Agregue-se a isso a sua experiência prática, temos aí um "economista"
tão bem formado quanto muitos "profissionais"
desta época.
Valor: De qual heterônimo de Fernando Pessoa o
"economista" está mais próximo? Alberto Caieiro,
Ricardo Reis, Álvaro de Campos...
Franco:
Nenhum dos três, eu creio, embora o Álvaro de Campos mais velho, associado à
tabacaria, pudesse ser visto como o mais intelectualizado, politizado e
participativo dos três. Os que escrevem prosa, Bernardo Soares e Barão de Teive, me parecem construções feitas quase que como
"contraposições" ao verdadeiro Pessoa. O
"Livro do Dessassosego" consiste, nas
palavras dele, na autobiografia de quem não teve vida, um sujeito atormentado
pelo tédio e por uma existência vazia. Nada que ver com o
verdadeiro Pessoa. Não há dúvida de que, de toda a constelação pessoana, o que mais se parece com o
Pessoa que escreve na "Revista de Comércio e Contabilidade" é
o próprio Fernando Pessoa, ortônimo. Parece óbvio,
mas nada existe de óbvio quando se trata de Pessoa e suas entidades.
Valor: No livro, o senhor diz que, ao contrário
da idéia cristalizada de que o trabalho fora da literatura é um castigo para o
escritor, a carreira comercial, para Fernando Pessoa, era uma fonte de prazer.
Mas muito de seus escritos abordam o tédio de sua vida nos gabinetes de
Portugal...
Franco:
Suas biografias mais recentes, de Ángel Crespo,
Robert Bréchon e Mega
Ferreira, atestam amplamente o fato de que seu interesse e sabedoria econômica
nada tinham de acidentais, mas eram relacionadas com a rica vivência que o
poeta teve nos negócios, nas "tradings" em
que trabalhou e nos debates econômicos da época. Pessoa conhecia bem a
inumanidade dos escritórios, mas estava longe de ser um Kafka esmagado por uma
burocracia insana. Pessoa trabalhou essa possibilidade com Bernardo Soares e,
ainda mais interessante, influenciou a sua biografia "oficial",
escrita pelo amigo João Gaspar, de modo a que ela o retratasse como uma espécie
de Bernardo Soares, o que demorou anos para ser desmontado por biógrafos revisionistas e objetivos.
Valor: A leitura do seu trabalho acerca de
Pessoa suscita o tempo todo o intercâmbio dos campos de atuação dos dois: o
economista que escreve sobre literatura e o literato que escreve sobre
economia. Até que ponto o senhor foi contaminado pela literatura de Pessoa ao
escrever?
Franco:
Ninguém pode deixar de se contaminar com uma pessoa como Pessoa, Fernando
Pessoas, como sugeriu Ferreira Gullar, desculpando-se pelo trocadilho. Dizem
que a economia tem muito de retórica, com o intuito do divertimento e da
persuasão. É esse o tipo de debate econômico que se trava nos jornais, com
artigos pequenos, bem urdidos, cheios de imagens e destinados a formar opinião.
Pessoa era um mestre nessa arte, era, como ele dizia,
um "recortador de paradoxos", um "raciocinador minucioso e analítico", a serviço da
racionalidade na política e na economia, coisa que não sei bem se havia em
Portugal daquele tempo. E que dizer do Brasil de hoje? O fato é que o economista que conhece literatura sabe mais da vida,
inclusive econômica, na sua (falta de) lógica, do que outro que só sabe
matemática ou não foi capaz de ler outro autor que não fosse Marx. A
literatura nos faz melhores seres humanos, o que vale também para os
economistas.