Edição 452 – 15/01/2007
O charlatanismo nas
aulas de economia
Gustavo
H. B. Franco
Escrevo para acudir, a pedido, um jovem
leitor, aluno de uma escola de economia dita “alternativa” ou “heterodoxa”,
que me escreve relatando que está cursando a disciplina de nome “Finanças
Públicas”, e que, segundo ele mesmo, usando expressão de rara felicidade, “é
nesta cadeira onde ocorrem as maiores atrocidades”. Com efeito, são muitos os alunos (as) que
escrevem relatando “atrocidades” cometidas por professores de escolas
“alternativas”. É preciso fazer alguma coisa para socorrer essas vítimas
inocentes da incapacidade do sistema universitário brasileiro de filtrar seus
professores conforme critérios objetivos de qualidade. O caso é tela, conforme o relato da vítima, consiste no seguinte: o(a) professor(a) (vamos deixar
tão impessoal quanto possível a fim de evitar represálias, sempre violentas
quando as identidades são reveladas) ensina a seus alunos que a hiperinflação
brasileira “era apenas inercial”, e que nada tinha que ver com a crise nas
finanças públicas, que até a falecida velhinha de Taubaté sabia existir. Em
apoio a esta tese amalucada, raciocinando por absurdo, o(a)
professor(a) formula a seguinte hipótese: se o combate ao déficit público
fracassou, como demonstrado pelo “Pacote 51” (que é de 1997!) e que só as
medidas ditas de “desindexação”, como a URV, efetivamente funcionaram, então,
diz o(a) professor(a), o Plano Real não poderia ter dado certo, a menos que a
hiperinflação fosse “puramente inercial”. Esta pérola de charlatanismo econômico apenas
exemplifica um fenômeno sobre o qual é preciso refletir, a saber, o fato da
plana e rasa incompetência profissional ocultar-se sob um manto ideológico,
querendo com isso ganhar a legitimidade que sempre deve (?) ser dada “à visão
alternativa”. Isto até pode fazer sentido na imprensa, onde “ouvir o outro
lado” é uma norma constitucional que garante a sobrevivência de várias
espécies em extinção. Graças a esta abertura, muitos “acadêmicos” de
reputação para lá de sofrível estão toda hora opinando sobre tudo o que se
passa, por que sempre é necessário “ouvir o outro lado”. Existem muitos “profissionais” em ser “o
outro lado”, o do contra, como existem “os suspeitos de sempre”. O problema é sério, e não se restringe à
economia; há um belíssimo livro de Carl Sagan (“O Mundo assombrado pelos
demônios: a ciência vista como uma vela no escuro”) que trata do mesmo tema
num contexto mais geral. A patologia que ele busca combater é a idéia que a
Ciência é um sistema de crenças tão bom quanto qualquer outro. De fato, toda
ciência tem a sua “pseudociência” a persegui-la, e geralmente se mostra muito
mais interessante para o público. A ufologia, telepatia, astrologia,
alquimia, numerologia, e possessões são muito mais populares que a monótona
rotina meritocrática e empiricista
da comunidade científica, onde esses fenômenos não entram. Na economia, o charlatanismo é mais flagrante
por que há interesses envolvidos. Seria, de fato, extraordinário que a
inflação brasileira fosse “puramente inercial”, há muita gente que acredita
nisso, tal como os que acreditam que foram abduzidos por discos voadores. Uma
pesquisa de 1992 indica que cerca de 2% da população americana genuinamente
acredita ter sido abduzida por alienígenas, ou seja, cerca de 3,7 milhões de
terráqueos, só nos EUA. É tão absurdo como pensar que uma das maiores
inflações que a humanidade conheceu, e que acumulou 20,7 trilhões por cento
em 15 anos, teria acontecido por nenhuma razão, por que a inflação de hoje é
a de ontem, e se “apagarmos” o “ontem”, ela desaparece, como por mágica. O fato é que a crença na “inflação inercial”
atua como uma poderosa influência no sentido de barrar os esforços para
moralizar as contas públicas brasileiras, onde, com efeito, as maiores
atrocidades acontecem. Há um enorme público para essa ladainha da “inércia”,
ou para o efeito sem causa, pois ela serve para preservar a
irresponsabilidade fiscal, mãe da corrupção e outras criaturas aparentadas, e
os interesses a elas relacionados. .
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