Edição 462 – 26/03/2007
As vantagens do pessimismo(as previsões de Greespan)Gustavo H. B. FrancoAlan Greenspan, o ex- Todo Poderoso Presidente do banco central norte americano, o FED (Federal Reserve Board) recentemente afirmou que é alta a probabilidade de uma recessão no próximo ano. Mas, em contraste com suas manifestações na encarnação anterior, os mercados não tomaram o aviso muito a sério. O mundo sempre esteve sujeito a flutuações econômicas. No século XIX elas pareciam tão recorrentes, e parecidas, que muitos observadores desenvolveram teorias, de variada qualidade, sobre sua forma, seus determinantes e, sobretudo sua inevitabilidade. Muitas dessas “teorias” sobre o “ciclo econômico” pareciam misturas de trigonometria e senso comum, segundo as quais, na essência, tudo que sobe, tem que descer, e o que caiu, está barato, tem que subir. Quase todas essas teorias foram
abandonadas depois de É claro que as flutuações econômicas não desapareceram, mas o formato parece bem outro. Modernamente, o assunto passou a ser muito mais meteorológico que matemático. Na essência, hoje se aceita que a economia é um sistema complexo, que evolui de forma irregular em resposta a choques, pequenos, médios e grandes, em todas as direções, ocorrendo todo o tempo, inclusive, produzidos pelo governo, geralmente com o intuito de estabilizar a economia. O resultado é que este tipo de sistema – a palavra “complexo” se aplica a diversos outros tipos de situações, como o clima, por exemplo - é, por natureza, “imprevisível”. Muita gente acha que a economia não tem propriamente “leis” por que os economistas não conseguem acertar suas previsões. Bobagem. Isso é o mesmo que dizer que as leis da física são furadas por que os cientistas não conseguem prognosticar a chuva, e menos ainda os furacões. Einstein não seria capaz de fazer previsões climáticas, não obstante, uma de suas observações mais famosas sobre a suposta “imprevisibilidade” de certos fenômenos físicos era justamente a de que “Deus não joga dados”. É claro que as leis econômicas funcionam, tal como as da física, para o desespero dos curandeiros e “explicadores” que existem por aí, e cujo ganha-pão depende de as pessoas acreditarem no acaso ou na sorte em assuntos de economia. O acaso é o que iguala o economista ao astrólogo. Pois bem, esta vã filosofia sempre se repete em momentos como este, onde o ciclo econômico é flagrantemente desafiado, a prosperidade, sobretudo nos EUA, está durando muito tempo, já era para ter havido uma recessão ou crise, pouco importa a sua natureza. Começa a haver certa hipersensibilidade ao noticiário, aos indicadores que saem quase todos os dias, e a qualquer pequena indicação de mudança na direção do vento. Começa, também, a haver oportunismo, vale dizer, começamos oráculos a projetar recessões por razões meio vagas. Se acontecer, será um bilhete premiado, se não acontecer, algum fato novo sempre poderá ser invocado para explicar o adiamento do inevitável. Ora, se os economistas já erram inevitavelmente por que o assunto é “complexo”, como no caso do clima, quando fazem previsões sinceras, imaginem quando suas manifestações adotam “viés pessimista” decorrente de “hedge intelectual”. Daí deriva o fenômeno segundo o qual os economistas previram 10 das últimas 5 recessões dos últimos 20 anos. O pessimismo é muito popular entre analistas, inúmeras carreiras foram brilhantemente construídas em cima de previsões de catástrofe sempre condicionais, sempre oferecendo uma porta de saída ao profeta.
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