O que explica nossas marcas históricas?
Gustavo H. B. Franco
O Ibovespa
já circunda os 50 mil pontos, há quem fale nos 60
mil, marcas extraordinárias, que não se cogitava alcançáveis sem vigorosas
reformas e grandes consertos nas empresas como também nas estradas, na nossa
combalida infra-estrutura, especialmente energética, e mormente no chamado
ambiente de negócios: temos uma rica legislação trabalhista, mas não
propriamente uma “capitalista”, até pelo contrário, alguns dirão, a propósito
da legislação tributária ...
O fato é que estamos chegando
lá bafejados por fortíssimos ventos benignos vindos do exterior, fazendo crer
que está muito fácil para qualquer país “chegar lá”, mesmo aqueles meio
preguiçosos em todas essas provas de esforço necessárias para a prosperidade
econômica no mundo globalizado. O leitor deve entender que o “chegar lá” tem
um significado muito objetivo. Uma de suas manifestações é a elevação do
preço dos títulos representativos da dívida externa brasileira, fenômeno que
costuma ser lido “de cabeça para baixo”, ou seja, diz-se que caiu a taxa de
retorno interna desses papéis, conhecida pela designação “Risco Brasil”. Esta
é um das principais métricas do “crédito da nação”, para usar um termo
pomposo.
Com efeito, o “Risco Brasil”
alcançou a marca histórica de 150 pontos, ou 1,5%, com isso indicando que o
Brasil pode tomar recursos no mercado internacional a um prêmio de risco
apenas 1,5% superior ao do Tesouro Americano. Esse número já foi 20%, ou 2
mil pontos, em setembro de 2002. Bom para a nossa auto-estima, mas se
notarmos que algo semelhante se passa com países como o Peru (120 pts)
e Colombia (150 pts), para não
falar dos números para a Argentina (240 pts) e
Venezuela (220 pts), a sensação só pode ser a de
que os mercados reduziram sua propensão ao risco indistintamente. E talvez só recuperem a capacidade de enxergar a
diferença quando alguém sacudir a árvore e ver alguns frutos tombarem.
O leitor deve ter claro que o
“Risco Brasil” é um número dado pelo
mercado; existem medidas, digamos, mais “fundamentalistas” para o risco
soberano, como as proporcionadas pelas agências internacionais de
classificação de risco. Estas agências especializadas (Moodys,
Standard & Poors) são pouquíssimo conhecidas do
grande público, mas ocupam papel crucial no mercado de capitais globalizado,
vez que funcionam como “gate keepers”
(guardiãs dos portões). Elas possuem escalas, como as notas das escolas
americanas, em letrinhas, mas que funcionam como uma nota de zero a 10. Essas
escalas não medem pujança econômica, competitividade, liberdade, potencial de
crescimento, nada disso: seu foco é a capacidade, e também a disposição, de
um país de pagar suas dívidas, ou seja, medem solvência.
O Brasil tem uma nota ruim
nesse quesito, um quatro. O histórico do governo em matéria de cumprir suas
obrigações, não apenas dívida mobiliária, mas precatórios, dotações
orçamentárias, empréstimos compulsórios, não é propriamente a esquadra
inglesa.
Diz-se que os países com notas
maiores que cinco atingem o chamado “grau de investimento” (GI). Não se trata
aqui apenas de concurso de beleza, a conseqüência material relevante de um
país atingir esta status é que a grande maioria dos
maiores investidores do mundo – os fundos de pensão americanos, por exemplo –
não podem, pelos seus estatutos, comprar papeis de países ou empresas que não
têm o GI. São muitos bilhões de dólares de diferença, é como passar para a
primeira divisão, tendo disputado a terceirona durante
toda a sua existência.
As agências têm sido mais cautelosas que os mercados,
aliás, como é seu costume. Seus funcionários emitem avisos discretos sobre a
importância de reformas e coisas desse tipo para alterar qualitativamente as
perspectivas econômicas, das quais decorrem as condições de solvência.
Todavia, com a enxurrada de dólares, as reservas crescendo como estão, e as
finanças públicas se agüentando, será difícil que as agências resistam aos
mercados, que já antecipam, em parte, os efeitos do GI. Não chega a ser um
almoço grátis, mas está muito baratinho..
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GUSTAVO H. B. FRANCO é economista e professor da PUC-Rio. Foi Presidente do Banco Central do Brasil.
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