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| GUSTAVO H.B. FRANCO é economista e professor da PUC-Rio e escreve quinzenalmente em ÉPOCA. Foi presidente do Banco Central do Brasil. http://www.gfranco.com.br/ gfranco@edglobo.com.br |
O problema do câmbio continua a produzir manifestações impensadas, ou
excessivamente pensadas, não sei o que é pior. Vale, nesses casos onde o
silêncio se disfarça de inteligência, o conselho de um velho amigo de Brasília:
atenção vigilante e discreta omissão.
Dentre os destaques da semana, na categoria “desabafos minuciosamente
calculados”, acha-se o governador José Serra, que chama o governo de “trouxa”
por praticar um “desvario cambial” mal explicado pelo “tro-lo-ló dos economistas”.
O eleitor paulistano passeando pela vizinhança pensaria que o governador é
advogado ou artista gráfico. O mais antenado identificaria no governador um
desses “desenvolvimentistas”, que ajudaram o Plano Real quase tanto quanto os
economistas do PT, reconhecidos pela prosa parnasiana. O fato é que o
governador não se manifestou quando o Presidente do BNDES e professor da
Unicamp, Luciano Coutinho, declarou recentemente que o Plano Real foi feito
pelo PT em 2005.
A declaração foi feita no Clube de Engenharia, um ambiente que exerce as
mais curiosas influências sobre os economistas que ali vão falar. Luciano
Coutinho oferece uma espécie de inversão da lenda de Pigmaleão, o escultor e
rei de Chipre, que não queria nada com as moças da ilha até que fez um arranjo
com Afrodite segundo o qual faria uma “obra prima”, pela qual se apaixonaria e
que, através de um beijo seu, se tornaria uma mulher de carne e osso, e sua.
Coutinho, como os outros petistas, e ao contrário do herói da lenda, odiava a
moça, a nova moeda, e agora a quer para si. Um caso de apropriação intelectual
indébita, nada muito sério, por isso talvez, apenas alguns parlamentares do
PSDB e do DEM foram à tribuna desancar o nosso Pigmalião redivivo.
Existem economistas para todos os gostos, e para demonstrar a extensão
das sutilezas que nos separam, queria contestar meu colega professor da PUC do
Rio de Janeiro, Márcio Garcia, no momentoso tópico do controle de capitais.
Digo momentoso por que é uma maldade amplamente sussurrada pelos corredores da
Brasília, melhor dizendo, pelos aeroportos, e não apenas os da capital, pois é
nesses que as pessoas têm passado muito de seu tempo jogando conversa fora.
Como a qualidade das conversas sobre o problema cambial diminui com o aumento
do número de horas desperdiçadas esperando aviões, as pessoas estão ficando
preocupadas com a reintrodução de IOFs sobre as operações de câmbio associadas
a entradas de capitais de curto prazo.
Eu e Marcio somos contrários ao IOF. Ele diz, num artigo para o Valor
(06.07.07), que o assunto é de “economia positiva”, frase de muito efeito, nem
sei bem como interpretar, talvez o sentido seja o de que os IOFs são ineficazes
sempre e em quaisquer circunstâncias.
Não é o que a literatura acadêmica diz; parece-me que é o que gostaria de dizer.
Não é o que as pesquisas dele e de seus alunos mostram sobre a experiência
brasileira da 1993-99. Eu e Marcio tivemos uma diatribe acadêmica em um
seminário internacional, o leitor interessado poderá ler a pesquisa dele e a
minha no site do Departamento de Economia da PUC (www.econ.puc-rio.br, na aba
“publicações”, para 2006, textos para discussão 516, o dele, e 517, o meu). Ele
relaciona mais de uma dúzia de maneiras de enganar o BC travestindo capitais de
motel em outra coisa, eu acho tolos todos os disfarces apresentados. Podemos
concordar que o mercado é esperto em contornar obstáculos, o que, todavia,
sempre tem custo, e os números (o IOF coletado, o prazo médio das operações) mostram
que a coisa funcionou.
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