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| GUSTAVO H.B. FRANCO é economista e professor da PUC-Rio e escreve quinzenalmente em ÉPOCA. Foi presidente do Banco Central do Brasil. http://www.gfranco.com.br/ gfranco@edglobo.com.br |
Ainda bem que os capitais não viajam de avião. Talvez fosse o caso no
passado, quando se acreditava que o capital era uma relação social; hoje, não
passa de um lançamento contábil, uma movimentação no “cyber-espaço”, uma troca
de informações eletrônicas que dispensa acompanhantes e apontadores. As
facilidades de comunicação e, principalmente, a homogeinização de regras,
protocolos e padrões jurídicos e de negócio, de fato permitem que os negócios
trans-fronteira possam ser conduzidos à distância; como se os capitais
caminhassem em linha reta, sobre superfícies planas.
Note-se que isto vale para o que a vulgata marxista chamaria de “capital
financeiro”, mas também para as outras variedades de capital, valendo talvez a
máxima segundo a qual, nesse assunto, os adjetivos passam e o substantivo
permanece. Na verdade, é do investimento direto estrangeiro (IDE) no Brasil que
cabe falar, após o prodigioso número observado no mês de junho de 2007: US$ 10
bilhões em um único mês.
Já nos ocupamos, neste espaço, do fenômeno conhecido como
“descolamento”, segundo o qual, obedecidos os cânones internacionais, certas
particularidades nacionais, uma delas a política, passa a ter muito pouca
importância na participação das nações no mundo globalizado. Parece que os
aeroportos também perderam importância, quem sabe até pelo contrário: quando é
verão, tudo o que não funciona vira uma oportunidade de investimento. É tanto
bom humor que investidor internacional, depois de ouvir a fala zangada da
Ministra Dilma, liga entusiasmado para os parceiros brasileiros perguntando
sobre a privatização dos aeroportos. Nada como o verão.
A mais recente sessão de divulgação periódica das estatísticas sobre o
“setor externo”, a cargo do Banco Central (BC), trouxe diversas novidades
interessantes sobre o que Machado de Assis, chamou de “o meneio dos capitais”.
Embora principal manchete tenha sido, como já mencionado, os US$ 10 bilhões
observados em junho, é de se notar que no acumulado de 12 meses, estamos em US$
21 contra US$ 19 bilhões, um aumento de uns 15%, nada mau, embora não seja
propriamente um recorde panamericano. Essas estatísticas, às vezes, ficam muito
sensíveis a transações pontuais, como, aliás, foi o caso: uma única operação de
compra de ações de minoritários por uma grande empresa estrangeira de
metalurgia responde por metade do, ainda assim portentoso, número para junho.
Tão importante ou mais, talvez tenha sido o que se passou com o
investimento direto brasileiro no exterior: foi de US$ 28 bilhões ano passado,
em razão de uma aquisição feita pela Vale do Rio Doce, e este ano está em menos US$ 3 bilhões. O investimento
estrangeiro em bolsa, surpreendentemente, não é um destaque tão espetacular –
US$ 7,5 bilhões contra US$ 4,1 para janeiro a junho de 2007 contra 2006 –
quanto as entradas de investimentos em títulos públicos de renda fixa: foram de
menos US$ 6,0 bilhões em
janeiro-junho de 2006, US$ 7,3 bilhão
positivos para julho-dezembro de 2006, e US$ 16,5 bilhões para janeiro-junho de
2007.
Não há dúvida que, com a aproximação do “grau de investimento”, os
títulos públicos de renda fixa estão fazendo um enorme sucesso com investidores
estrangeiros, muito mais que a bolsa, se olharmos apenas os fluxos cambiais.
Como resultado disso tudo, no conjunto das contas externas do país, o
que se vê é que a conta de capitais finalmente acordou. O saldo do conjunto de
todas as contas envolvendo capitais atingiu US$ 60 bilhões em janeiro-junho de
2007 contra US$ 16 bilhões no ano de 2006.
O leitor deve lembrar que quase toda a tinta despendida no assunto da
abundância de dólares desde 2003 teve a ver com o “mega” superávit comercial.
Os capitais demoraram a se habituar com o PT, e também a perceber o tal
“descolamento” acima mencionado. Daqui em diante, é possível que venham dominar
a cena.
A repetir-se o que se passou no primeiro semestre de 2007, as nossas
reservas tendem a aumentar a um ritmo superior aos US$ 100 bilhões anuais. E
isso sem pensar em “grau de investimento”. Nunca antes, em termos reais, é
claro, a nossa moeda foi tão valorizada, e o leitor ainda não viu nada.
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