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| GUSTAVO H.B. FRANCO é economista e professor da PUC-Rio e escreve quinzenalmente em ÉPOCA. Foi presidente do Banco Central do Brasil. http://www.gfranco.com.br/ gfranco@edglobo.com.br |
A turbulência financeira recente tem como protagonistas os suspeitos de
sempre, os “hedge funds” (HFs). Esses personagens se tornaram conhecidos em
1998 por conta de uma grande crise financeira internacional, erroneamente
lembrada como a Crise da Rússia. Pobre Rússia. A crise de hoje, cuja extensão ninguém sabe qual
será, talvez fique conhecida como a das “hipotecas de qualidade inferior”
(“subprime mortgages”), o que, talvez, também não seja próprio.
A Rússia não evaporou, como ocorreu com o LTCM, talvez o mais encantador
de todos os HFs, e que quase arrastou consigo uma dúzia de bancos
internacionais de grande porte. Algo parecido se passa com as hipotecas
inferiores nos EUA: as pessoas continuam pagando, as taxas são altas, há inadimplência,
mas o problema não é tanto aí, mas com o financiamento para carregar
esses ativos. Tradicionalmente, os financiamentos habitacionais nos EUA usam
securitizações e outras formas de se transferir a titularidade e o risco dos
financiamentos para o mercado de capitais com garantias diversas, inclusive do
governo, o que permite o acesso a dinheiro longo e barato.
O mercado imobiliário americano tem lá os seus ciclos; vinha muito bem
por bastante tempo e começou a enfraquecer. Caíram os preços dos imóveis, as
novas construções, tudo dentro da normalidade do ciclo econômico. Foi quando se
percebeu a presença de HFs nos segmentos de maior risco dentro do mercado
imobiliário, as tais hipotecas inferiores. É quando os problemas ficam sérios.
O
episódio da crise do LTCM em 1998 deixou lições.
Os principais bancos
centrais adotaram uma postura filosófica e regulatória
com relação aos HFs que
pode ser resumida em dois princípios: o primeiro, o de que os
HFs não são
assunto de banco central, inclusive por que se se resolvesse que teria
de ser,
haveria uma migração maciça dessas
instituições para jurisdições “off
shore” e
a regulação resultaria inútil.
Isso é muito diferente no Brasil, tenha-se claro, pois o animal local
mais parecido com HFs americanos, os nossos “fundos multimercados”, são
fortemente regulados. Fecha parênteses.
O segundo princípio, e muito sensato, poderia ser resumido pela seguinte
máxima: “do chão não passa”. Na essência, isso quer dizer que se um bando de
financistas brilhantes resolve juntar muito dinheiro de pessoas ricas e
inteligentes para investir em ativos com muito risco, o banco central e o
cidadão comum não têm nada com isso, pois todos são ricos, espertos e têm o
direito constitucional de perder todo o dinheiro que bem entenderem. Do chão
não passa, não há “terceiros” envolvidos.
A preocupação dos BCs passou a ser, portanto, a de limitar e regular a
relação entre bancos e HFs, pois foi aí que deu problema em
Quando as coisas vão bem, vale a Lei de Tolstoi: as famílias felizes
todas se parecem. Quando vão mal, o problema é violar o princípio referente ao
chão, acima referido. Um fundo com $100 de cotistas, e $400 de dinheiro
emprestado, pode comprar $500 de ativos, que se, por desventura, passaram a
valer $200, o patrimônio fica negativo e, em tese, os clientes não apenas
perderam tudo, como tem que botar mais algum para pagar o banco que lhes recomendou
o fundo. É duro. Se os ativos são bons, e a baixa de preço é temporária, a ação
mais recomendada é a mais difícil: não fazer nada. Para isso será preciso
liquidez para honrar resgates e estender os empréstimos. Parece ser o que os
bancos estão fazendo, com o apoio de seus bancos centrais.
A fofocaria é imensa, como está sendo o trabalho de “liquidar” os HFs
quebrados, transferindo os ativos para quem tem “bala” para carrega-los por um
bom tempo. As janelas de regate de HFs são, em geral, semestrais, de modo que
os açougues vão funcionar durante alguns meses.
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