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| GUSTAVO H.B. FRANCO é economista e professor da PUC-Rio e escreve quinzenalmente em ÉPOCA. Foi presidente do Banco Central do Brasil. http://www.gfranco.com.br/ gfranco@edglobo.com.br |
por Gustavo H. B. Franco
O investidor que fala ao
celular dirigindo sua Ferrari pode atropelar mais que animais
Toda crise financeira tem suas novidades e seu glossário, com o elenco de atores e processos principais. Os "hedge funds" (HFs) são bem conhecidos, o mesmo valendo para as "agências de rating" (ARs) ou de classificação de risco. Já os vimos em outros filmes. As novidades desta crise são, em primeiro lugar, as "estruturas" ou "operações estruturadas" e, em segundo lugar, uma máquina maravilhosa, que tomou de assalto o sistema financeiro internacional, o "blackberry".
Vale lembrar aqui o que
dizia Nélson Rodrigues sobre comentaristas de futebol: eles não sabem bater um
escanteio, mas dão palpite sobre tudo. Desta vez, os comentaristas de plantão estão
esculhambando as agências de risco. E o objeto dos comentários são as tais
"estruturas". Trata-se de animais complexos, como os derivativos na
crise de 1998. Não mais que um em cada dez economistas acadêmicos sabia
explicar, em 1998, o que era um derivativo. Hoje em dia, a proporção é a mesma
para os que sabem descrever o funcionamento de uma "operação
estruturada".
As tais
"estruturas" consistem numa instituição, geralmente um HF, que cria
uma sociedade de propósito específico (SPE), na qual coloca algum capital, mas
não muito, e por meio da qual toma dinheiro emprestado para comprar, por
exemplo, hipotecas, cujo risco de crédito, tal como avaliado pelas agências de
risco, pode ser da melhor qualidade. Aqui, todavia, começa a complicação. Uma
"estrutura" composta de ativos AAA (a melhor nota das ARs), não é
necessariamente AAA. O título de dívida emitido pela SPE, a despeito do lastro
As ARs têm metodologias
bem elaboradas de análise de "estruturas", os clientes sabem o que é
necessário para conseguir um AAA e sabem quando terão uma nota ruim, caso em
que preferem não contratar as ARs. Em muitos casos, as ARs não deram boas notas
às "estruturas" que ruíram nesta crise, ou nem foram solicitadas a
fazê-lo. Os HFs só pagariam se tivessem certeza que obteriam um AAA.
Agora, calcula-se que haja
centenas de bilhões de dólares em papéis dessas SPEs com dificuldades de
rolagem. O investidor não tem para onde correr: pode receber os ativos que
servem de garantia, mas se fossem vendê-los a bancos, teriam de aceitar perdas
enormes. Os bancos, de seu lado, podem carregar esses créditos até seu
vencimento, em virtude do que, podem contabiliza-los a valor de face. O banco
central americano, o Fed, criou uma linha especial para os bancos comprarem
esses ativos e irrigarem as "estruturas" entrevadas.
Aqui entra o blackberry. Ninguém sabe bem quais são
os valores dos papéis estruturados encalhados, nem quem está com o pepino. Mas
todos se falam numa intensidade e com freqüência inusitada. O blackberry é como um celular comum, que
permite enviar e receber e-mails do cinema, do carro, do meio de reuniões e
durante conversas. É uma febre. Graças a ele, as pessoas se falam como nunca.
Mandam e-mails para seus conhecidos em HFs: “como estão vendo as coisas? Por
aqui, tudo bem”. A resposta, em dois minutos: "Achamos isso e aquilo (os
comentários vêm cheios de pistas). De fato o Brasil está distante de tudo, não
se preocupem, mais notícias quando chegar ao escritório". A mensagem
circula pelo escritório do lado de cá. Horas depois, o fulano pede desculpas
pela demora, diz que vinha dirigindo de volta de um fim-de-semana na Nova
Inglaterra, atropelou uma rena e arrebentou o carro, perda total. Confirma o
diagnóstico que está tudo travado e diz que as renas não tem noção de risco.
Do lado de cá, refletimos.
As estradas da Nova Inglaterra cruzam florestas onde moram renas inocentes, que
não entendem bem as estradas. São renas comuns, investidores não-qualificados.
São elas que não entendem de risco, ou o sócio de um HF, que opera
simultaneamente, em alta velocidade, seu blackberry
e sua Ferrari?
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