NOSSA ECONOMIA
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GUSTAVO H.B. FRANCO |
O presidente ateniense
por
Como Lula e o PT se apropriaram do discurso da estabilidade econômica
Uma pesquisa recente trouxe a notícia de que o brasileiro acredita que a
conquista da estabilidade se deve ao Presidente Lula. O mesmo percentual de
brasileiros acredita em discos voadores; as pesquisas de opinião revelam tanto
quanto ocultam. O fato é que o Presidente aderiu à estabilidade como
estrangeiro naturalizado, de sotaque meio carregado, mas simpático e bonachão,
dizendo-se “mais brasileiro” do que nós, pois se tornou brasileiro “por
escolha”.
Não há nada a criticar na naturalização, o Brasil, assim como o bom
senso, são nações hospitaleiras, e a estabilidade é para ser de todos, é um “Bem
Público”, como definem os economistas: ninguém pode ser excluído do seu
legítimo desfrute, inclusive os que, no passado não tão longínquo, militaram
contra ela.
Tratando-se dos naturalizados, todavia, este desfrute há de ser
comedido, a fim de que não se reproduza uma síndrome bem ilustrada por uma imagem,
muito utilizada por Machado de Assis para descrever homens dados a exageros inofensivos
de suas posses e realizações. Diz-se que havia um cidadão ateniense que não
tinha um tostão furado, mas estava convencido de que todos os navios que
entravam no Pireu lhe pertenciam. Esse “opulento de barcos e ilusões”, segundo
Machado, “não precisou mais para ser feliz. Ia ao porto, mirava os navios e não
podia conter o júbilo que traz uma riqueza tão extraordinária”.
A julgar pelas Falas do Trono, a frota do ateniense já inclui as metas
de inflação, o superávit primário, a Lei de Responsabilidade Fiscal, o câmbio
flutuante amortecido, o FMI, a CPMF, a DRU (antigo Fundo Social de Emergência),
a Bolsa Escola Anabolizada (conhecida como Bolsa Família), e o “grau de
investimento”.
A imagem do ateniense me ocorre também diante das advertências do nosso presidente
ao dos EUA sobre a crise financeira das hipotecas de quinta (tradução ateniense
para “subprime mortgages”):
- Cuide do que é seu.
Bush deve ter pensado que o conselho era bom e por isso mesmo fez
pronunciamento à nação no qual anunciou que linhas de crédito seriam oferecidas
a bancos para apoiar renegociações de mutuários da casa própria que estavam
passando por dificuldades para honrar suas prestações.
Diante deste anúncio, o ateniense aqui do Sul, como o de Machado, teria
exclamado:
- Este navio é meu!
Enquanto isso, na Europa, linhas semelhantes de apoio a bancos foram
implementadas pelo Banco Central Europeu, e mais recentemente no Reino Unido, o
Banco da Inglaterra socorreu um banco especializado em hipotecas de nome
Nothern Rock (A Rocha Nortista, outra tradução literal), com destaque para as
oferecidas para pessoas de baixa renda. Só faltava que a Rocha fosse Nordestina
para que o ateniense gritasse com ainda mais ênfase:
- Este também é meu.
Sem saber de nada disso, o editorialista do Financial Times andou
criticando o Banco da Inglaterra. Outros tantos criticaram até mesmo a queda
nos juros nos EUA: se não há cadáveres nas crises, a imprudência permanece
impune e incentivada. É o chamado “Moral Hazard” (geralmente traduzido, em
versão literal, como “risco moral”, eu preferia “A Tentação do Imoral”). Isso
de se ajudar os bancos em momentos de crise é sempre controverso: para se
salvar as vítimas inocentes de um naufrágio financeiro, é preciso alocar os
prejuízos àqueles que provocaram a confusão.
Diante desses debates, um assessor palaciano observa ao Presidente:
- Este seu navio mais recente é de grande serventia, pois protege os
demais. Nada pode ser pior para a sua frota que uma crise bancária. Porém, este
navio se chama PROER, e está entre tantas outras embarcações que procuramos
afundar no passado e depois mudamos de idéia. O Patrão tem certeza que devemos
absorver mais este navio entre os nossos?
E o ateniense, então, grave, mas com ar trivial, transigiu:
- Tem razão, companheiro, nossa frota já nos atende muito bem. Melhor
que esses veículos mais polêmicos fiquem com outros. Mande fazer uma estátua e
ponha naquele porão onde escondemos as que o Ministro Pallocci mandou fazer
para o seu antecessor. E não conte para ninguém; é claro.
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