NOSSA ECONOMIA
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GUSTAVO H.B. FRANCO |
A inovação que faz falta ao governo
por
Na semana que passou o Presidente Lula nos explicou o que significa “choque
de gestão”, a Ministra Dilma reabilitou o “empresário Schumpeteriano” e a bolsa
de valores explodiu de alegria, dando por encerrada a suposta crise das
hipotecas americanas, e oferecendo uma indicação de que as referidas
autoridades estão cobertas de razão, ou, diferentemente, de que estas idéias,
erradas ou muito erradas, não têm a menor importância.
O fato é que as palavras e os conceitos parecem vítimas inocentes de
balas perdidas de um debate ideológico já terminado. O capitalismo venceu, e o
socialismo foi uma catástrofe, ao contrário do que dizem os livros didáticos
que o governo distribui. Talvez por isso se diga que, no Brasil, a História é
lenta; as autoridades parecem sempre se equilibrar entre um passado idealizado,
um “futuro do pretérito”, e um presente de onde não podem escapar.
O
Presidente e a Ministra não defendem as idéias
perdedoras, descontadas
apenas algumas lambujens atiradas na direção de uma
angustiada militância. Pelo
contrário, alinham-se ao “choque de gestão”,
à eficiência da máquina pública,
ao capitalista, e às empresas. E contra essa bobagem de se
reestatizar a Vale
do Rio Doce.
Pode haver certo contorcionismo retórico nessas manifestações, como as
imortalizadas pelo Grande Irmão no “1984” orwelliano, onde o dicionário também
trabalhava para o governo. Com efeito, o significado das palavras tem a ver com
os usos e costumes do passado, mas
como a História começou em 2003, o dicionário vai sendo refeito.
O verbete “clientelismo”, por exemplo, caiu em desuso, de tal sorte que
todos os atos antigamente pertinentes a esta acepção antiga, passam a ser
designados, a partir desta semana, como “choque de gestão”. Quem lê apenas as
manchetes, vale dizer, a maioria dos que lêem jornal, verão que o Presidente é
pelo “choque de gestão” e está, por conseguinte, a favor dos envolventes ventos
neoliberais globalizantes.
No assunto do empresário dito “schumpeteriano”, saiba o leitor, em
primeiro lugar, que a Ministra alude a Joseph Alois Schumpeter (1883-1950),
célebre economista austríaco, ex-ministro das finanças de seu país durante a
hiperinflação (1919-20), depois professor na Alemanha e emigrado para Harvard,
onde se estabelece como professor em 1932. Notabilizou-se pelo estudo da
inovação como mola mestra do capitalismo, sendo esta a resposta criativa, a
quebra de paradigmas que permite o desenvolvimento econômico.
A Ministra merece muitos aplausos, pois não está citando Gramsci, nem
Rosa Luxembrugo, Hilferding, ou qualquer outro economista marxista esquecido,
obsoleto e irrelevante, e candidamente reconhece:
- Não é simples ter uma burguesia nacional.
É de se louvar o genuíno empenho em se compreender o admirável mundo
novo, embora com as ferramentas erradas. Schumpeter é um bom começo, embora
haja um bom par de coisas a observar sobre o velho Schumpeter, uma espécie de
“muso” da área de Business History da Harvard Business School, o pior dos
antros formadores de quadros para o capitalismo globalizante.
A primeira é que a inovação vem também e principalmente de governos
através de reformas que alteram aspectos institucionais importantes da vida
econômica. Não está faltando empresário schumpeteriano no Brasil, mas governo
inovador que implemente reformas para melhorar o clima de negócios, onde nossa
posição nos “rankings” internacionais só faz piorar.
A
segunda é mais básica, e com algum exagero proposital:
não existe mais
burguesia, quem tem os “meios de produção”
são os fundos de pensão, expressão
fiduciária da classe operária. O empreendedor inovador,
as exceções habituais
não obstante, se institucionalizou em divisões de
pesquisa e desenvolvimento e
tem o apoio da indústria do capital de risco (“venture
capital”). Não vamos
esquecer uma lição do próprio Marx: o capital
não é uma pessoa, é uma relação
social, tal qual o “empresário schumpeteriano”. Ao
personalizar esta figura
corremos o risco de se criar uma coisa chamada “empresário
chapa branca”, uma
distorção que está para a inovação,
assim como o clientelismo está para o
“choque de gestão”.
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