Para entender o
crescimento
Gustavo
H. B. Franco
O valor de todas as empresas que têm ações
negociadas na Bovespa era algo como US$ 150 bi em 1995. Hoje, o número está
em US$ 593 bi, ou seja, nos 10 anos que se seguiram
ao Plano Real, a criação de riqueza na Bovespa foi da ordem de US$ 443 bi de
dólares, um crescimento médio anual de 14,7% em dólar. O leitor não deve confundir este crescimento
com o do PIB que, durante este mesmo período, foi bem mais modesto, cerca de
4% anuais em média. Riqueza e renda (ou o PIB) são coisas bem diferentes. O
PIB é um fluxo, a soma de salários e lucros, usados em consumo e poupança. A
riqueza é um estoque, que corresponde à poupança acumulada na forma de ativos
(ações, imóveis, títulos) e cujo valor varia, seja por que acreditamos que as
empresas vão ter mais lucros no futuro, seja por que damos mais valor hoje às
coisas que acontecem em futuro distante. São dois elementos sutilmente
diferentes: os lucros futuros, e a “taxa de desconto” que usamos para trazê-los
a valor presente. O avanço das reformas criará riqueza dessas duas
formas, porém, mais e mais rapidamente, através da segunda. Com efeito, as reformas
fundamentais, ao permitirem uma redução sustentada na taxa de juros, e,
portanto, na taxa de desconto relevante para se calcular o valor das empresas
brasileiras, vão produzir enorme valorização para as
empresas, quem sabe mais do que se viu em 1995-2005. Não fazer reformas, portanto, é como
tributar as empresas, é o mesmo que adiar o
recebimento de um bônus que lhes é devido, assim, diminuindo-lhes o ímpeto de
investir. O leitor estará correto em concluir que a
métrica usada para se medir o desempenho da economia – o crescimento dessa
coisa chamada o “PIB” – não captura todas as dimensões do processo. E por
isso mesmo, nos últimos tempos, muita gente está atenta à criação de riqueza
pela “outra via”, ou seja, através da valorização dos ativos localizados no
Brasil. Um tributarista descreveria (e trataria) esta
“valorização” como ganho de capital; os economistas marxistas diriam que é fictícia,
como costumam observar sobre tudo o que é financeiro e que não entendem. Um exemplo interessante é o que se passou com
Portugal e Espanha no período logo anterior à adoção do Euro.
Deve-se ter claro que a moeda única e a ajuda da Comunidade Européia, foram bem menos importantes que o fato de os dois países
terem feito o seu dever de casa em matéria de reformas. No início da década
de 1980, os juros de ambos os países talvez não estivessem tão distantes de
onde o Brasil se encontra hoje, e ao convergirem para níveis alemães, ao
longo de uma década e meia, os ativos na Península Ibérica valorizaram-se de
forma esplendorosa. E não há melhor lugar para verificar o enriquecimento
ibérico do que aqui mesmo no Brasil. A razão é simples: Portugal e Espanha
ficaram ricos justamente quando o Brasil deixava para trás a hiperinflação e
avançava com seu programa de privatizações. Em 1995 tínhamos US$ 42 bi de investimentos diretos estrangeiros no Brasil, e menos
de 1% disso era de empresas portuguesas e espanholas. Entre 1995 e 2000, entraram US$ 110 bi adicionais,
dos quais US$ 27 bi (24%) de investidores ibéricos. De onde veio esse
dinheiro todo, se eles nem tinham mais um banco central para imprimir escudos
e pesetas? A resposta é que as empresas ibéricas pagaram,
em larga medida, com suas próprias
ações, em muitos casos diretamente em permuta. É claro que o mesmo pode acontecer conosco, Espanha
e Portugal são bons modelos a seguir, muito melhores do que China, Índia e
Rússia que são muito diferentes de nós. Na essência, o que fica sugerido é
que, adicionalmente ao crescimento da renda (do PIB), as políticas públicas
devem prestar a devida atenção à criação de riqueza que ocorre em benefício das
empresas, pois é delas que virá o investimento e o crescimento. Quando o
crédito público melhora, todas as empresas do país passam a valer mais.
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