NOSSA ECONOMIA
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GUSTAVO H.B. FRANCO |
É tempo dos neoliberais de ocasião
por
Andam desanimados os movimentos anti-globalização, protestantes ou
cínicos, os heterodoxos de carteirinha, e os pessimistas em geral; e não é pela
demora nas nomeações do ministro Mangabeira Unger: como denunciar uma “ordem
internacional de caráter perverso” quando a economia mundial cresce tanto, por
tanto tempo, superando supostas crises em sucessão, e, principalmente, quando
suas locomotivas de crescimento são os países da “periferia”, China e Índia em
particular?
A alegria pode ser efêmera, dirão as vozes graves, a euforia é sempre
tola diante da dura realidade dos subúrbios distantes do planeta. Com efeito, durante
muitos anos, aprendemos a pensar que o subdesenvolvimento era uma doença
crônica e a “periferia” o “saco de pancadas” da economia global. Lembro-me de
um professor de História do Pensamento Econômico, nos anos 70, que me levou
para almoçar no bandejão da universidade a fim de me ensinar umas verdades,
antes que fosse tarde demais:
- O caráter periférico da nossa economia deve ser visto como defeito de
nascença - dizia ele - não adianta fisioterapia ou exercício, no máximo, seremos
um anão halterofilista.
Não sei bem o que era pior, a comida, a imagem de mau gosto, ou a teoria
que justificava esse pessimismo todo. Na época ainda se ouvia sobre a
deterioração secular dos termos de troca, assunto de boa parte do almoço, da
qual restaram apenas piadas, ou melhor dizendo, formas elegantes de se ridicularizar
a velha tese. Como, por exemplo, a de se notar, como fez recentemente um
economista espanhol, que um quilo de filet mignon argentino custa 24 euros, ao
passo que um quilo de Audi A4 sai por 20 euros (o carro inteiro custa cerca de
29 mil euros). Quem quiser fazer a conta de quantos bytes de memória, ou
quantos computadores, é possível comprar com uma tonelada de soja hoje
relativamente a 20 anos atrás, vai levar um susto e se convencer que Raul
Prebish, a Cepal e seus seguidores andaram nos enrolando com essa idéia de
agredir a teoria das vantagens comparativas.
Mas a teoria em si não era importante, servia apenas como veículo para
uma melancolia genérica contra o progresso e a “vulnerabilidade” inerente a
viver em um mundo globalizado, a qual, ainda em nossos dias, tem “caráter
cíclico”: quando o crescimento mundial fraqueja, cresce a popularidade dos
profetas de linguajar parnasiano, Porto Alegre se organiza para o fórum
alternativo, e são muitos a proclamar que “um outro mundo é possível”. Quando
as coisas vão bem, parece melhor ficar com o que temos, e todos se tornam
neoliberais bem comportados.
Mas o leitor não deve se deixar enganar: é puro fingimento. É importante
que se tenha claro que o ministro Mantega, por exemplo, não é um neoliberal
convicto, como ele mesmo há de confirmar. O mesmo vale para a ministra Dilma,
mesmo depois da privatização. O alinhamento com o Consenso de Washington é de
natureza tática apenas, um imperativo da conjuntura, uma aliança de
oportunidade como se faz cotidianamente entre os partidos políticos, o PT e o PTB
ou o PRB, por exemplo. Na essência, a globalização tem caráter perverso, ou
talvez mesmo não tenha nenhum caráter. Como bem disse Millor Fernandes, se o
mundo fosse feito á base de caráter, ia faltar muito material.
Claro que isto não faz a menor diferença nas políticas de governo, é só
uma racionalização, que, todavia, adquire muita importância por que a História
e a Política constroem-se a partir de versões. A situação dos ministros lembra
uma historieta de Machado de Assis, grande especialista em caráter, segundo a
qual um carrasco (ou terá sido um jornalista) perguntou a um condenado sobre
seu último desejo, e a resposta foi que ele gostaria de aprender inglês. Melhor que as conseqüências diretas do desejo,
procrastinar a execução, foi a explicação: o inglês se tornou o idioma do mundo
globalizado, deve ser o que se fala na outra vida para onde está partindo o
condenado.
Pois é, no tapete das explicações, o papel é magnânimo.
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