NOSSA ECONOMIA
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GUSTAVO H.B. FRANCO |
O realismo fantástico está entre nós
por
Se em Macondo, capital do realismo fantástico latino-americano, houvesse
banco central, e seus cidadãos se reunissem em assembléia, debaixo de uma nuvem
de passarinhos luminosos, para escrever um dispositivo constitucional para
definir a missão desta instituição, poderia ser algo assim (no original em
espanhol, obtido com exclusividade por este periódico): “El
Banco Central de Macondo es persona de derecho público sin (sem) autonomía para
la formulación y el ejercicio de las políticas correspondientes, y sus
funciones estarán supeditadas (subordinadas)
a la política económica general y al Plan de Desarrollo Integral de la Nación
para alcanzar los objetivos superiores del Estado Socialista y la mayor suma de
felicidad posible para todo el pueblo.”(sic)
Sim, é curioso que este BC tenha como missão a felicidade, e não a
inflação ou o crescimento, como é mais comum em outras partes do planeta, e talvez
seja melhor assim, ou seja, abandonam-se as metas “intermediárias” não necessariamente
conducentes ao “desenvolvimento integral”, que deve envolver dimensões
espirituais que estão sendo sistematicamente esquecidas nesses regimes de metas
inflacionárias.
É menos curioso que em Macondo o banco central não tenha nenhuma
autonomia, afinal, no Brasil, não é muito diferente pois aqui, no plano
estritamente formal, o poder sobre a política monetária emana diretamente do
Presidente da República através do Conselho Monetário Nacional, onde sentam 3
ministros, um dos quais o presidente do BC. Não esqueçamos, nos termos da lei,
ministros devem obediência ao Presidente da República.
Bem, antes de o leitor pense que nos perdemos em divagações literárias,
vamos esclarecer: o texto acima é o que está proposto pelo Presidente Hugo
Chavez para o banco central de seu país na reforma constitucional ora em
animada discussão. Não é fantasia, portanto. E o mais surpreendente é que o
delírio chavista, retirados os floreios retóricos, leva a uma forma de
organização do sistema monetário não tão distante da que existe no Brasil.
De forma similar, não seria fantasioso que, em Macondo ou na Venezuela,
fosse estipulado que todos os cidadãos estivessem obrigados a doar um dia de
trabalho para o seu sindicato, e todas as empresas também contribuíssem um
pedaço de seu capital para seu sindicato patronal. E a partir do produto desses
impostos, se constitua um sistema colaborativo, ou clientelista, unindo capital
e trabalho sob a égide do Ministério do Trabalho. Em Macondo, e na Venezuela,
não existe mais luta de classes.
Parece-me que, novamente, algo similar se passa com o Brasil, onde o
imposto sindical e patronal, e as contribuições para o sistema “S”, permanecerão
intocados ainda por um bom tempo, a julgar pelos acertos que se fazem no
Senado. Mas é menos claro que no Brasil a luta de classes tenha sido extinta
como na Venezuela, principalmente à luz do que se passou recentemente no IPEA.
Na verdade, a pergunta é se existe mesmo esta guerra em que parecem estar
lutando os novos dirigentes do IPEA, aí incluído o nosso Ministério do Futuro.
Parênteses: em Macondo, faz todo sentido um ministério para cuidar do Futuro do
Pretérito, quem sabe outro para o Futuro do Subjuntivo, ou seja, para os
“futuros” que não vão acontecer. Afinal, como disse Fernando Pessoa, “a sorte
de um povo depende do estado da sua gramática”. Fecha parênteses.
Talvez a luta de classes tenha mesmo terminado no Brasil, e a nova
direção do IPEA não se deu conta, e permanece escondida no mesmo mato onde
ficou isolado durante longos anos aquele famoso soldado japonês, sem notícias
sobre os tratados de paz de 1945 ou sobre a queda do muro. Os combatentes no
IPEA estão em guerra contra a meritocracia, como Canudos, que se rebelou contra
o sistema métrico decimal e foi imortalizada por Euclides da Cunha e também por
Mario Vargas Lhosa. O realismo fantástico definitivamente está em alta.
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