NOSSA ECONOMIA
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GUSTAVO H.B. FRANCO |
Lula e o milagre de 2007
por
O ano de 2007 é das grandes narrativas e dos pequenos assassinatos. Mesmo
com os tremores hipotecários do segundo semestre, a macroeconomia foi
espetacular. O “círculo virtuoso” se acentuou: tudo melhorou, exceto pela
inflação, só um bocadinho maior, como quem quisesse ensinar uma lição aos que
diziam, no início do ano, que “um pouquinho mais de inflação” seria a recaída
do alcoólatra. Até nisso o governo acertou. O Presidente Lula está a um
centímetro de proclamar um novo “Milagre Econômico”, iniciativa que, aliás,
merece amplo apoio e alguma reflexão.
Diante desse conceito, é provável que, por malícia ou reflexo, ou ambas,
um dos mais novos e entusiasmados áulicos do governo, o decano da feitiçaria
econômica nacional, o ex-czar Delfim Netto, repita seu velho bordão: nada
disso, milagre é efeito sem causa.
Quando proferiu esta portentosa sentença pela primeira vez, o objetivo
era o de afirmar uma relação de causa e efeito entre o bom desempenho da
economia e a qualidade da política econômica. Na época, a imprensa não podia
debater o assunto como em nossos dias, especialmente esse tema da qualidade, e
os economistas da oposição, um deles o ex-ministro
Causa e efeito, nos assuntos da economia, deveriam andar juntas, em
pares monogâmicos, para que o leitor não fique em dúvida sobre a composição dos
casais. Com a liberalidade dos costumes, tudo ficou confuso: será que o bom
desempenho da economia pertence ao ministro Mantega, ou, em vez disso, é o
resultado inevitável de uma conjuntura internacional fabulosamente favorável,
sobre a qual o Brasil não tem nenhuma influência? Tirando o que é “piloto
automático”, tocado pelo Banco Central e pelo Tesouro através de uma regras
rígidas, o que dizer da personalidade da política econômica do governo Lula?
Na verdade, quando se faz a lista dos pequenos assassinatos, fica
imensamente reforçada a sensação de que estamos vivendo mesmo um milagre: o
mensalão, o mensalinho, os aloprados, sanguessugas, o PAC, os PACs temáticos, o
caos aéreo, o deperecimento da infra-estrutura, os recordes de arrecadação, a
perda da CPMF, os rolos com a Bolívia, a Venezuela no Mercosul, nós fora da
ALCA e da OECD, o banco do Sul, a explosão do gasto público, o aparelhamento em
toda parte, a nova TV pública, a política industrial, a falta de reformas, o
ministro Mangabeira e o expurgo no IPEA, o ministro Lupi e seu emprego da
definição de ética, o prêmio dado ao livro do deputado Genuíno pela Biblioteca Nacional,
não há dúvida que 2007 está repleto de pequenas mazelas, tudo perfumaria, todavia,
a julgar pelos índices de aprovação ao governo.
É claro que tudo isso ocorre ao redor do “trivial simples” da política
econômica ortodoxa herdada e copiada do governo anterior, e apenas sugere que
toda vez que algum improviso é tentado fora desta partitura básica, o resultado
é sempre ruim. Com efeito, milagre é a economia estar andando tão bem no meio
da diversidade. Milagre é a trajetória de Forrest Gump, é almoço grátis em
bases consistentes, é o efeito com causa externa, e sem merecimento.
Sim, caro leitor, Deus é brasileiro e está guardando todas as crises e
dificuldades para um governo que saiba lidar com essas coisas, o próximo.
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