NOSSA ECONOMIA
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GUSTAVO H.B. FRANCO |
As novas crias do sistema financeiro
por
O excesso de liquidez na economia global, fenômeno quase tão raro quanto
a passagem de um cometa, já teve muitas designações: “eurodólar” ou
“petrodólar” foram expressões populares tempos atrás, quando dólares em
quantidade muito grande foram parar em algumas poucas regiões ou instituições. Nessas
situações, sempre se ouvia que o essencial era a capacidade de o sistema
monetário internacional, melhor dizendo, dos titulares da liquidez, em reciclar
os excessos de volta para as áreas necessitadas do sistema a fim de manter
lubrificadas as engrenagens do comércio e das finanças.
Em nossos dias, o excesso de liquidez dirigiu-se predominantemente para
a periferia, cujo comportamento em matéria de reciclagem tem sido exemplar; todos
compram títulos do Tesouro Americano e estão felizes em manter as coisas como
estão.
Uma interessante novidade desse admirável mundo novo, todavia, é a
formação do que se conhece como “Fundos Soberanos de Riqueza” (FSRs), algo como
agências ou de governo que usam os excessos de reservas internacionais em
investimentos diferentes daqueles que os bancos centrais fazem com suas
reservas internacionais.
Cálculos recentes dão o patrimônio desses FSRs em quase US$ 3 trilhões,
sendo que o maior deles seria o de Abu Dabi e o segundo maior o da Noruega com
ativos de US$ 875 e US$ 380 bilhões respectivamente. O patrimônio dos FSRs é
pouco menos do dobro daquela do conjunto dos “fundos de hedge”, os investidores
mais agressivos e predadores de nosso tempo.
Pouco se sabe sobre essas criaturas, exceção para o da Noruega, que
cresceram até esta inacreditável dimensão sem que deles se ouvisse falar senão
em disputas isoladas referentes a investimentos que deram errado. Mas os FSRs
de Cingapura, AbuDabi, Qatar e da China foram manchetes de jornal ao colocarem
pouco menos de US$ 70 bilhões em capitalizações de alguns dos bancos mais
machucados pela crise recente, dentre os quais UBS, Citibank, Morgan Stanley,
Merrill Lynch e Bear Sterns.
Esses investimentos ocorreram num momento de fragilidade dos referidos
bancos, e com o evidente beneplácito, quem sabe até um certo entusiasmo, ou
mesmo o incentivo dos reguladores e autoridades dos países sede. É evidente a
conjectura segundo a qual este magnífico exemplo de reciclagem de excessos de
liquidez para onde há escassez de poupança não teria sido possível em condições
normais. Embora se tome os FSRs como investidores “do Bem”, mais ou menos como
fundos de pensão de “participante exclusivo”, há evidentes tonalidades
políticas em tudo o que fazem. Os nacionalistas já estão a vociferar, como o
Presidente da França, e mesmo a candidata Hilary Clinton que falou na
“necessidade de controles” das atividades dessas instituições. Já sobre os
“fundos de hedge”, cujos estragos feitos à estabilidade financeira
internacional são bem conhecidos, a candidata não teria se pronunciado.
O fato é que os FSRs querem mais. O Xeque Hamad bin Jassem Al Thani,
primeiro Ministro do Qatar, que tem um FRS de US% 100 bilhões declarou que
colocará US$ 15 bilhões em cerca de uma dúzia de bancos importantes.
Não há dúvida que a economia global nunca mais será a mesma.
Talvez o
Brasil pudesse fazer parte disso, se tivesse o seu FRS.
Contudo, 10 de 10 economistas brasileiros acham que o Brasil não
tem condições
de ter o nosso, pois nos falta o requisito essencial, superávits
fiscais
continuados, e não se trata de superávits
primários, mas de superávits de
verdade, que nós não temos. Seria difícil de se
resistir ao que tem sido apontado como uma das distorções
dos FRSs, a saber, a politização de suas decisões:
nosso governo quer palpitar até nos investimentos da CVRD ...
Em todo caso, a título de fantasia, fico me perguntando se tivéssemos o
nosso FRS se compraríamos ações do Citibank. Meu voto seria favorável, com a
recomendação de que o nosso simpático velho conhecido Bill Rhodes fosse
designado para cobrar hipotecas com problema de inadimplência.
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