NOSSA ECONOMIA
|
|
|
GUSTAVO H.B. FRANCO |
A recessão americana ainda está longe
por
A melhor tese sobre a recessão americana, o fantasma que ronda os
mercados, é simples como palavras cruzadas: se estamos discutindo os detalhes
de uma definição precisa, é por que ainda estamos longe dela. Uma recessão de verdade
não tem nuances nem cores pastel, é preto no branco, enorme, avassaladora, deixando
atrás de si um rastro de destruição.
Pode haver certo exagero nesta tese; afinal, há muita coisa entre
ventania e furacão. Herbert Saffir e Robert Simpson, estudiosos do assunto,
desenvolveram uma escala para definir e qualificar os furacões, que começam
apenas quando o vento ultrapassa exatos 117 quilômetros por hora. Abaixo deste
número existem apenas tempestades tropicais (que não merecem esta designação
quando o vento é menor que 63 quilômetros por hora, abaixo do que temos, em
seqüência, temporal, toró, chuva, garoa), e partir daí os furacões são
divididos em cinco categorias conforme o vento, a altura das ondas e a pressão
atmosférica.
Há também vendavais, trombas d’água e tornados, estes, em particular,
descritos através de uma escala própria, desenvolvida por um professor da
Universidade de Chicago de nome Fujita; os tornados começam com ventos entre 65
e 117 quilômetros por hora e se dividem em seis categorias conforme o vento e
as características da trilha, sendo que a pior, com ventos superiores a 530
quilômetros por hora, existia apenas em simulações até que um caso foi
registrado em 1999 em Oklahoma, nos Estados Unidos.
Estas ocorrências provocam fenômenos curiosos: os tornados, por exemplo,
ao tocar o solo, suspendem vacas, como vemos nos filmes, mas também pequenos
animais – rãs, peixes, cobras e pássaros – que permanecem muito tempo no ar,
geralmente congelados, e vão cair bem longe de onde foram sugados. É a chuva de
animais, que foi observada com grande espanto em Paracatu em fevereiro de 2007,
quando se diz que choveu peixe. Existem muitos relatos desse tipo, pelo mundo
todo: ratos na Noruega, salmões e arenques em Essex e cobras em Memphis.
Bem, o leitor deve conhecer também a escala de Charles Richter para
terremotos, de 1 a 14, e a escala de Francis Beaufort para condições do mar, de
1 a 12, usada pela Marinha inglesa desde 1830 pelo menos. É claro que todas essas
escalas têm grande utilidade, mas é preciso não esquecer que oferecem nada mais
que descrições grosseiramente simplificadas dos eventos, e nada dizem sobre a
complexidade dos processos geológicos ou climáticos na sua origem.
Tudo isso para dizer que os maiores especialistas em escalas que o mundo
conhece são os economistas. Existem centenas de estatísticas diferentes para o
que se conhece como o “nível de atividade econômica”, e cada uma delas pode ser
apresentada comparando trimestres, semestres, anos, médias, medianas, desvios
da média, o que multiplica as possibilidades a números impossíveis.
Com qualquer uma delas é possível compor uma escala e categorizar
episódios como de atividade alta, média, medíocre, baixa, muito baixa,
horrível, ou definir períodos de expansão, estabilidade, recessão, depressão,
suicídio. Tudo sempre muito arbitrário e científico, como dizer que a recessão
é quando temos dois trimestres seguidos de taxas negativas para o crescimento
do PIB (trimestre contra trimestre, ou trimestre contra o mesmo trimestre do
ano anterior? Cartas para a redação). Ou que furacão é só com vento maior que
117 quilômetros por hora, ou quando chove peixe em Paracatu.
No fundo, esse assunto das recessões, e sua inevitabilidade e gravidade,
é tão antigo quanto os economistas, e igualmente enganoso. A idéia de que
existe um ciclo econômico preciso, composto de uma seqüência inescapável de euforia,
angústia, recessão, recuperação, euforia, tudo novamente, tem o mesmo estatuto
científico que a noção de que há traços de personalidade que guardam relação
com a posição dos astros no momento em que o indivíduo passou pela experiência
do parto.
.
OUTROS SITES