NOSSA ECONOMIA
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GUSTAVO H.B. FRANCO |
A arte de embralhar causas e efeitos
por
Nunca antes, numa crise internacional, a moeda brasileira ficou mais
forte e o Brasil foi visto como um “porto seguro” para as aplicações
financeiras. Esta podia ser uma das bravatas do nosso Presidente: o Real
valendo mais que dólar, forte como nunca, reflexo de uma economia de mercado em
acelerado progresso e de um governo iluminado.
Mas vamos deixar de lado o fato de que não é bem assim, como deve
suspeitar o leitor, e refletir sobre uma questão filosófica mais transcendente,
relativa à natureza das relações de causa e efeito no mundo da economia e da
política.
Na verdade, não creio que exista problema mais difícil na ciência econômica.
Um helicóptero que despeja cédulas de cem reais em cima de uma grande capital
“causará” um aumento no custo de vida na referida cidade? Ou vice versa?
Antes de examinar este e outros problemas da espécie convém lembrar o
preceito básico da lógica elementar segundo a qual a causa vem antes do efeito;
o observador atento deverá, portanto, sempre procurar, acacianamente o que vem
primeiro: o governo iluminado ou progresso econômico.
É claro que, na vida real, as coisas são mais complexas; nem sempre há
clareza se o governo iluminado veio antes, ou muito antes, do progresso
econômico. Na verdade, existem outras coisas que causam o progresso econômico e
que o pesquisador pode não estar percebendo.
Pode ser, por exemplo, que seja uma economia internacional em franca
expansão, face ao surgimento da China, a causar o progresso econômico no
Brasil. Neste caso, seriam duas, portanto, as causas do progresso brasileiro, o
governo iluminado e a China.
Na verdade, todavia, é possível que essas duas causas tenham peso
diferente, ou mesmo que a China esteja causando a expansão da economia
globalizada e o progresso no Brasil, e que o governo iluminado não tenha muita
relevância nem para uma coisa nem para a outra. Na verdade, é possível mesmo
que o governo não seja nada iluminado e que o progresso no Brasil esteja sendo
causado por fatores alheios a nós, e pertinentes à China e ao pujante
crescimento da economia internacional.
Mas o governo, que pode não ser nada iluminado, tem bons marqueteiros e
entende perfeitamente as dúvidas que afligem os cientistas sociais e os
eleitores quando se trata de identificar relações de causa e efeito. E num
rasgo de grande iluminação lança uma iniciativa chamada PAC que consiste muito
mais essencialmente em deixar claro que quer
o crescimento, do que propriamente em mecanismos que sabidamente causam o crescimento.
Como as pessoas sabem que as causas costumam vir antes dos efeitos, elas
escutam que o governo deflagrou iniciativas voltadas para o crescimento
agrupadas pela enigmática sigla PAC. E em seguida são informadas que
efetivamente está se observando algum crescimento. É de se concluir que PAC, ou
o governo iluminado, produziu o crescimento? Ou terá sido a China?
Aqui entra uma certa mágica, ninguém vai querer acreditar que o
crescimento foi causado pela China, por uma razão muito simples: a China está
fora do controle do eleitor. É mais confortável supor que foi o PAC que causou
o crescimento, pois esta crença proporciona ao eleitor uma esperança. Ou uma
ilusão, faz pouca diferença. Na verdade, é disso que trata esta ciência
conhecida como “marketing”, o estudo de um público com vistas a fazê-lo
enxergar determinada coisa que, às vezes, não existe exatamente da forma como
se vende.
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