NOSSA ECONOMIA
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GUSTAVO H.B. FRANCO |
O Tao do câmbio para principiantes
por
Como qualquer pessoa, nesses dias que passam, tenho gasto muito mais
tempo do que gostaria em aeroportos. Ainda bem que eles têm livrarias, embora
de qualidade quase tão boa quanto a dos restaurantes. O viajante que se distrai
folheando os livros, especialmente os das seções pertinentes a negócios e
economia, facilmente compreende a natureza desta manifestação cultural e
filosófica conhecida como “literatura de aeroporto”, cuja influência, tenha-se
claro, vai bem além desses recintos.
Um dia vou escrever um livro de aeroporto, coligindo leis da economia,
mas não as que se ensinam nas faculdades, como a da oferta e da procura, muito
óbvias, mas leis como as dos manuais de sucesso nos negócios, nas vendas, e na
busca da felicidade. Leis que fazem com você, leitor, saia da sua rotina cômoda
e seja um vencedor. Leis que expliquem como a economia verdadeiramente funciona.
Eu sei que Alexandre
Kafka e Roberto Campos já tiveram esta idéia anos atrás; não tanto por conta do
caos aéreo, mas por que ouviam insistentemente que o Brasil obedecia a leis
diferentes daquelas que havia nos manuais de economia. Por conta disso
publicaram um pequeno ensaio com cerca de uma dúzia de leis, que ficaram
conhecidas como “As leis do Kafka”. O Kafka era tcheco como o Franz, e algumas
de suas máximas eram decididamente kafkianas, como a sétima, denominada “lei newtoniana
da burocracia”, muito pertinente para os assuntos cambiais, segundo a qual: “Toda ação no sentido de liberalização,
provoca uma reação de controle burocrático, de igual intensidade, embora de
forma disfarçada”.
Num esforço de atualizar essas leis fiz uma coleta inicial de cerca de
70 novas leis, uma das quais, fundamental para o assunto dessa crônica, e um
clássico da produção legislativa brasileira. A Lei de Sauer, uma justa
homenagem a Wolgang Sauer, ex-presidente da Volkswagen do Brasil, e de
entidades patronais que atuaram em defesa os exportadores brasileiros, todavia,
tem um sócio.
Certa vez em São Paulo, conheci um senhor que com grande delicadeza me
explicou que, na verdade, foi ele quem disse a frase que se tornaria a lei, mas
que Sauer, talvez mesmo sem querer, foi tantas vezes entrevistado entrando ou
saindo de gabinetes de autoridades para reclamar do câmbio, que a idéia ficou
sua. De todo jeito, o certo é redenominar a lei como de Sauer e deste simpático
senhor, de nome Laerte Setúbal, também ex-presidente da Associação dos
Exportadores Brasileiros (AEB)
A Lei de Sauer-Setubal é simples:
qualquer que seja a taxa de câmbio, ela estará sempre defasada em 30%.
Parece estranho para os dias que correm, pois era uma sabedoria de um
outro Brasil. Quando tínhamos taxas de
câmbio administradas, ou seja, quando o Banco Central tinha poder de fixar a
taxa de câmbio onde bem entendesse, exportadores e importadores, por razões
simétricas, se colocam sempre em crônico estado de pânico, com respeito aos
critérios usados pelo BC, tal qual concessionário de serviço público diante do
poder discricionário da Autoridade que estabelece a tarifa.
O conceito de defasagem
cambial, com efeito, tem a atualidade e a relevância de um fusca 68. Mas em
1996, foram muitos os que se irritaram comigo quando enunciei um raciocínio tão
simples quanto venenoso a propósito da obsolescência desta noção: O fato do
preço da banana, cair em função de uma super-safra, não quer dizer
necessariamente que há uma "defasagem bananal".
Quantas vezes eu ouvi de tantos sábios a profunda e tola sabedoria
envolvida na observação de que “câmbio não é banana”, sempre com vistas a
explicar que a lei da oferta e da procura tinha sido revogada anos atrás pelos
estruturalistas e heterodoxos.
Se houve revogação, não contaram para Warren Buffet. É verdade que a lei
da oferta e da procura não está entre as 125 máximas de um livro recente sobre suas
melhores receitas para ganhar dinheiro na bolsa. Mas o fato é que, acreditando
nela, ele ganhou US$ 2,3 Bilhões nos últimos cinco anos apostando na
valorização do Real.
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