Revista Época

 

 

Edição 448 – 18/12/2006

 

Forrest Gump e a taxa de juros

Gustavo H. B. Franco

 

Somos os campeões mundiais de juros, como fomos de inflação, e da mesma forma como ocorria antes do Plano Real prevalece certa tendência de se culpar o médico pela doença, como se a culpa fosse do Banco Central e se a caneta de seu presidente tivesse o poder nos trazer juros de primeiro mundo. Muita gente acha que é crueldade, ou deficiência de vontade política. E muitos acham também que o salário mínimo podia ser de mil dólares, ou dois mil, por que não? E que o câmbio também deveria ser colocado no nível que os exportadores querem, por que eles merecem e empregos estão sendo destruídos. Não há limite para a vontade de fazer o Bem.

Mas fato é que existem fatores objetivos que dão limites muito claros ao que o BC pode fazer com juros e câmbio. Os economistas designam simplificadamente esse conjunto de fatores, o estado geral de saúde do organismo econômico, em particular do setor público, por “fundamentos”.

Os “fundamentos” eram péssimos no tempo da inflação, e muita gente se enganava com a ilusão de que a inflação era “inercial” e que não tínhamos uma infecção a combater. Quando abandonamos essa cantilinária e atacamos o problema em seus “fundamentos”, tivemos sucesso em deixar para trás a hiperinflação. Mas a doença não desapareceu por inteiro, e que o que dela restou, uma versão menor, porém mais resistente da mesma bactéria, é exatamente o que provoca a patologia dos juros altos. E, novamente, tem gente querendo negar a existência da bactéria, e achando que o doente está pronto para correr os 100 metros, e crescer 5%, ou 6%, quem sabe mais.

O Brasil não tem juros altos por que o BC é monetarista ou neoliberal, mas por que o crédito público no Brasil é muito ruim. Nossas contas públicas estão muito desarrumadas para qualquer padrão internacional, à direita ou à esquerda, não obstante o progresso que fizemos. Muita gente se esforça em dizer o contrário, que está tudo bem, que não há problema, da mesma forma como se dizia antigamente que déficits e impressão de papel pintado não provocavam inflação. A capacidade de enganar é crucial para a manutenção de uma doença sem tratamento.

A despeito do encanto nacional com o charlatanismo, no plano das idéias, o Brasil parece convergir para a coisa certa, mas não sem antes experimentar todas as outras alternativas.

O fato é que estamos vivendo uma situação que lembra o famoso personagem “Forrest Gump”, para o qual tudo dava certo, por acidente, sem que ele entendesse as razões, mas também sem que Forrest se tornasse arrogante com o seu sucesso. Nosso Forrest, em contraste, é como Macunaíma, nada tem de inocente.

O ambiente internacional é tão bom, que as nossas contas externas vão colocando tudo no lugar, a inflação cai, os juros, o superávit comercial resiste imenso, e apesar do pouco empenho e da pouca consciência do problema fiscal, as coisas vão melhorando por que o vento a favor é fortíssimo. O Brasil pode ganhar o “grau de investimento” (das agências internacionais de classificação de risco), e praticar juros de primeiro mundo, ainda dentro deste mandato do Presidente Lula, que festejará a conquista, como costuma fazer, sem saber bem o que foi feito para as coisas darem certo.

Os juros vão caindo para os menores níveis nominais que se tem notícia, e entre os economistas a dúvida que surge é se a simples queda dos juros será suficiente para assegurar que o investimento privado vai subir para os níveis necessários para acelerar o crescimento brasileiro a patamares asiáticos. Talvez, é a resposta mais comum. O “ambiente de negócios” é visto como ruim, especialmente no que depende de regulação e impostos, ou seja, do que depende de governo, que é noviço em matéria de entender como funciona uma economia de mercado.

Todavia, a boa notícia sobre a economia de mercado que hoje somos, depois das reformas dos anos 90, é que ela funciona sozinha, bastando ao governo atrapalhar pouco, como tem feito consistentemente.

 

 

 

 

GUSTAVO H. B. FRANCO é economista e professor da PUC-Rio. Foi Presidente do Banco Central do Brasil.