Exame 04.02.2004
O Banco Central deve ser Independente?
Sim.
Antes de
tudo, por uma questão de ética
Nem sempre
se tem claro que o debate sobre a independência do Banco Central é apenas um
capítulo específico de um tema maior, que poderia ser descrito como a
modernização das instituições monetárias e fiscais de sorte a aproximar o Brasil
dos paradigmas internacionais nessas matérias, com isso reduzindo o
“Risco-Brasil” e o custo do capital. O capítulo anterior desta novela, que já
dura vários anos e ainda se encontra incompleto, é o do “ajuste fiscal”, que
tanta gente insistia que não era necessário, ou que era obsessão de neoliberais
insensíveis que não entenderam Keynes e principalmente Kalecki. Enorme
progresso foi alcançado quando o conceito de “responsabilidade fiscal”
recolocou a discussão em outros termos: não se tratava de ser ortodoxo ou
estruturalista no tocante ao déficit público, mas de ética no domínio das
políticas macroeconômicas, fiscal em particular.
Com a
“independência do Banco Central” parece que processo semelhante está tendo
lugar; pois quando o Brasil passa a se preocupar mais com a questão social
(que, em boa medida, foi agravada pelo modelo inflacionário de industrialização
que adotamos durante tantos anos) torna-se imperativa uma revisão radical nas
maneiras pelas quais a inflação é compreendida e tolerada. A inflação é um
imposto que incide principalmente sobre o pobre. Que sentido pode haver em se
cobrar um imposto sobre o pobre num país que quer melhorar seus indicadores
sociais?
A
necessidade de se atacar o problema social faz com que as instituições
monetárias sejam desenhadas de modo a que a defesa da moeda seja intransigente,
pois é assim que se evita que os políticos utilizem o imposto sobre o pobre
para financiar a incontinência fiscal da qual se alimentam. Para não falar no
quanto a inflação vulnerabiliza a cidadania, ou no quanto ela corrói também os
valores não pecuniários. Para ser ético, o desenvolvimento econômico tem de ser
conduzido a partir de uma moeda sadia. Vista deste ângulo, a independência do
BC adquire uma dimensão incontroversa.
Não se pode
perder de vista que o avanço da independência dos BCs mundo afora nas últimas
três décadas é inequívoco e avassalador. É mais fácil justificar esta evolução
como inerente à consolidação das democracias ocidentais, que se fortalecem ao
despolitizar a moeda, e ao criar um “contrapeso” no BC ao “peso” do Ministro da
Fazenda e da incontinência gastadora dos políticos, do que encará-la como uma
ilusão coletiva através da qual todos esses países se eximiram de perceber que
estão a solapar suas democracias dando mandatos indevidos a burocratas que não
foram eleitos. Ou seja, é duro tomar como premissa que determinada evolução
institucional que ocorreu em toda parte, e só faz se consolidar com o tempo,
está equivocada, como aqui se faz. É a velha falácia de que o Brasil é
diferente.
Isso tudo serve para dizer que nós todos pagamos muito caro por termos nos atrasado em acompanhar práticas internacionais consagradas em matéria de políticas fiscal e monetária. É claro que é plausível supor que um movimento significativo na direção da independência do Banco Central vai reduzir o “risco país” e, em conseqüência, valorizar as empresas brasileiras e reduzir o custo do capital e da dívida pública e aumentar o investimento. E além de tudo isso, com instituições que fortalecem a cultura da moeda sadia ficam elevadas as salvaguardas contra os ataques dos políticos ao bolso dos pobres através da inflação, mesmo quando amparados pela idéia, falsa mas infelizmente ainda viva, de que a inflação ajuda o crescimento.