O Globo 04 de julho de 2004
Fernando Henrique Cardoso
Confrontos
com a História
Dez anos de Plano Real, quem diria? Data para celebrações e cobranças.
Celebração em homenagem à população brasileira, que compreendeu e apoiou o
plano, cansada que estava da inflação. Se o Real teve alguma virtude foi, além
da criação da URV, a decisão de abrir o jogo: tudo foi feito informando a
população, sem surpresas, com a antecipação do que poderia ocorrer. Sem a
compreensão e a adesão da sociedade, o plano teria ido ladeira abaixo.
Cobranças porque hoje se confronta o Real com a almejada solução dos problemas
que nos afligem: crescimento maior e sustentado da economia, redução do
desemprego, diminuição da desigualdade e assim por diante.
De que ele deu conta do recado da estabilização, não se duvida. São dez anos de
inflação “civilizada”. Menos notado é que, ao dar cabo da inflação alta,
crônica e crescente, o Real trouxe à tona uma série de problemas já existentes
que o processo inflacionário encobria. Ali, sim, havia uma “herança maldita” a
ser pesadamente digerida.
O sistema financeiro, viciado em receitas inflacionárias, sofreu com sua
ausência e ameaçou mergulhar em crise generalizada. Os governos, em especial os
estaduais e municipais, acostumados que estavam a dar aumentos nominais de
salários, depois corroídos pela inflação alta, viram-se sem condições de honrar
compromissos correntes. Além disso, dívidas que haviam acumulado no passado
tornaram-se virtualmente impagáveis. Os bancos estaduais, grande parte deles
quebrados, sucumbiram pela falta de inflação alta e excesso de créditos
irrecuperáveis contraídos anteriormente. O governo federal, com uma estrutura
de despesa engessada, fortemente concentrada em gastos crescentes com uma
Previdência estruturalmente desequilibrada e uma folha de pagamento em que o
peso dos inativos era cada vez maior, também sentiu os “abalos da
estabilização”.
Todos esses problemas surgiram simultaneamente e exigiram respostas que tomaram
tempo: reformas da Previdência e da administração pública, reestruturação do
sistema financeiro, saneamento e privatização de bancos públicos,
refinanciamento de dívidas associado a programas de ajuste das contas públicas,
etc. Sem enfrentar esses problemas a fundo não haveria futuro para a estabilidade,
muito menos para o desenvolvimento.
Os problemas foram enfrentados sob “tormenta e vento esquivo”. Foram três
crises financeiras internacionais entre 1995 e 1998, e de proporções
crescentes, a primeira, provocada pela desvalorização mexicana, quando o Real
sequer havia completado um ano e o processo de desindexação da economia estava
pela metade. Fomos poupados em um só ano, 1996.
Sobravam dúvidas sobre a velocidade, a profundidade e a abrangência das
reformas, que dependiam de tramitação no Congresso e de ampla negociação
política, além de soluções técnicas que não estavam prontas na prateleira. A
oposição não mediu esforços, nem se preocupou com o custo para o país, para
truncar as reformas o quanto pôde e para aumentar o desgaste do governo.
Tachou o Proer de “programa para salvar banqueiros falidos”, embora ele
obrigasse os banqueiros falidos a transferir o controle dos seus bancos, os
submetesse aos rigores da lei e visasse, fundamentalmente, proteger o programa
de estabilização, a economia e os correntistas. Da mesma forma, tachou a
reforma da Previdência de “atentado aos direitos adquiridos”.
Em que pese esse conjunto de problemas, o Brasil avançou a partir de então.
Avançou porque com o nascimento da nova moeda houve a recuperação da confiança.
Confiança da sociedade no governo e principalmente confiança do país em si
mesmo. Para isso contribuiu a congruência entre o que se disse e o que se fez.
Congruência na condução da reforma monetária e na execução do programa de
reformas que deu o rumo do governo ao longo de dois mandatos.
Avançamos principalmente na área social. Basta dizer que o dispêndio do governo
federal na área social passou de 10% para 14% do PIB. E o crescimento
econômico, embora mais modesto do que o desejável, não deixou de ocorrer em um
ano sequer. No acumulado, o PIB cresceu mais de 30% entre 1993 e 2002.
Se hoje — depois da crise de confiança que se alastrou em 2002 no período
eleitoral e nos custou a recessão de 2003 — assistimos à retomada do
crescimento, que tomara seja duradoura, é porque a economia se beneficia de um
conjunto de modificações que foram introduzidas e enraizadas em anos
anteriores. Para o extraordinário desempenho das exportações, certamente ajudam
as viagens do presidente Lula e a movimentação da diplomacia comercial
brasileira, que, nesse aspecto, segue o que já vinha sendo feito. Mas de pouco
adiantariam não fossem os ganhos de produtividade e qualidade da produção
brasileira, obtidos principalmente pela expansão e melhoria de qualidade do investimento
produtivo nacional e estrangeiro, na esteira do Real e das reformas
institucionais. Não fosse, também, a bem-sucedida mudança do regime de câmbio a
partir de 1999.
Não quero passar a falsa impressão de que todos os caminhos percorridos
estivessem traçados conscientemente desde o início. Ao contrário, houve muitos
azares, dúvidas, tentativas e erros, correções de rota ao longo do processo.
Mas não se perdeu o norte. Nem mesmo em meio à crise traumática que nos obrigou
a mudar o regime de câmbio, em janeiro de 1999. Poderíamos tê-la feito antes?
Talvez. Mas uma coisa é certa. Tomou tempo a construção das condições políticas
e institucionais da responsabilidade fiscal. E sem elas a mudança do regime de
câmbio teria custado a volta da inflação e uma recessão prolongada. Nada disso
ocorreu.
Governar é fazer escolhas, em meio a muitas incertezas e sob muitas restrições.
Quase sempre, requer arcar com custos certos e imediatos para colher benefícios
incertos e no longo prazo. Por isso, ao se fazer a avaliação do Plano Real não
se deve perder de vista as perguntas que realmente importam. Estamos hoje
melhores do que há dez anos? E, ainda mais importante, em melhores condições
para avançar na construção de um país mais desenvolvido e menos injusto? Creio que
uma avaliação tão isenta quanto possível permite dizer que sim.