O Globo, 06.02.05
Fernando Henrique Cardoso
Como estamos no carnaval me permitirei liberdades de imaginação que noutras circunstâncias seriam objeto de reparo de meus amigos mais cautelosos e dos “bem pensantes”, bem como dos eventualmente atingidos por minhas observações. Diriam: “Não fica bem a um ex-presidente desgastar-se em críticas ao governo atual.” Previno que não farei críticas. Apenas, recordando a condição de sociólogo com experiência política, tentarei imaginar como devem sentir-se os antigos líderes sindicais hoje vestidos com os trajes que antes se pensava apropriados para os “burgueses” ou os “patrões”. Lula parece que se sente à vontade. Aliás, nos mais variados trajes :é só ver com que facilidade troca a camisa do MST pela dos Correios, o elegante paletó Armani pela veste de médico num hospital e mesmo a camisa do Corinthians (sem rejeitar nosso time)pela camiseta mais simples das peladas no Torto. Ou ainda a bata branca encimada por um lenço palestino usada no Fórum Social pela correção no traje de moda em Davos. E é bom vê-lo assim ,tão à vontade nos mais variados papéis. Tão contente consigo. Ponto para ele.
Os companheiros sindicalistas que ocupam crescentemente posições na burocracia e na política me parecem menos naturais. Empertigam-se, parecem deliciar-se com as pequenas vantagens dos cargos que ocupam mas não exibem a mesma galhardia do líder maior, que sabe tirar com elegância o prazer da baforada de um “puro” Havana. Mas seriam os únicos ou os primeiros a assim se sentirem, num país que não prima pela moderação,ou encontraram exemplos e estímulos no comportamento de setores políticos de há muito enroscados no poder? O certo é que vão cumprindo razoavelmente seus novos papéis.
Será reprovável esse gozo das facilidades do poder? Quando há exagero, certamente alguns desses comportamentos não compaginam com a moral ou, pelo menos, com a compostura que as funções públicas requerem na vida republicana. Caso contrário, são pecados veniais de quem vem com sede de poder e prestígio para resgatar o passado jejuno. Não é este o preço a pagar pela inclusão no centro do poder de quem nunca esteve nele? E não será também a prova de que a sociedade se democratizou, o que, visto da perspectiva de “los que mandan”, parece aberrante porque não querem abrir espaço para os recém-chegados? Provavelmente, sim. Com certa carga de preconceito inaceitável.
Os fatos aludidos e as observações que fiz podem parecer tremendamente banais. Entretanto, se pusermos o que disse acima em linguagem mais sociológica, não estaremos diante da demonstração de que nas últimas décadas (para ser mais preciso, com a redemocratização) a sociedade brasileira foi muito dinâmica, apresentando grande mobilidade social e, pouco a pouco, está quebrando os velhos preconceitos estamentais, que gostavam de ver “cada macaco em seu galho”?
O documentário de Eduardo Coutinho sobre Os Peões, a respeito dos antigos companheiros de Lula em São Bernardo que não subiram tanto na vida, dá a contraprova do que disse acima. Todos vindos do Nordeste empobrecido para São Paulo dos anos 70, todos trabalhadores honrados e orgulhosos de suas atividades, todos hoje em dia morando em casas pobres, mas provavelmente próprias, e alguns com uma chacrinha no lugar de origem e, quem sabe, uma casinha de alugar? E, sobretudo, todos com a memória orgulhosa das lutas, das greves e guardando de seu líder da época uma imagem terna. Nem todos, é verdade, “chegaram lá”. Mas fazem parte da mesma sociedade que começa a dar um lugar ao sol a quem luta e tem talento. E para isso não foi preciso haver uma revolução, bastou a continuidade das eleições.
Não faltou quem visse na eleição de Lula
uma revolução sem sangue. Mas houve mesmo uma revolução? É aí que a coisa pega.
Houve, sim, uma revolução democrática, não com a eleição de Lula, mas com as
transformações havidas no Brasil que propiciaram sua eleição. Algo que poderia
ser identificado como a versão brasileira do “American dream”, que abre espaço
para a ascensão social, mas não faz uma transformação revolucionária. O líder
sindical que chega nestas condições ao ápice da pirâmide social ou do poder não
carrega consigo a classe. Um ou outro se esquece mesmo um pouco dela. Por isso
muda tão a gusto de traje: à mudança de traje já correspondeu uma mudança de sentimento.
Continuam “companheiros”, mas agora companheiros são todos, de patrões a chefes
de Estado de outros países. E o apelo à solidariedade aos “trabalhadores” ou à
“classe operária” se substitui, pouco a pouco, pelo apelo aos ricos para que
“olhem” para os pobres. Como somos todos uma grande família, ao pai-presidente
cabem o abraço e a bênção de quem releva a todos e a tudo em sua infinita bondade,
até mesmo aos anjos decaídos do PSTU ou do P-SOL, como se viu no Fórum Social
de Porto Alegre. Não digo isso com surpresa, muito menos com nostalgia.
Acompanhei de perto a evolução da
sociedade e da política brasileira nos últimos 40 anos, inclusive a dos
sindicalistas. Não por acaso estranhei e mesmo critiquei o apodo dado ao partido
recém-criado em 1980 de “partido dos trabalhadores”: poderia haver – e como
houve, meu Deus! – uma confusão e uma ilusão. A de que ainda havia espaço para
os velhos partidos de inspiração bolchevique ou leninista. Aos que, com boa fé e
pouca visão histórica, se deixaram envolver neste outro sonho (e é necessário
sonhar para a vida avançar) talvez soem estranhas as palavras dos novos donosdo
poder e talvez se espantem com seus trajes tão bem cortados e envergados. Puro
preconceito, neste caso não de classe, mas ideológico, por parte dos que não se
deram conta de como a sociedade capitalista mudou e, com ela, seus críticos.
Podem não ter deixado de ser críticos, mas já não esperam a salvação a partir
dos valores, das formas de comportamento e dos sonhos da velha classe
redentora. Talvez seja mesmo uma pena....