Revista WISH REPORT ano 3 n.14 2007

 

Atrium Literatura

 

Título: Debate em Pessoa

 

Republicação de textos de 1926 revela em Fernando Pessoa um formidável interlocutor de questões econômicas

 

 “A maior das surpresas no Pessoa economista é a sua extraordinária atualidade. Deixou textos que tratam de privatização, globalização, multiculturalismo, desregulamentação, marketing, <branding>, <clusters>, fordismo, governança corporativa entre outros.”

 

Por Gustavo H. B. Franco

 

Tem sido uma surpresa para muitos dos admiradores de Fernando Pessoa, grata ou ingrata, pouco importa, a revelação trazida pela republicação recente dos escritos do poeta sobre economia e administração de empresas [“A economia em Pessoa, verbetes contemporâneos” Organização de Gustavo H. B. Franco, Rio de Janeiro, Editora Reler]. Pessoa escreve com tamanha desenvoltura, conhecimento de causa e, mais que tudo, universalidade sobre temas que facilmente seriam definidos como áridos, que o seu público, perplexo, se sente como quem descobriu mais um heterônimo, dentre os 70 “outros”, uma extraordinária rede administrada por um maestro sempre pronto a surpreender.

 

Além da qualidade, os escritos do Pessoa economista têm extraordinária atualidade. Ao buscar, em suas palavras, “a absoluta generalidade”, em vez de tratar dos temas específicos de sua época em seus detalhes conjunturais, Pessoa nos deixou textos que tratam de privatização, globalização, multiculturalismo, desregulamentação, marketing, <branding>, <clusters>, fordismo, governança corporativa entre outros.

 

Como pode ser, perguntará o leitor, se essas palavras sequer existiam em 1926? Bem, aqui entra a mão do editor, que apenas oferece uma moldura a instigar o admirador de Pessoa, ou àquele interessado e partidário em qualquer um desses temas, a percorrer o texto “pessoano” com um olhar orientado pela controvérsia de nossos dias. Ou seja, que o leitor admita Fernando Pessoa como interlocutor nos debates recentes onde tem algo a dizer, algo importante, substancial e escrito com o estilo inimitável do poeta plural.

 

Assim, no verbete privatização, o poeta nos diz que “quanto mais o Estado intervém na vida espontânea da sociedade, mais risco há, senão positivamente mais certeza, de a estar prejudicando”. Em globalização, professa o livre cambismo no comércio e na cultura. Contra o protecionismo afirma que “a restrição das importações, sobretudo a dos artigos de luxo”, não ocorreu nunca a qualquer cérebro lúcido como processo direto para melhorar o câmbio. Todos sabem que a melhoria cambial tem de partir de origens mais vitais e profundas”. Por isso mesmo, observa que a indústria protegida tem “caráter parasitário”. Em marketing, ensina sobre “foco no cliente” e que “o comerciante não é mais que um servidor do público”. E dentre as inúmeras lições sobre gestão, <branding>, publicidade e comunicação empresarial fica uma que sintetize seu estilo de ver o mundo: “Não há erros de empregados. Todos os erros de um empregado são apenas o erro de ter empregados que cometem erros”.

 

Pessoa teve uma vida muito ativa como empregado de empresas de comércio exterior, e mais surpreendente ainda, teve diversas experiências como empresário, e não especialmente mal-sucedidas, como se esperaria de um poeta. Na “vida prática” e nos cartórios, ou seja, nas atividades que lhe permitiram ir ao supermercado e gastar com o seu alfaiate, Pessoa precisava ser “ele mesmo”. E foi, com efeito, ortônimo, que publicou seus pensamentos sobre economia, aliás, como fazia costumeiramente, em seus escritos e manifestações, ainda mais abundantes, no terreno da política.

 

Tendo em vista esta rica experiência, nada há de surpreendente que Pessoa tenha iniciado a publicação de uma Revista de Comércio e Contabilidade em 1926, e tenha exibido, em seus escritos, uma sabedoria econômica profunda, precisa e encantadoramente enunciada.

 

 

Gustavo H. B. Franco é economista, professor da PUC-Rio, ex-presidente do Banco Central do Brasil e sócio da Rio Bravo Investimentos.